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Boom da IA leva OMC a mais que dobrar previsão de crescimento do comércio mundial
Demanda por semicondutores e equipamentos para centros de dados sustenta fluxo de mercadorias, enquanto custos de combustível prejudicam transportes e turismo
A corrida por equipamentos de inteligência artificial deu novo fôlego ao comércio internacional e levou a Organização Mundial do Comércio (OMC) a elevar, nesta quinta-feira (8), em Genebra, sua previsão de crescimento do volume de mercadorias negociadas em 2026, de 1,9% para 3,9%. Impulsionadas pelos investimentos em semicondutores e centros de dados, as trocas comerciais resistiram melhor do que o esperado às interrupções provocadas pela guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Segundo a Reuters, o comércio de produtos que viabilizam a inteligência artificial cresceu 67% em relação ao ano anterior. Em valor, esses bens responderam por 47% do crescimento das transações internacionais de mercadorias no primeiro semestre de 2026. O resultado mostra o peso dos investimentos em infraestrutura tecnológica na sustentação das compras e vendas entre países, embora esse movimento permaneça concentrado geograficamente.
A revisão também alcançou o próximo ano. Para 2027, a OMC passou a projetar crescimento de 4,1% no volume do comércio de mercadorias, ante os 2,6% previstos anteriormente. Apesar da melhora, o avanço esperado ainda fica ligeiramente abaixo dos 4,2% registrados em 2025. A perspectiva mais favorável para os bens, contudo, contrasta com a deterioração das condições para os serviços.
Nesse segmento, a organização reduziu a estimativa de crescimento para 2026 de 4,8% para 3,3%, diante da alta do combustível de aviação e das dificuldades enfrentadas pelos transportes e pelo turismo. As projeções para essas duas atividades ficaram em apenas 0,9% e 0,2%, respectivamente. Para 2027, a expectativa é de recuperação, com expansão de 6,4% no comércio de serviços.
O relatório também revela uma diferença expressiva entre quantidade e valor das mercadorias negociadas. No primeiro semestre, o volume cresceu 3,5% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o valor das transações em dólares avançou 15%. Conforme o Báo Thanh Hóa, em texto reproduzido pelo Vietnam.vn, essa distância reflete tanto o encarecimento da energia quanto a forte demanda por bens ligados à IA. A adaptação das cadeias de abastecimento também ajudou a preservar os fluxos comerciais.
No mercado energético, o Brasil aparece entre os países que contribuíram para atenuar as consequências do conflito. O Valor Econômico destacou que brasileiros, noruegueses e americanos aumentaram suas exportações de petróleo, reduzindo parte do impacto da guerra no Golfo. Esse movimento se soma à reorganização das cadeias de fornecimento em meio às dificuldades nos mercados de energia, fertilizantes e transporte.
Os resultados, entretanto, variam bastante entre as regiões. A Ásia deve liderar o crescimento do comércio de mercadorias em 2026, com alta de 9,5% nas importações e de 9,9% nas exportações. Para a África, as estimativas são de 8,9% e 5,6%, respectivamente. Na América do Norte, as compras externas devem subir apenas 1,4%, enquanto as vendas ao exterior podem crescer 5,7%.
O Oriente Médio enfrenta o cenário mais desfavorável: suas importações devem cair 15,4%, e as exportações, 17,2%. A OMC também prevê retração de 4% na atividade econômica da região, diante de um crescimento estimado de 2,6% para o PIB mundial. Ainda assim, as projeções estão sujeitas a riscos, entre eles novas interrupções no Estreito de Ormuz, a guerra entre Rússia e Ucrânia e uma possível desaceleração dos investimentos em IA.
Além dessas incertezas, a relação comercial entre Estados Unidos e China segue em transformação. Embora a OMC identifique sinais de menor fragmentação entre blocos geopolíticos, o afastamento entre as duas economias se acelerou. As importações americanas de produtos chineses caíram 29% em 2025, reduzindo a participação da China nas compras dos EUA para 9,3%, ante mais de 20% antes do início das tensões comerciais, em 2018.
FUP Explica
O dado mais revelador do relatório da OMC não é o número headline, mas a composição do crescimento: 47% do avanço do comércio de mercadorias no primeiro semestre veio de produtos ligados à inteligência artificial. Isso significa que o comércio mundial está cada vez mais dependente de um único ciclo de investimento tecnológico, concentrado em poucos países e empresas. Se esse ciclo desacelerar, como a própria OMC aponta como risco, a revisão otimista pode se reverter rapidamente.
Para o Brasil, há um sinal positivo pontual: o país aparece entre os que aumentaram exportações de petróleo e ajudaram a compensar o impacto da guerra no Golfo. Isso reforça a relevância do petróleo brasileiro no mercado internacional de energia, especialmente em momentos de instabilidade nas rotas do Oriente Médio. Por outro lado, a queda de 15,4% nas importações do Oriente Médio e a retração de 4% na atividade econômica da região indicam um mercado comprador encolhendo, o que pode afetar exportadores que dependem dessa demanda, inclusive em fertilizantes e alimentos.
A aceleração do afastamento entre EUA e China é outro ponto de atenção. A participação chinesa nas importações americanas caiu de mais de 20% em 2018 para 9,3% em 2025, uma mudança estrutural que reorganiza cadeias de fornecimento e abre espaço para outros fornecedores, mas também cria incerteza sobre para onde os fluxos se redirecionam. A OMC identificar sinais de menor fragmentação entre blocos ao mesmo tempo em que registra esse afastamento acelerado entre as duas maiores economias sugere que o quadro ainda está em movimento, sem desfecho claro.




