
Imagem gerada por IA
Um em cada cinco livros de ficção vendidos online tem forte presença de IA
Um novo estudo da Stony Brook University lançou luz sobre um fenômeno que não deve causar grandes surpresas: a inteligência artificial em livros de ficção comercializados online já representa uma fatia relevante do mercado. A pesquisa, conduzida pelo professor Tuhin Chakrabarty, analisou 14.419 e-books autopublicados na Amazon, lançados entre janeiro de 2023 e março de 2026, cruzando os dados com um painel de vendas diárias fornecido por uma das cinco maiores editoras dos Estados Unidos.
Usando a ferramenta de detecção Pangram para escanear o texto integral de cada título, os pesquisadores descobriram que cerca de 20% dos livros da amostra, em praticamente todos os gêneros (romance, ficção científica, suspense), continham mais de 25% de conteúdo gerado por IA.
Segundo o levantamento, a quantidade de novos títulos figurando no Top 25 de vendas da Amazon com forte presença de IA saltou de algo próximo a zero para 31% ao longo do período pesquisado.
Um dos achados mais curiosos do estudo é a repetição de frases inteiras, com cinco palavras ou mais, em sequências idênticas, em livros de autores diferentes sem nenhuma relação aparente entre si. Os pesquisadores chamam isso de "expressões raras": trechos que não aparecem em textos escritos por humanos, mas se repetem, palavra por palavra, em obras suspeitas de terem sido produzidas por IA.
Um mesmo trecho descrevendo uma cena de tensão emocional, por exemplo, apareceu de forma idêntica em livros publicados por autores distintos, sem qualquer citação ou referência cruzada entre eles, o que reforça a hipótese de que ambos foram gerados (ou fortemente auxiliados) pelo mesmo tipo de modelo de linguagem.
Casos emblemáticos: do prompt esquecido ao contrato milionário
Casos mais explícitos também vieram à tona. Em 2025, a autora Lena McDonald foi flagrada por leitores após deixar, sem perceber, um prompt enviado a uma IA no meio do capítulo três de seu livro "Darkhollow Academy: Year 2", pedindo para reescrever a cena "no estilo" de outra autora conhecida do gênero. O caso, amplamente comentado no Reddit e no Goodreads, gerou forte reação dos fãs, que classificaram o episódio como constrangedor.
O caso mais emblemático, porém, é o de "Daggermouth", romance distópico da autora H.M. Wolfe. O livro virou sucesso entre leitores de BookTok, passou meses na lista de mais vendidos da USA Today e teve os direitos comprados pela Simon & Schuster por um valor de sete dígitos. Segundo o estudo, o Pangram identificou 60% do texto de "Daggermouth" como gerado por IA, a marca mais alta entre os títulos populares analisados na pesquisa, que também encontrou nele diversas "expressões raras". A autora nega a acusação e afirma ter escrito o livro sozinha.
FUP Explica
O estudo da Stony Brook University coloca em evidência uma tensão que o mercado editorial ainda não sabe como resolver. Do ponto de vista econômico, a escala é o problema central: se 20% dos e-books autopublicados na Amazon têm mais de 25% de conteúdo gerado por IA, e se títulos com essa característica chegam a representar 31% do Top 25 de vendas, isso significa que o modelo de negócio baseado em volume de publicações pode estar distorcendo o mercado em detrimento de autores que escrevem sem auxílio de ferramentas de geração de texto.
No plano jurídico e institucional, o caso de "Daggermouth" é o mais delicado. A Simon & Schuster pagou um valor de sete dígitos pelos direitos de um livro que, segundo a ferramenta Pangram, tem 60% do texto gerado por IA. Se a autora nega a acusação e não há ainda uma definição legal clara sobre o que configura autoria em obras com participação de IA, abre-se espaço para disputas contratuais e questionamentos sobre a validade dos direitos adquiridos. A ausência de regulação específica tende a deixar editoras, autores e leitores em terreno incerto por algum tempo.
Socialmente, o episódio de Lena McDonald, com o prompt esquecido no meio do capítulo, ilustra bem o que está em jogo para o leitor comum: a confiança na relação entre autor e obra. Quando comunidades como Reddit e Goodreads reagem com força a esses casos, fica claro que parte do público considera a origem do texto um elemento relevante na decisão de compra, e que a reputação de um autor pode ser afetada de forma rápida e pública quando essa origem é questionada.




