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Haddad propõe usar IA para identificar mulheres sob risco de feminicídio em São Paulo; Entenda
Nesta semana, o candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad propôs usar inteligência artificial contra o feminicídio no estado. A ideia é cruzar informações de escolas, unidades de saúde, centros de assistência social e delegacias para identificar antecipadamente mulheres sob risco de violência grave. A tecnologia faria parte do SP Protege, programa de segurança pública da campanha, mas ainda não possui orçamento, cronograma, fornecedor ou modelo de funcionamento detalhados.
IA contra feminicídio: como funcionaria a plataforma
A proposta parte da criação de uma plataforma integrada de proteção. Em vez de depender exclusivamente da denúncia formal da vítima, o sistema receberia sinais identificados por profissionais de diferentes serviços públicos, como médicos, professores, assistentes sociais e policiais.
Assim, caso uma mulher procurasse uma unidade de saúde afirmando ter sofrido uma queda, e o profissional identificasse lesões ou comportamentos compatíveis com violência doméstica, ele poderia registrar o indício em um canal sigiloso. A partir disso, a plataforma cruzaria essa informação com outros dados disponíveis e autorizados, como atendimentos anteriores, boletins de ocorrência, chamadas ao 190 ou medidas protetivas.
A inteligência artificial ajudaria a reconhecer a repetição ou combinação de sinais de risco. Se uma mesma mulher tivesse, por exemplo, registros de agressão, atendimentos médicos recorrentes e chamados policiais relacionados ao endereço, o caso poderia receber prioridade para análise das equipes públicas.
O sistema não teria, de acordo com a proposta apresentada, a função de prever de forma autônoma quem cometerá um feminicídio. Seu papel seria organizar informações dispersas, identificar padrões e alertar profissionais para situações que podem exigir uma intervenção rápida.
Onde a tecnologia seria utilizada
A plataforma seria aplicada de maneira integrada nos sistemas estaduais de segurança, saúde, educação e assistência social. Escolas, unidades básicas de saúde, hospitais, Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e delegacias funcionariam como pontos de identificação e registro dos sinais.
As informações seriam encaminhadas para uma central de proteção, responsável por cruzar os dados e direcionar os alertas. A campanha, no entanto, ainda não explicou onde essa central seria instalada, qual órgão coordenaria sua operação ou quais profissionais teriam autorização para acessar as informações.
Também não foi informado se o sistema começaria por determinadas cidades ou regiões antes de ser incorporado em todo o estado. O plano também prevê Delegacias de Defesa da Mulher funcionando 24 horas nas áreas de maior demanda, mas não apresenta um mapa das primeiras localidades atendidas pela plataforma.
Como a IA seria aplicada na vida real
O funcionamento da proposta pode ser dividido em cinco etapas:
1. Um profissional de saúde, educação, assistência social ou segurança identifica um possível sinal de violência doméstica. 2. O indício é registrado de forma sigilosa em um canal conectado à plataforma estadual. 3. A inteligência artificial cruza o alerta com outras informações autorizadas, procurando ocorrências anteriores, atendimentos recorrentes ou outros fatores relacionados ao risco. 4. O sistema classifica o caso conforme a necessidade de atenção e encaminha o alerta para avaliação humana. 5. As equipes responsáveis decidem qual resposta será adotada, como contato com a vítima, acompanhamento assistencial, proteção policial ou acionamento de outros órgãos.
A eficácia da tecnologia, portanto, dependeria diretamente da capacidade de resposta da rede pública. Mesmo que o sistema identifique uma situação crítica, o alerta somente terá efeito se houver profissionais disponíveis para verificar o caso e proteger a mulher.
Algoritmo ainda não foi detalhado
A campanha não informou qual modelo de inteligência artificial será usado, quais dados poderão alimentar a plataforma ou como cada sinal influenciará a classificação de risco.
