
Imagem gerada por IA
Restrições de diesel ameaçam plantio no RS e levam produtores a cobrar ANP
Produtores gaúchos enfrentam escassez de diesel, ameaçando plantio de arroz e soja; crise relacionada à guerra no Irã afeta logística agrícola e exportações brasileiras.
Produtores rurais do Rio Grande do Sul voltaram a relatar restrições e atrasos na entrega de diesel no início do plantio da safra de verão. Diante das queixas, a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) encaminhou na segunda-feira (14) um ofício à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), no qual manifesta preocupação com o abastecimento de combustível nas propriedades rurais.
A situação ocorre em um período sensível do calendário agrícola. Segundo a Farsul, o plantio tem uma janela limitada e atrasos no fornecimento de diesel podem prejudicar as operações mecanizadas, reduzir a área plantada e afetar a produtividade.
O presidente da entidade, Domingos Velho Lopes, afirmou que as queixas atuais repetem um problema enfrentado no início de 2026, durante a colheita de arroz e soja. Naquele período, produtores relataram dificuldades para receber o combustível mesmo diante de informações oficiais sobre a existência de estoques no estado.
No episódio registrado durante a colheita, operações agrícolas chegaram a ser interrompidas e o diesel foi comercializado por até R$ 9 o litro. As dificuldades atingiram cerca de 170 municípios gaúchos, segundo informações retomadas pela Farsul em setembro.
Os números, porém, referem-se ao episódio do primeiro trimestre e não representam a situação atual do abastecimento no Rio Grande do Sul.
Na época, a ANP chegou a informar que não havia falta de produto, mas problemas relacionados à logística. Em 25 de março, levantamento da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) apontava 166 municípios com dificuldades relacionadas ao abastecimento.
Agora, a Farsul afirma estar reunindo novos relatos e pede que a ANP dê transparência aos estoques regionais, aos pedidos recusados, aos volumes destinados aos Transportadores-Revendedores-Retalhistas (TRRs), ao calendário de importações e aos prazos de entrega.
A Farsul também aponta a diferença entre os preços domésticos e os custos de importação como um sinal de alerta para o abastecimento.
Dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) citados pela entidade mostram que o preço nacional do diesel A permaneceu abaixo da paridade de importação durante todo o mês de agosto, com diferença que chegou a R$ 2,56 por litro.
A própria Farsul ressalva que o indicador não comprova, isoladamente, falta física de combustível. A preocupação é que a diferença de preços reduza o incentivo econômico à importação em um país que depende do mercado externo para atender parte do consumo de diesel. Segundo Domingos Velho Lopes, a entidade também pretende cobrar investigação sobre eventuais recusas injustificadas de fornecimento e aumentos considerados abusivos.
Episódio de março ocorreu em meio à alta do petróleo
As dificuldades registradas no primeiro trimestre ocorreram durante uma forte elevação dos preços internacionais do petróleo provocada pelo conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
Em março, a Agência Brasil informou que o país importava cerca de 30% do diesel consumido internamente. Naquele momento, dados da ANP apontavam alta de aproximadamente 20% no preço do combustível desde o início dos ataques ao Irã, em 28 de fevereiro.
Governo anuncia subvenção de R$ 1 por litro
Em meio às preocupações atuais com o abastecimento, o governo federal anunciou em 9 de setembro uma subvenção de R$ 1 por litro para produtores e importadores de diesel. A Farsul avaliou a medida como necessária, mas afirmou que os efeitos precisam chegar aos produtores tanto por meio dos preços quanto pela regularidade das entregas.
A entidade segue reunindo relatos de produtores e cobra providências dos órgãos responsáveis para evitar que eventuais restrições no fornecimento prejudiquem o avanço do plantio da safra de verão.
FUP Explica
O problema tem duas camadas que se reforçam. A primeira é estrutural: o Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome e, com a guerra no Irã pressionando os preços internacionais, o combustível comprado lá fora chega mais caro do que pode ser vendido aqui. Isso desestimula importadores privados a fechar contratos, e o resultado aparece no volume previsto para outubro, muito abaixo do que o mercado demanda no pico da safra. A segunda camada é política: o governo anunciou subvenção de R$ 1 por litro, mas a regulamentação ainda não saiu, e o setor aguarda também um eventual reajuste da Petrobras. Enquanto essas definições não vêm, o abastecimento segue travado.
Para o produtor gaúcho, o timing é o pior possível. O plantio tem janela agronômica rígida, e atraso significa área menor plantada ou queda de produtividade, não há como recuperar depois. O Rio Grande do Sul concentra 70% do arroz nacional, então qualquer redução de safra no estado repercute na oferta interna e, consequentemente, no preço ao consumidor. A repetição do episódio de início de 2026, quando o combustível chegou a R$ 9 por litro em algumas regiões e paralisou operações em 170 municípios, mostra que a Farsul tem razão em acionar a ANP agora, antes que o problema se instale de vez.
O nó mais difícil de resolver é a defasagem de preços. Com a paridade de importação 104% acima do preço interno, nenhum importador privado tem incentivo para trazer diesel, e a Petrobras sozinha não consegue suprir a demanda de pico. Sem reajuste de preços ou subvenção regulamentada e funcionando, a tendência é que o volume disponível em outubro fique aquém do necessário, exatamente quando tratores e colheitadeiras precisam estar em campo.




