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El Niño ameaça soja brasileira com seca no Centro-Norte e excesso de chuva no Sul
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El Niño ameaça soja brasileira com seca no Centro-Norte e excesso de chuva no Sul

11/09/2026·739 palavras
Fenômeno climático com impacto direto na produção de soja brasileira, principal commodity de exportação. Afeta preços, volumes e planejamento logístico de exportadores.

A possibilidade de formação de um El Niño de forte intensidade ganha importância para o agronegócio brasileiro em setembro de 2026, quando começa o plantio da nova safra de soja. Projeções atribuídas à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicam alta probabilidade de desenvolvimento do fenômeno, enquanto estimativa de Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, aponta que entre 45% e 50% da área cultivada com soja no Brasil está localizada em regiões que merecem maior atenção diante das possíveis alterações no regime de chuvas, segundo a Exame.

De acordo com dados da NOAA, a probabilidade indicada para o fenômeno chega a 97% em setembro. A publicação também relata uma estimativa de 93% de manutenção de temperaturas muito elevadas no oceano Pacífico até janeiro de 2027. 4Para o trimestre de outubro a dezembro, há uma probabilidade de 75% para um episódio de intensidade excepcional em comparação com eventos registrados desde 1950.

Os possíveis impactos do El Niño não são uniformes no território brasileiro. No Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, além do Norte e do norte de Mato Grosso, a preocupação está relacionada principalmente à possibilidade de redução das chuvas.

Partes do Centro-Oeste e do Sudeste também podem registrar diminuição das precipitações. No Sul, o padrão associado ao fenômeno é diferente, com possibilidade de chuvas acima da média, condição que pode provocar atrasos no plantio, prejudicar o estabelecimento inicial das plantas e favorecer determinadas doenças.

Documento técnico do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) aponta que episódios de El Niño costumam estar associados a menor volume de chuva e maior frequência de períodos de estiagem em partes das regiões Norte e Nordeste e em áreas mais ao norte do Centro-Oeste e Sudeste. Essas condições podem elevar os riscos para lavouras de sequeiro.

Na Região Sul, por outro lado, episódios do fenômeno costumam favorecer o aumento das precipitações, principalmente durante o inverno e a primavera.

O Centro-Oeste responde por 47% da área cultivada com soja no país, enquanto a Região Sul representa 27% e o Matopiba, 14%, segundo dados citados pela Exame.

O plantio da oleaginosa começou em alguns estados na primeira quinzena de setembro. Segundo Cogo, a semeadura deve avançar normalmente durante o mês, mas a possibilidade de redução das chuvas passa a exigir maior atenção a partir de outubro.

A distribuição regional das lavouras torna relevante tanto o risco de falta de precipitação em áreas produtoras do Centro-Oeste e Matopiba quanto o de excesso de chuva no Sul.

O El Niño registrado entre 2015 e 2016 oferece um precedente recente para avaliar possíveis impactos sobre a produção agrícola, embora as consequências de um episódio não possam ser diretamente transferidas para outro.

A produção de soja nas regiões consideradas pela publicação caiu de 47,6 milhões para 30,2 milhões de toneladas naquele período. A comparação precisa considerar diferenças de localização, calendário agrícola e condições meteorológicas entre as safras.

Apesar das projeções climáticas, Cogo afirma que ainda não é possível contabilizar perdas para a atual safra. “Não se estima quebra de safra. Só após os efeitos do fenômeno é que contabilizamos”.

Os contratos futuros da soja na Bolsa de Chicago são negociados acima de US$ 13 por bushel, segundo a Exame. A evolução das cotações dependerá, entre outros fatores, das perspectivas de oferta e demanda e do desempenho das principais regiões produtoras.

Os estoques mundiais da oleaginosa correspondem a aproximadamente 28% do consumo, segundo estimativa de Cogo citada pela revista. Esse volume pode funcionar como uma reserva de oferta caso ocorram perdas relevantes na produção brasileira.

Estimativa do Banco Central Europeu citada pelo Brasilagro aponta que episódios fortes de El Niño estiveram associados a aumentos de aproximadamente 9% nos preços mundiais de commodities alimentares. O efeito observado em episódios anteriores, porém, não determina a variação de preços durante o evento atual.

Economistas do Jefferies citados pelo Brasilagro também relacionaram os possíveis efeitos do fenômeno às demais pressões existentes no mercado internacional de commodities.

A NOAA ressalta que episódios mais intensos de El Niño aumentam a probabilidade de ocorrência dos padrões climáticos normalmente associados ao fenômeno, mas não significam que todos esses efeitos necessariamente ocorrerão ou terão a mesma intensidade em todas as regiões.

No Brasil, os impactos também dependem do calendário agrícola. Como determinadas áreas permitem duas ou até três safras ao longo do ano, eventuais consequências dependerão da duração e do comportamento do fenômeno durante diferentes fases de plantio, desenvolvimento e colheita das culturas.

FUP Explica

O ponto central aqui é a incerteza, não a catástrofe confirmada. A NOAA fala em probabilidade altíssima de um fenômeno intenso, mas a própria agência avisa que intensidade do aquecimento do Pacífico não se traduz automaticamente em quebra de safra. O que o mercado está precificando, como mostram as cotações em Chicago, é o risco, não o resultado.

Para o produtor, o problema mais delicado é a assimetria: uma eventual perda de produtividade não necessariamente seria compensada por preços proporcionalmente maiores, porque os estoques mundiais de soja ainda oferecem um colchão razoável.

Ou seja, quem produzir menos pode ganhar menos em volume sem recuperar na margem pelo preço. Isso pesa especialmente em regiões como o Matopiba, onde o risco de estiagem é maior e os sistemas de sequeiro são predominantes.

No plano mais amplo, o contexto geopolítico complica a leitura. Com a guerra entre EUA e Irã já pressionando commodities, um choque climático adicional sobre a maior exportadora mundial de soja pode amplificar movimentos de preço que, em condições normais, seriam absorvidos pelos estoques. Isso interessa tanto a quem negocia contratos futuros quanto a quem planeja embarques e hedge cambial para os próximos meses.

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