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Tarifas de frete recuam na Europa enquanto rotas dos EUA seguem em alta
Às vésperas da Golden Week chinesa, aumento da capacidade nas rotas europeias derruba preços, enquanto demanda, congestionamentos e cancelamentos de viagens sustentam custos elevados no Pacífico
O mercado internacional de transporte de contêineres chega a outubro dividido entre duas direções. Enquanto o retorno gradual dos navios ao Canal de Suez aumenta a oferta de espaço e reduz os fretes entre a Ásia e a Europa, a demanda ainda aquecida, os congestionamentos portuários e os cancelamentos de viagens mantêm os preços elevados nas rotas entre o Extremo Oriente e os Estados Unidos.
O movimento ocorre às vésperas da Golden Week chinesa, quando as transportadoras ajustam a capacidade diante da expectativa de redução dos volumes durante o feriado e embarcadores começam a observar as condições que poderão influenciar os contratos de 2027. O recuo já aparece nos principais indicadores do setor. O Drewry World Container Index (WCI) caiu 1% na semana encerrada em 24 de setembro, para US$ 4.468 por contêiner de 40 pés.
Segundo o gCaptain, a queda foi puxada principalmente pelas rotas entre Ásia e Europa, nas quais o aumento das travessias pelo Canal de Suez começa a devolver capacidade ao mercado. Entre Xangai e Gênova, o frete recuou 5%, para US$ 3.835, enquanto Xangai-Roterdã registrou queda de 4%, para US$ 3.485.
O movimento ocorre apesar dos esforços das companhias marítimas para controlar a oferta por meio dos chamados blank sailings, cancelamentos programados de viagens usados para retirar temporariamente capacidade das rotas. Sete cancelamentos estavam previstos para a semana seguinte no corredor Ásia-Europa, ante três na semana anterior. Ao mesmo tempo, porém, as travessias de porta-contêineres pelo Canal de Suez passaram de 41 para 48 entre as semanas 37 e 38.
Conforme o Interior Daily, a Drewry avalia que a capacidade recuperada com esse retorno deve superar o efeito dos cancelamentos e manter a tendência de queda dos fretes.
Do outro lado do mercado, as rotas transpacíficas seguem mais pressionadas. Os fretes entre Xangai e Los Angeles subiram 2%, para US$ 7.838 por contêiner de 40 pés, enquanto Xangai-Nova York permaneceu praticamente estável em US$ 10.373. As transportadoras também intensificaram os cortes de capacidade antes do feriado chinês, com 15 viagens transpacíficas canceladas para a semana seguinte, frente a nove na anterior. Mesmo assim, a Drewry espera uma redução das tarifas com a chegada da Golden Week e o enfraquecimento sazonal dos volumes.
A Xeneta, entretanto, identifica a possibilidade de uma pressão temporária de alta nas principais rotas dos Estados Unidos no início de outubro. Dados divulgados pelo Safety4Sea mostram que o preço médio spot do Extremo Oriente para a Costa Oeste americana chegou a US$ 8.255 por FEU em 24 de setembro, enquanto o trajeto para a Costa Leste alcançou US$ 11.445. Em relação a 1º de julho, os valores representam altas de 18,4% e 30,7%, respectivamente. No mesmo intervalo, os fretes para o Norte da Europa recuaram 28,7%, e aqueles destinados ao Mediterrâneo caíram 37,8%.
A diferença entre os corredores também aparece nos dados da Freightos. Segundo o Container News, os preços entre a Ásia e a Costa Oeste dos Estados Unidos avançaram 4% na semana anterior, superando US$ 8.100 por FEU, enquanto os fretes para a Costa Leste ficaram próximos de US$ 9.600. Já entre a Ásia e o Norte da Europa, os valores caíram 15%, para US$ 3.700 por FEU. No Mediterrâneo, o recuo foi de 7%, para US$ 3.900, levando os preços de volta aos níveis registrados antes do pico da temporada.
Parte dessa diferença está ligada à retomada das travessias pelo Mar Vermelho e pelo Canal de Suez, que reduz a necessidade de desvios mais longos pelo Cabo da Boa Esperança e devolve capacidade às rotas europeias. A normalização, contudo, ainda enfrenta obstáculos. Os riscos de segurança no Mar Vermelho continuam influenciando as decisões das companhias, enquanto os baixos níveis do Rio Reno e as disputas trabalhistas na Alemanha acrescentam dificuldades às cadeias logísticas da Europa.
Com isso, outubro começa com um mercado marcado menos por uma tendência única e mais pela diferença entre os principais corredores comerciais.
A retomada gradual do Suez favorece a redução dos fretes para a Europa, enquanto demanda mais resistente, congestionamentos e restrições de capacidade ainda sustentam os preços nas rotas americanas. Depois da Golden Week, o comportamento dos volumes, os ajustes das transportadoras e o ritmo de retorno ao Canal de Suez deverão mostrar se essa distância entre os mercados começa a diminuir ou seguirá como um dos fatores relevantes para as negociações de frete de 2027.
FUP Explica
O que este cenário mostra, na prática, é que o mercado de fretes marítimos deixou de se mover como um bloco único. A divergência entre os corredores europeu e transpacífico tem consequências diretas para quem negocia contratos de transporte: exportadores e importadores com rotas para os Estados Unidos enfrentam custos bem mais altos do que aqueles que operam para a Europa, e essa diferença se aprofundou ao longo do terceiro trimestre, com altas de 18% a 31% nas rotas americanas contra quedas de quase 30% a 38% nas europeias desde julho.
No lado econômico, fretes elevados para os EUA encarecem o custo de importação de produtos asiáticos e podem pressionar margens de quem depende dessas rotas, seja para insumos ou para produtos acabados. Para exportadores brasileiros que embarcam via portos asiáticos com destino ao mercado americano, o efeito é indireto, mas real: o espaço disputado e os preços altos no Pacífico tendem a reduzir a flexibilidade de negociação de slots e a elevar os custos logísticos totais da cadeia.
O ponto de atenção de médio prazo está nas negociações de contratos anuais para 2027, que os embarcadores começam a monitorar agora. Se a divergência entre corredores persistir após a Golden Week, as transportadoras terão argumentos para sustentar patamares mais altos nas rotas americanas, enquanto a concorrência por carga na Europa deve pressionar os preços para baixo. A incerteza sobre o Mar Vermelho, os problemas logísticos na Alemanha e o comportamento da demanda nos próximos meses são as variáveis que vão definir se esse desequilíbrio se consolida ou se corrige.




