
Imagem: Divulgação/Huna
Tarcísio quer fim das bets; setor movimenta milhões em patrocínios em São Paulo
O governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas, afirmou, durante o evento “Diálogos da Saúde”, promovido pelo SindHosp na capital paulista, que o Brasil precisa “acabar com as bets” para enfrentar os prejuízos sociais, econômicos e de saúde mental atribuídos às apostas on-line. A proposta apresentada envolve criar ou fortalecer um programa estadual de saúde mental destinado ao tratamento de pessoas com dependência em jogos, sem detalhar como as plataformas seriam proibidas ou retiradas do mercado.
Ele também afirmou que entre 20% e 25% da renda dos brasileiros estaria comprometida com apostas e que algumas empresas estariam pagando terapia para funcionários afetados pelo vício e pela perda de produtividade. Tarcísio, porém, não apresentou a fonte do percentual citado.
Proibição das bets dependeria do governo federal e do Congresso
Um governador não possui competência para extinguir sozinho as plataformas legalizadas. As apostas de quota fixa são regulamentadas pelas leis federais 13.756/2018 e 14.790/2023, e as autorizações para funcionamento são concedidas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
Para eliminar nacionalmente o mercado autorizado, seria necessário aprovar uma nova lei federal no Congresso, revogar ou interromper as autorizações concedidas pelo Ministério da Fazenda e bloquear sites, aplicativos, contas bancárias e meios de pagamento. Além disso, o governo precisaria desenvolver uma estratégia para impedir que os apostadores migrassem para plataformas ilegais sediadas no exterior.
A legislação atual, com base na Lei 14.790/2023, autoriza o bloqueio de contas e transações de operadores irregulares, além da retirada de sites e aplicativos ilegais após notificação. Esses instrumentos, no entanto, são administrados por autoridades federais, não diretamente pelo governo paulista.
Dentro de suas atribuições, Tarcísio poderia criar serviços especializados em dependência de jogos, capacitar profissionais da saúde, financiar campanhas de prevenção, estabelecer protocolos para identificar comportamento compulsivo e restringir anúncios em imóveis, equipamentos, concessões e eventos financiados pelo estado. O governo também poderia fiscalizar relações de consumo por meio do Procon-SP e pressionar o Congresso por regras nacionais mais restritivas.
A Prefeitura de São Paulo discutia, em agosto de 2026, uma iniciativa semelhante para limitar anúncios de apostas em ônibus, metrô, arenas e outros espaços públicos. A medida atingiria a publicidade urbana, mas não impediria o funcionamento dos aplicativos.
Patrocínios e publicidade das bets em São Paulo
É difícil estipular o montante total de todos os investimentos das casas de apostas no estado de São Paulo, uma vez que não há uma base pública para isso. Os dados disponíveis estão dispersos entre publicidade, clubes, televisão, festivais, influenciadores, tecnologia e fornecedores. Ainda assim, os valores identificados indicam um fluxo comercial de pelo menos R$ 679 milhões por ano no estado, considerando somente mídia exterior na capital e os principais patrocínios do futebol paulista.
Entre janeiro de 2025 e junho de 2026, as bets investiram aproximadamente R$ 422 milhões em mídia exterior na cidade de São Paulo, segundo o Monitor Evolution, da Kantar Ibope Media. O levantamento abrange outdoors, painéis digitais, pontos de ônibus, elevadores, mobiliário urbano e publicidade nos meios de transporte. As apostas ficaram na sexta posição entre 184 categorias de anunciantes na capital, de acordo com apuração da Folha de São Paulo.
Dividido pelos 18 meses analisados, o montante corresponde a uma média de R$ 23,4 milhões mensais ou aproximadamente R$ 281 milhões em 12 meses.
A cadeia beneficiada inclui empresas de outdoors, painéis digitais, mobiliário urbano, impressão, instalação, tecnologia publicitária, planejamento e compra de mídia, agências de propaganda, produtoras audiovisuais e serviços de monitoramento de audiência.
Clubes paulistas e os contratos com casas de apostas
No futebol, os contratos fixos ou estimados de quatro grandes clubes paulistas somam aproximadamente R$ 398 milhões anuais.
