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De ferrovias a portos: o que Lula e Flávio Bolsonaro propõem para a logística no Brasil
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De ferrovias a portos: o que Lula e Flávio Bolsonaro propõem para a logística no Brasil

09/10/2026·600 palavras

Financiamento, integração regional e infraestrutura estão nos programas, com diferentes estratégias para a participação privada e a indústria nacional

Do escoamento das safras ao deslocamento nas cidades, os planos de governo de Lula, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL, apresentam propostas para enfrentar os gargalos dos transportes no Brasil. Os caminhos incluem investimentos em rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos, com participação pública e privada. Nos trechos fornecidos em seus planos de governo, Flávio prevê R$ 900 bilhões em quatro anos, enquanto Lula propõe dar continuidade ao Novo PAC e organizar novos ciclos de investimentos.

Os valores, porém, têm recortes diferentes. A proposta de Flávio reúne recursos para cinco modais de transporte durante um período de quatro anos. Já o programa de Lula estabelece a meta de mobilizar R$ 1,3 trilhão em investimentos acumulados pelo Novo PAC até o fim de 2026, além de ciclos posteriores. Por isso, os dois montantes não permitem uma comparação direta de investimentos para o mesmo período e conjunto de projetos.

Segundo o plano do Partido Liberal, o custo logístico brasileiro corresponde a 15,5% do PIB, ante 8,8% nos Estados Unidos. A partir desse diagnóstico, o documento propõe Corredores Logísticos Inteligentes de integração nacional, com foco no transporte da produção agrícola do Centro-Oeste até os portos marítimos. A redução dos custos de escoamento é apresentada como uma forma de contribuir para preços menores dos alimentos ao consumidor.

Para financiar os projetos, Flávio Bolsonaro prevê um fundo estruturado por meio da securitização de ativos e imóveis da União, além de parcerias público-privadas e concessões. O programa também direciona os financiamentos do BNDES exclusivamente para obras no Brasil e propõe mecanismos de estabilidade das regras por até 20 anos em grandes empreendimentos de infraestrutura.

Por sua vez, o plano de Lula articula orçamento federal, empresas estatais, financiamentos de bancos públicos e capital privado. Na infraestrutura terrestre, Lula propõe manter o ritmo das concessões rodoviárias e intensificar as ferroviárias, tanto com leilões de novos projetos quanto com a repactuação dos contratos existentes. O documento também prevê estimular encomendas nacionais de locomotivas e vagões para fortalecer a indústria ferroviária e gerar empregos qualificados.

Entre os projetos ferroviários de Flávio Bolsonaro estão o destravamento da Ferrogrão e uma ligação de cargas entre Mato Grosso, o oeste do Paraná e Santa Catarina. O programa inclui concluir o projeto original da Transnordestina e estendê-lo à Paraíba e ao Rio Grande do Norte. Para passageiros, propõe o Trem do Nordeste, com 1.400 quilômetros entre Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e Fortaleza.

Nos portos e aeroportos, Lula prevê novos arrendamentos, concessões para manutenção dos canais de acesso e investimentos em terminais aéreos regionais, acompanhados de incentivos para rotas no interior. A proposta para a indústria naval contempla encomendas da Petrobras e da Transpetro, com previsão de 96 embarcações, das quais 71 seriam construídas em estaleiros nacionais, e exigência progressiva de conteúdo local.

A integração também aparece com enfoques distintos. Flávio propõe viabilizar a Hidrovia do Tapajós com planejamento e diálogo com comunidades locais, aumentar a armazenagem de safras e incentivar o transporte de combustíveis por dutos para o Centro-Oeste. Lula prioriza corredores multimodais sul-americanos, conectando a produção brasileira a saídas pelos oceanos Pacífico e Caribe.

Na mobilidade urbana, Lula prevê mais 233 quilômetros de metrô, trem e VLT, além de 296 quilômetros de corredores de BRT, e financiamento para ônibus elétricos e veículos Euro 6. Na segurança, Flávio propõe presença permanente de tropas especiais da Marinha e da Aeronáutica em portos e aeroportos e o sistema Muralha Brasileira, com mais de um milhão de câmeras de reconhecimento facial em pontos estratégicos.

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O confronto entre os dois programas revela visões bem distintas sobre o papel do Estado na infraestrutura. Flávio aposta na securitização de ativos públicos e na estabilidade regulatória de longo prazo para atrair capital privado, o que pode reduzir o risco percebido pelo investidor, mas também limita a margem de manobra de governos futuros para renegociar contratos. Lula, por outro lado, mantém o Estado como articulador central, combinando bancos públicos, estatais e concessões, modelo que depende da capacidade fiscal do governo e da execução do Novo PAC dentro do prazo previsto.

No campo econômico, o dado do custo logístico brasileiro (15,5% do PIB contra 8,8% nos EUA, segundo o programa do PL) ilustra por que qualquer avanço nessa área tende a ter efeito amplo: custo logístico alto pressiona preços ao consumidor e reduz a competitividade das exportações brasileiras, especialmente do agronegócio. A proposta de Flávio de focar nos corredores do Centro-Oeste até os portos marítimos responde diretamente a esse gargalo. Já a ênfase de Lula em corredores multimodais sul-americanos e saídas pelo Pacífico e pelo Caribe aponta para uma integração regional mais ampla, com potencial de abrir novas rotas comerciais, mas com prazo de maturação mais longo e dependência de acordos com outros países.

Do ponto de vista social, as propostas de mobilidade urbana de Lula (metrô, VLT, BRT e ônibus elétricos) afetam diretamente quem depende do transporte público nas cidades, enquanto o Trem do Nordeste de Flávio, se executado, conectaria capitais nordestinas e poderia reduzir o custo de deslocamento numa das regiões com menor renda per capita do país. Em ambos os casos, o que vai determinar o impacto real não é o que está escrito no programa, mas a capacidade de execução, o modelo de financiamento e a velocidade de licenciamento das obras.

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