Também não foram divulgados os critérios para emissão dos alertas, a taxa aceitável de erros ou as medidas para impedir que situações graves deixem de ser identificadas. Outro risco possível são os falsos positivos, quando o sistema aponta uma ameaça que não é confirmada após a avaliação profissional.
Permanecem indefinidos, ainda, os procedimentos de auditoria contra vieses, o período de armazenamento das informações e as regras de acesso aos registros pessoais. Como a proposta envolve dados potencialmente sensíveis de saúde, segurança, educação e assistência social, sua implantação teria de seguir a Lei Geral de Proteção de Dados.
Quanto custaria a plataforma
Até o momento, o orçamento para a aplicação da inteligência artificial no combate ao feminicídio não foi divulgado. O plano registrado no Tribunal Superior Eleitoral informa que as fontes de recursos serão definidas posteriormente no planejamento e no orçamento estadual.
Também não há previsão pública sobre o número de profissionais envolvidos, equipamentos adquiridos, municípios atendidos ou prazo de implantação. Por isso, não é possível estimar com segurança o valor total do projeto.
A execução exigiria investimentos em desenvolvimento ou contratação da plataforma, integração dos bancos de dados, infraestrutura computacional, conectividade e cibersegurança. Além disso, o governo também teria de financiar treinamento dos profissionais, manutenção dos sistemas, auditorias dos algoritmos e mecanismos de proteção dos dados pessoais.
Além da tecnologia, seria necessário manter uma central operacional e equipes capazes de analisar os alertas e realizar as intervenções. Esses elementos indicam onde estariam os principais custos, mas não constituem um orçamento anunciado pela campanha.
São Paulo registra recorde de feminicídios no primeiro semestre
A proposta foi apresentada diante de um contexto de crescimento dos feminicídios no estado. São Paulo registrou 141 ocorrências no primeiro semestre de 2026, um aumento de 10% em relação aos 128 casos contabilizados no mesmo período de 2025.
O resultado representa o maior número para os seis primeiros meses do ano desde o início da série histórica da Secretaria da Segurança Pública paulista, em 2018.
A proposta de Haddad apresenta, portanto, uma direção de uso da IA: integrar informações, identificar sinais de risco e priorizar intervenções antes que a violência se torne fatal. Ainda falta esclarecer, porém, quanto a plataforma custará, quais dados serão utilizados, como o algoritmo tomará suas decisões, quem controlará o sistema e em quanto tempo a tecnologia poderia começar a funcionar.
FUP Explica
O pano de fundo político é claro: São Paulo vive o pior primeiro semestre em feminicídios desde que a Secretaria de Segurança Pública começou a contabilizar os casos, em 2018, e Haddad usa esse dado para posicionar sua candidatura ao governo estadual em torno de uma resposta tecnológica ao problema. A proposta tem apelo eleitoral evidente, mas ainda é uma intenção sem orçamento, sem cronograma e sem modelo técnico definido, o que limita qualquer avaliação concreta sobre viabilidade.
Do ponto de vista jurídico e institucional, o nó mais delicado é a proteção de dados. A plataforma dependeria de cruzar informações sensíveis de saúde, educação, segurança e assistência social, todas protegidas pela Lei Geral de Proteção de Dados. Isso exige regras claras sobre quem acessa, por quanto tempo os dados ficam armazenados e como o sistema é auditado para evitar vieses, pontos que a campanha ainda não respondeu. Sem esse arcabouço definido antes da implantação, o risco de judicialização é real.
Na dimensão social, a proposta toca num problema concreto: muitas vítimas de violência doméstica não fazem a denúncia formal, e o sistema atual depende quase que exclusivamente desse passo. A lógica de captar sinais dispersos em diferentes serviços públicos faz sentido como complemento à rede de proteção. O problema é que a eficácia do alerta depende da capacidade de resposta do outro lado, ou seja, de profissionais disponíveis para agir quando o sistema sinalizar risco. Se a rede pública não tiver estrutura para isso, a tecnologia identifica o perigo sem conseguir evitá-lo.




