
Rota de baixo carbono levará 200 mil toneladas de açúcar a Santos em 2027
Projeto combina biometano, transporte rodoviário e ferrovia para reduzir emissões na logística de açúcar destinado à exportação. Iniciativa de sustentabilidade em cadeia de exportação com impacto indireto em custos logísticos.
Minas Gerais inaugurou em agosto de 2026 uma rota de baixo carbono para transportar açúcar destinado à exportação até o Porto de Santos. O projeto-piloto, liderado pela Bioenergética Aroeira em parceria com Gasgrid/ZEG Biogás, Aguetoni Transportes e VLI Logística, integra biometano no trecho rodoviário e ferrovia no trecho seguinte, segundo o Transporte Moderno.
A operação funciona em duas fases. Na primeira, caminhões abastecidos com biometano transportam o açúcar até o Terminal Integrador de Uberaba, administrado pela VLI. Na segunda, a carga segue pela Ferrovia Centro-Atlântica até Santos para exportação. A lógica é combinar dois modais de menor emissão em uma mesma cadeia, em vez de substituir completamente um pelo outro.
O biometano utilizado é produzido a partir de resíduos do processamento da cana-de-açúcar, transformados por biodigestão e purificação em combustível renovável.
O Transporte Moderno descreve o modelo como economia circular: resíduos que seriam passivos da cadeia sucroenergética passam a gerar energia para movimentar a própria produção e distribuição. A produção doméstica do combustível também reduz a dependência de derivados de petróleo e a exposição às oscilações internacionais de preços de energia.
Segundo a VLI, o transporte ferroviário pode emitir até 75% menos CO₂ por tonelada transportada em comparação com caminhões abastecidos com combustíveis fósseis.
Escala do piloto e projeções
Na fase atual, a movimentação estimada é de 12 mil toneladas de açúcar por mês. A expectativa dos parceiros é ampliar gradualmente a operação ao longo do segundo semestre de 2026 e, para 2027, movimentar aproximadamente 200 mil toneladas de açúcar pela rota.
O projeto é apresentado como um teste para um modelo replicável em outras cadeias e corredores logísticos, especialmente em regiões com produção de biometano próxima às áreas de origem das cargas.
Precedente da Copersucar
A iniciativa não é a primeira do setor. Desde abril de 2024, o projeto BioRota da Copersucar mobilizou 70 caminhões movidos a biometano, realizou mais de 13 mil viagens e percorreu 11 milhões de quilômetros, transportando aproximadamente 600 mil toneladas de açúcar até o Terminal Açucareiro da Copersucar em Santos, segundo o portal Portos e Aeroportos FPPA.
A substituição do diesel pelo biometano nesse projeto evitou a emissão de 8 mil toneladas de CO₂, equivalente ao carbono capturado por 380 mil árvores em um ano, conforme a mesma fonte. A Copersucar, que faturou entre 65 e 70 bilhões de reais no último ano e produziu 16 milhões de toneladas de açúcar e 13 bilhões de litros de etanol, aponta o BioRota como modelo replicável para descarbonizar sua operação, de acordo com o Portos e Aeroportos FPPA.
FUP Explica
O que chama atenção nessa iniciativa não é apenas a redução de emissões em si, mas o modelo que ela demonstra: é possível descarbonizar a logística de exportação sem depender de uma solução única e disruptiva. A combinação de biometano no trecho rodoviário com ferrovia no trecho longo é mais barata de implementar do que eletrificar frotas ou construir nova infraestrutura, e aproveita o que já existe, tanto em termos de modal ferroviário quanto de resíduo agroindustrial disponível.
Do ponto de vista comercial, isso começa a ter peso real. Mercados importadores de açúcar, especialmente na Europa, avançam em exigências de rastreabilidade de carbono nas cadeias de suprimento, o que inclui o transporte. Exportadores que conseguem documentar emissões menores no Escopo 3 (as emissões indiretas, que incluem frete e logística) tendem a ter vantagem competitiva crescente nas negociações com compradores que precisam cumprir metas climáticas próprias. O projeto de Minas Gerais e o BioRota da Copersucar apontam nessa direção.
A questão de escala ainda é o principal teste. Passar de 12 mil toneladas mensais para 200 mil em 2027 exige que a produção de biometano acompanhe a demanda, que a infraestrutura ferroviária suporte o volume adicional e que os custos operacionais se mantenham competitivos frente ao diesel convencional. Se o piloto confirmar viabilidade econômica, o modelo tende a atrair outros operadores do agronegócio que enfrentam o mesmo desafio de reduzir a pegada de carbono sem abrir mão da eficiência logística.




