FUP News
Com elétricos mais baratos que diesel, UE reforça infraestrutura para caminhões
Logística

Imagem: Quentin Jones DPIE

Com elétricos mais baratos que diesel, UE reforça infraestrutura para caminhões

29/09/2026·757 palavras

Frota elétrica de pesados pode chegar a 50 mil veículos ainda em 2026, enquanto redução dos custos de operação aumenta a pressão por carregadores e conexões de alta capacidade nos principais corredores de carga europeus

Com os caminhões elétricos ganhando espaço nas estradas europeias e já apresentando custos menores que os modelos a diesel em parte dos principais mercados do continente, a União Europeia prepara um novo impulso à infraestrutura necessária para sustentar essa transição. Durante o Connecting Europe Days, realizado em Bruxelas, a Comissão Europeia anunciou que pretende priorizar recursos comunitários para a instalação de pontos de recarga destinados a caminhões e ônibus elétricos, enquanto transportadoras, fabricantes e operadores enfrentam o desafio de acompanhar uma frota que pode chegar a 50 mil veículos pesados movidos a bateria até o fim de 2026.

Segundo o electrive, Eric von Breska, diretor de Investimento, Inovação e Transporte Sustentável da Comissão Europeia, afirmou que recursos do Connecting Europe Facility (CEF) e do Alternative Fuels Infrastructure Facility (AFIF) deverão ser direcionados prioritariamente à infraestrutura de recarga para veículos comerciais pesados. A medida busca reduzir um dos principais obstáculos aos projetos do setor: o elevado investimento inicial, somado à cautela dos bancos em financiar instalações que ainda dependem do crescimento da frota para alcançar maior utilização.

A pressão sobre essa infraestrutura tende a aumentar rapidamente. Atualmente, quase 40 mil caminhões elétricos a bateria estão registrados na União Europeia e, segundo a Comissão, esse número deve alcançar entre 45 mil e 50 mil até o fim do ano, aproximadamente três vezes o volume registrado há dois anos. Ao mesmo tempo, existem cerca de 3 mil pontos públicos de recarga adequados a esses veículos, 60% a mais do que há um ano. Para 2030, a expectativa é de quase 400 mil veículos pesados de emissão zero circulando pelas estradas europeias.

O avanço da frota também deverá exigir investimentos na rede elétrica. Um estudo do Fraunhofer ISI e do International Council on Clean Transportation (ICCT) estima que a demanda anual de eletricidade para recarga de caminhões elétricos na Europa poderá chegar a aproximadamente 100 TWh em 2035 e 200 TWh em 2045. Embora mais de 70% a 80% do abastecimento deva ocorrer nos depósitos das próprias transportadoras, os carregadores públicos serão necessários principalmente para sustentar operações de longa distância.

O desafio não está apenas na quantidade de pontos disponíveis, mas também na localização e na capacidade dessas instalações. Em muitos dos países analisados, apenas 10% dos locais pesquisados concentram entre 60% e 90% da demanda total prevista, principalmente ao longo de corredores de transporte de cargas, entroncamentos rodoviários, áreas industriais e polos logísticos. Nos pontos de maior movimento, a carga máxima sobre a rede poderá chegar a 20 MW ou 50 MW, o que exige conexões elétricas de alta capacidade e planejamento antecipado da infraestrutura.

Ao mesmo tempo, a eletrificação começa a apresentar vantagens financeiras para as transportadoras. De acordo com a SustainabilityOnline, uma análise da Transport & Environment (T&E) concluiu que caminhões elétricos já apresentam menor custo total de propriedade do que modelos equivalentes a diesel em seis dos nove maiores mercados da União Europeia. Juntos, esses países respondem por 46% das vendas de caminhões pesados novos no bloco.

Na Holanda, a economia pode alcançar €100 mil durante cinco anos de operação, enquanto, na Alemanha, chega a €85 mil, com retorno do investimento em aproximadamente dois anos. Caso os preços do diesel permaneçam elevados, a diferença pode subir para €123 mil no mercado holandês e €106 mil no alemão. A T&E estima que, até 2030, os elétricos poderão apresentar custos menores que os modelos a diesel nos nove países analisados, mesmo com a retirada gradual dos subsídios destinados à compra dos veículos.

Nesse cenário, a organização defende a manutenção das metas europeias de redução das emissões de CO₂ para veículos pesados, incluindo o objetivo de corte de 43% até 2030, além de incentivos relacionados aos pedágios. Itália, França, Espanha e Polônia são citadas entre os países que poderiam implementar as regras da Diretiva Eurovinheta, que prevê isenção de tarifas rodoviárias para caminhões de emissão zero até 2031 e descontos entre 50% e 75% posteriormente.

Desde 2024, a União Europeia destinou cerca de €1 bilhão à descarbonização de diferentes modalidades de transporte, dos quais aproximadamente metade foi direcionada à eletrificação de veículos pesados. Com a frota crescendo e os custos operacionais se tornando mais competitivos, o próximo desafio passa a ser garantir que carregadores, conexões elétricas e capacidade da rede avancem no mesmo ritmo, especialmente nos corredores onde se concentra o transporte rodoviário de cargas.

FUP Explica

O ponto central aqui é que a eletrificação de caminhões pesados na Europa deixou de ser uma aposta de longo prazo e virou uma pressão concreta sobre infraestrutura e regulação agora. Quando a T&E mostra que o custo total de propriedade do elétrico já é menor que o do diesel em seis dos nove maiores mercados do bloco, o argumento financeiro muda de lado: não adotar o elétrico começa a custar mais caro para a transportadora, não o contrário. Isso acelera a demanda por carregadores muito mais rápido do que os investimentos em rede conseguem acompanhar, e é exatamente esse gargalo que a Comissão tenta endereçar ao priorizar o CEF e o AFIF para infraestrutura de recarga de pesados.

O problema econômico imediato é o financiamento. Bancos relutam em emprestar para instalações de recarga que ainda dependem de uma frota maior para ser rentáveis, e a frota cresce mais rápido do que os pontos de carga. O estudo do Fraunhofer ISI e do ICCT deixa claro que a concentração da demanda em poucos locais, com picos de até 50 MW, exige planejamento de rede elétrica que leva anos, não meses. Ou seja, a decisão de onde instalar carregadores hoje determina se os corredores de carga europeus funcionam bem em 2030.

No plano político, a manutenção das metas de corte de 43% de CO₂ até 2030 para veículos pesados e a aplicação da Diretiva Eurovinheta em países como Itália, França, Espanha e Polônia são os próximos pontos de atrito. Governos que demorarem a implementar as isenções de pedágio para caminhões de emissão zero podem frear a adoção justamente quando os números financeiros começam a favorecer a transição, o que tende a gerar pressão crescente do setor de transporte sobre os parlamentos nacionais.

Compartilhar:WhatsAppX (Twitter)LinkedIn

Leia também