
Energia vira principal gargalo para expansão dos data centers de IA nos EUA
Os data centers de IA se tornaram um dos maiores consumidores de energia elétrica do mundo, e a incapacidade das redes de distribuição de acompanhar esse crescimento virou o principal obstáculo à expansão da inteligência artificial nos Estados Unidos. O que era visto como um problema computacional revelou-se, na prática, uma restrição de infraestrutura física.
O Departamento de Energia dos EUA projeta que os data centers consumam cerca de 12% da energia gerada no país até 2028, ante 2% registrados antes de 2020. A Agência Internacional de Energia estima que a demanda mundial de eletricidade para esse tipo de instalação deverá dobrar até 2030, com os maiores aumentos concentrados nos EUA e na China.
O gargalo não é só de geração. A fila para conectar um transformador à rede elétrica pode levar até sete anos, o que torna a expansão da capacidade instalada um processo lento e custoso. Esse prazo se tornou um dos principais fatores limitantes para novos investimentos em inteligência artificial nos Estados Unidos.
A pressão sobre o sistema elétrico americano também afeta outros setores. Fabricantes de aço, alumínio e produtos químicos em diferentes estados relatam aumento nas contas de eletricidade à medida que as grandes empresas de tecnologia ampliam sua demanda por capacidade elétrica. Reguladores enfrentam o desafio de equilibrar os interesses de consumidores, fabricantes e concessionárias na hora de definir como distribuir os custos da expansão da rede.
A demanda crescente por energia acompanha a evolução dos próprios processadores. Chips como o NVIDIA B200 e o B300 ultrapassam 1 kW de potência térmica, ante os 700W do H100 e H200. Para lidar com esse calor, a refrigeração líquida deve cobrir 53% dos chips de inteligência artificial em 2026 e se aproximar dos 60% em 2027, segundo relatório da TrendForce publicado nesta segunda-feira (17). O número representa uma revisão para cima em relação à projeção de 47% feita pela mesma consultoria em novembro de 2025.
O gargalo energético amplia o escopo de empresas relevantes no setor. Além dos fabricantes de processadores, passam a ganhar destaque companhias de geração e transmissão elétrica, fabricantes de transformadores, fornecedores de sistemas de refrigeração, construtoras industriais e gestores de energia, conforme apontado pelo IT Forum.
Brasil atrai investimentos com excesso de energia renovável
Enquanto os EUA enfrentam escassez, o Brasil convive com o problema oposto: sobreoferta de energia renovável e baixo consumo, o que gera curtailment, os cortes de geração de usinas renováveis coordenados pelo ONS, órgão regulador do sistema elétrico.
Essa condição atrai investimentos externos. A Ada Infrastructure iniciou as obras do seu primeiro data center no Brasil, com investimento previsto de R$ 2,7 bilhões até 2030, conforme apurado pelo portal Conexão Juquery há cerca de seis semanas. O projeto, batizado de GRU10, será instalado em Franco da Rocha e terá capacidade de 300 MW, voltado a operações de computação em nuvem e inteligência artificial. O empreendimento será construído em etapas e, ao final, contará com até três edifícios de alta densidade tecnológica. A obra deve gerar até 1.000 empregos durante a fase de construção, que pode durar até dois anos.
FUP Explica
O ponto central aqui é que a corrida pela inteligência artificial deixou de ser uma disputa só de software e chips: ela virou uma disputa por infraestrutura física, e energia elétrica passou a ser o recurso mais escasso nessa equação. Nos EUA, o prazo de até sete anos para conectar um transformador à rede é um dado que revela o quanto a infraestrutura elétrica americana não foi projetada para esse ritmo de crescimento. Isso cria um teto real para a expansão dos grandes players de IA no curto prazo, independentemente de quanto dinheiro esteja disponível para investir.
Para o Brasil, a leitura é diferente. O país tem energia renovável sobrando a ponto de precisar cortar geração, e isso vira argumento de venda para atrair data centers que não conseguem se instalar nos EUA. O projeto da Ada Infrastructure em Franco da Rocha é um sinal concreto disso. O risco, no entanto, é que a sobreoferta de energia não resolve sozinha: transmissão, regulação e previsibilidade jurídica também pesam na decisão de quem vai instalar uma estrutura de R$ 2,7 bilhões.
No plano econômico mais amplo, a notícia reforça que a cadeia de valor da IA é muito mais longa do que parece. Empresas de refrigeração, construção industrial, cabos, transformadores e gestão energética estão no centro desse ciclo de investimentos, não só as big techs. Quem acompanha o setor só pelo lado dos modelos e dos chips pode estar subestimando onde o dinheiro realmente está circulando agora.
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