
Imagem gerada por IA
Robôs de trânsito ganham novas funções e passam a patrulhar ruas na China
Equipamentos usados em Hangzhou orientam condutores e turistas, identificam infrações e ajudam policiais em tarefas repetitivas
Em cruzamentos movimentados de Hangzhou, no leste da China, policiais dividem o trabalho com robôs que sinalizam quando parar, alertam condutores sem capacete e respondem a dúvidas de turistas. Em operação desde maio, a equipe de 15 máquinas recebeu, em setembro, atualizações para circular com mais autonomia e acompanhar mudanças no trânsito. A iniciativa busca transferir parte das tarefas repetitivas aos equipamentos, permitindo que os agentes se concentrem em acidentes, emergências e atendimento à população.
Segundo o China Daily, a polícia local anunciou as melhorias em 14 de setembro, com previsão de utilizar os robôs principalmente nos arredores do Lago Oeste durante a temporada turística de outono. O posicionamento será definido conforme o movimento de pedestres e veículos. Após mais de quatro meses de serviço, as autoridades informaram que as máquinas haviam emitido mais de 230 mil alertas sobre infrações e realizado mais de 11 mil atendimentos ao público.
A atualização modifica uma limitação das primeiras operações: antes, os robôs permaneciam voltados principalmente para uma direção, o que restringia a observação dos demais lados dos cruzamentos. Agora, conseguem girar e ajustar sua orientação conforme as condições do tráfego. Também receberam melhorias de localização para planejar trajetos, desviar de obstáculos e respeitar os semáforos ao atravessar faixas de pedestres.
O modelo T2, desenvolvido pela SUPCON Information, tem 1,88 metro de altura, pesa 98 quilos e se desloca sobre rodas. Conforme reportagem da Reuters publicada em agosto, câmeras, radar e processamento embarcado permitem identificar condutores de bicicletas elétricas sem capacete, transporte de passageiros nesses veículos, paradas sobre linhas demarcadas e travessias com o sinal fechado. Apesar da aparência de policial, o equipamento não carrega arma nem tem poder de prisão.
Naquele momento, a fabricante afirmava que os robôs de Hangzhou haviam emitido mais de 170 mil advertências e contribuído para reduzir em mais de 40% os registros mensais de circulação sem capacete e avanço sobre linhas de parada. Esses resultados, porém, não foram verificados de forma independente, e a polícia da cidade não respondeu ao pedido de comentário da agência.
O funcionamento privilegia a orientação imediata. Em reportagem do People's Daily reproduzida pelo Alwihda Info em junho, o policial Chen Sanchuan explicou que, quando uma infração não é corrigida após três avisos, o sistema registra os indícios e os encaminha a uma central da polícia de trânsito. A proposta é assumir parte da rotina de fiscalização, liberando os agentes para ocorrências que exigem intervenção humana.
Além de acompanhar o tráfego, os equipamentos informam caminhos, regras de circulação e opções de estacionamento. Com as melhorias de setembro, passaram a contar com microfones que reduzem o ruído das ruas e um modelo de linguagem capaz de interpretar perguntas menos precisas e solicitar esclarecimentos. As respostas podem ser apresentadas em chinês e inglês.
Ainda existem limitações técnicas: luz solar intensa, chuva e temperaturas extremas podem afetar câmeras e radar. A exportação também exige adaptações. O Technology.org destacou que a AiMOGA, apoiada pela Chery, vê oportunidades em regiões onde policiais enfrentam calor ou chuvas prolongadas. Segundo o executivo Zhang Guibing, porém, a venda depende de certificações, integração com sistemas locais e cumprimento das regras de proteção de dados.
Os testes com humanoides no país também alcançam atividades agrícolas. De acordo com a CGTN, em reportagem de 10 de maio, robôs participaram da colheita, do transporte e do preparo de chá ao lado de agricultores em Fuding, na província de Fujian. A experiência integrou uma etapa preliminar dos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides de 2026, após uma semana de treinamento.
Durante a atividade, os engenheiros identificaram dificuldades relacionadas ao contato dos dedos robóticos com as folhas e coletaram dados para aperfeiçoar os movimentos. Segundo os participantes, a tecnologia pode ajudar a enfrentar a escassez de mão de obra e preservar métodos tradicionais de produção. O mestre de chá Wang Chuanyi avaliou que os equipamentos ainda precisam evoluir, mas podem alcançar maior precisão no controle de temperatura, umidade e tempo de preparo.
FUP Explica
A experiência de Hangzhou mostra um caminho que governos mundo afora vão observar com atenção: usar robôs para absorver a parte mais repetitiva do trabalho policial, como fiscalizar capacetes e paradas sobre faixas, sem substituir o agente humano nas situações que exigem julgamento. O modelo não é de substituição, mas de complementação, e isso tende a reduzir a resistência política e sindical que projetos de automação costumam enfrentar.
Do ponto de vista econômico, o dado mais relevante é o que ainda não foi verificado: a fabricante SUPCON Information afirma redução de mais de 40% em certas infrações, mas a polícia de Hangzhou não confirmou os números à Reuters. Isso importa porque, se os resultados forem reais e auditáveis, o argumento comercial para exportar o modelo fica muito mais sólido. Por ora, a AiMOGA e outras empresas do setor enfrentam um obstáculo concreto: certificações, integração com sistemas locais e regras de proteção de dados variam muito entre países, e esse custo de adaptação pode limitar a expansão internacional a mercados com regulação mais permissiva ou menos consolidada.
No plano social, a questão central é a aceitação pública. O fato de o robô não ter poder de prisão e funcionar como orientador antes de fiscalizador é uma escolha de design que provavelmente não é acidental: reduz o atrito com o cidadão e posiciona a tecnologia como serviço, não como vigilância. Mesmo assim, a coleta contínua de imagens em espaço público levanta perguntas sobre uso dos dados que o relato das fontes não responde.