O Corinthians recebe R$ 150 milhões fixos por temporada da Esportes da Sorte, com bônus que podem elevar o acordo para mais de R$ 200 milhões por ano. O Palmeiras firmou contrato estimado em R$ 300 milhões por três temporadas com a Sportingbet, o equivalente a uma média de R$ 100 milhões anuais. O São Paulo possui um acordo de R$ 680 milhões fixos até 2030 com a Superbet, equivalente a aproximadamente R$ 113 milhões por ano; o contrato pode chegar teoricamente a R$ 1 bilhão, mas parte do valor depende do cumprimento de metas esportivas. O Santos, por sua vez, recebe aproximadamente R$ 35 milhões anuais da Novibet, com possibilidade de aumento mediante metas. O clube havia recebido R$ 51 milhões de uma patrocinadora anterior em 2025 e deixaria de receber R$ 54 milhões em 2026 após o rompimento do contrato.
Esse cálculo de R$ 398 milhões não inclui bônus, placas nos estádios, ativações digitais, patrocínios secundários, campeonatos nem clubes de divisões inferiores. Mirassol e Red Bull Bragantino, por exemplo, não utilizam uma casa de apostas no espaço máster de suas camisas.
Dinheiro das bets também chega à cultura, à mídia e à tecnologia
A influência econômica das bets ultrapassa o futebol. As plataformas passaram a financiar festivais, festas populares, eventos musicais, teatros e projetos institucionais. A Superbet tornou-se, em 2024, a primeira casa de apostas a patrocinar o Lollapalooza Brasil, realizado em São Paulo. Parte desses investimentos também passou por projetos incentivados pela Lei Rouanet. Os valores individuais de muitos contratos, contudo, não são públicos.
Em 2026, as empresas de apostas apareciam como o terceiro maior segmento anunciante da televisão brasileira. Paralelamente, os valores dos patrocínios máster da Série A teriam aumentado 125% em dois anos.
Além de clubes e eventos, os recursos alcançam emissoras de televisão e rádio, portais de notícias, plataformas digitais, influenciadores, produtoras de vídeos e podcasts, empresas de dados esportivos, afiliados, escritórios jurídicos, meios de pagamento, serviços financeiros, companhias de tecnologia, atendimento ao consumidor e áreas de conformidade.
Um estudo encomendado por entidades do próprio setor estimou que o mercado regulamentado sustentava, em todo o Brasil, 10 mil empregos diretos, 5,5 mil indiretos, R$ 460 milhões em salários anuais, R$ 87 milhões em encargos sociais e R$ 1,1 bilhão por temporada em patrocínios máster na Série A. Como o levantamento foi contratado pelas empresas de apostas, os números devem ser tratados como uma estimativa empresarial, não como avaliação independente.
Em 2025, os brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas plataformas legalizadas. Desse total, R$ 183,7 bilhões retornaram como prêmios e bônus, enquanto R$ 36,9 bilhões permaneceram com as operadoras como receita bruta de jogos. Portanto, não é correto afirmar que todo o dinheiro apostado simplesmente desapareceu da economia.
Uma eventual proibição produziria principalmente uma redistribuição do fluxo financeiro: os setores hoje diretamente financiados pelas bets perderiam receitas de maneira imediata, enquanto uma parcela dos recursos poderia retornar gradualmente ao consumo, ao pagamento de dívidas e à poupança. Até agora, porém, Tarcísio não explicou como pretende promover essa proibição. A única iniciativa efetivamente anunciada por ele, até o momento, é oferecer tratamento de saúde mental aos dependentes de apostas.
FUP Explica
Do ponto de vista econômico, os números levantados no texto mostram por que qualquer movimento nessa direção seria politicamente custoso. Só em São Paulo, clubes de futebol, emissoras, agências e empresas de tecnologia movimentam centenas de milhões de reais por ano com as bets.
Uma proibição imediata concentraria perdas em setores bem organizados e com capacidade de pressão, enquanto os eventuais benefícios, como a redução do superendividamento das famílias, seriam difusos e de prazo mais longo. Esse desequilíbrio entre perdedores imediatos e ganhadores graduais costuma travar reformas desse tipo.
No campo social, o debate sobre dependência em jogos tende a ganhar força independentemente do resultado eleitoral, porque os custos já aparecem em empresas, serviços de saúde e assistência social. A proposta de ampliar o atendimento de saúde mental para dependentes de apostas é, dentro das competências estaduais, a medida mais concreta e factível que Tarcísio apresentou. Se implementada com consistência, pode ter efeito real, ainda que limitado diante da escala do problema.




