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Secas na Amazônia ameaçam chuvas em regiões que concentram 57% da renda do agronegócio brasileiro
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Secas na Amazônia ameaçam chuvas em regiões que concentram 57% da renda do agronegócio brasileiro

01/09/2026·684 palavras
Análise sobre impactos da seca amazônica na produção agrícola brasileira, com potencial efeito na oferta de commodities para exportação (soja, minério).

Uma pesquisa baseada em cerca de quatro décadas de dados indica que secas mais prolongadas e intensas já estão associadas a mudanças na composição da Floresta Amazônica, com diferentes regiões do bioma se aproximando de limiares críticos em ritmos distintos. O estudo é liderado por Marina Hirota, pesquisadora afiliada ao Brazil Lab da Universidade de Princeton e diretora científica do Instituto Relva.

Segundo Hirota, a Amazônia não se aproxima de um único ponto de colapso. Diferentes regiões podem atingir limiares críticos em momentos distintos, pressionadas por combinações de seca, calor, incêndios e desmatamento. “Dentro da Amazônia, temos muitas Amazônias”, afirmou a pesquisadora à Exame em reportagem publicada nesta segunda-feira (1º).

No sudeste da Amazônia, o prolongamento e a intensificação da estação seca estão associados a mudanças na composição da floresta. A análise de aproximadamente 40 anos de dados identificou uma substituição gradual de espécies por outras mais adaptadas à menor disponibilidade de chuva e à maior variabilidade climática ao longo do ano. “A composição da floresta está mudando”, afirmou Hirota.

Dados de anos recentes ajudam a dimensionar a ocorrência de eventos extremos na região. Entre janeiro e 22 de setembro de 2024, o Amazonas registrou 21.289 focos de incêndio, número que já superava os 21.217 contabilizados durante todo o ano de 2022, até então o maior da série comparada, segundo dados citados pela Agência Brasil. No Acre, mais de 3 mil focos foram registrados somente a partir do início de setembro daquele ano.

Em escala nacional, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram aumento dos períodos consecutivos de estiagem nas últimas décadas. A média passou de cerca de 80 a 85 dias na década de 1990 para aproximadamente 100 dias na década anterior a 2024, com destaque para o norte do Nordeste e a região central do país.

Mudança nas chuvas ameaça regiões agrícolas

A alteração do regime de chuvas também representa riscos para a produção agrícola. A pesquisa citada por Hirota relaciona a umidade gerada em áreas de Terras Indígenas a chuvas importantes para regiões responsáveis por 57% da renda do agronegócio brasileiro.

Estudos de pesquisadores das universidades Federal de Minas Gerais (UFMG) e de Bonn, citados pelo The Conversation, indicam que o desmatamento reduz a capacidade da Amazônia e do Cerrado de contribuir para a regulação das chuvas. Os autores usam a expressão “agro-suicídio” para descrever o risco de a própria expansão da fronteira agrícola comprometer as condições climáticas necessárias à produção.

Segundo esses estudos, em 2019 cerca de um quarto da porção sul da Amazônia brasileira já havia alcançado o limite de perda de floresta considerado crítico pelos pesquisadores. Em algumas regiões, a redução das chuvas associada ao desmatamento correspondia a até 48% do volume anual. Entre as áreas apontadas estão o nordeste e o sudeste do Pará, o oeste do Maranhão, a região central de Rondônia e áreas produtoras de soja no norte de Mato Grosso.

Em todo o Brasil, o MapBiomas identificou a perda de 111,7 milhões de hectares de áreas naturais entre 1985 e 2024, equivalente a 13% do território nacional. A redução média foi de 2,9 milhões de hectares por ano, segundo levantamento divulgado em agosto de 2025.

Amazônia pode cruzar diferentes limiares críticos

Hirota ressalta que um limiar crítico não significa necessariamente o colapso simultâneo de toda a floresta. “O sistema pode colapsar a partir de uma parte muito importante ou pode ser que pequenas partes comecem a falhar de forma assíncrona até mudar a configuração do sistema como um todo”.

Segundo a pesquisadora, antes de um limiar crítico, alterações graduais nas chuvas podem provocar respostas igualmente graduais no ecossistema. Depois desse limite, porém, a velocidade da transformação pode aumentar.

“Quando você cruza um limiar crítico, a sua mudança acelera. Você não tem mais previsibilidade do que vai acontecer e não tem mais controle sobre isso”, disse Hirota.

Os impactos também podem atingir diretamente a população. Segundo a pesquisadora, o aumento das temperaturas, a redução das chuvas e a fumaça produzida pelos incêndios estão associados a riscos à saúde, entre eles doenças cardiorrespiratórias e alterações no ciclo de mosquitos transmissores da malária.

FUP Explica

O ponto mais relevante desta pesquisa não é o alerta em si, mas a escala e a especificidade do que ela mostra: não é uma projeção futura, é uma transformação em curso, documentada com quatro décadas de dados. Isso muda o tom da discussão, porque tira o argumento de que se trata de risco hipotético.

Do ponto de vista econômico, a ligação entre as chuvas de Terras Indígenas e 57% da renda do agronegócio é um dado que coloca a proteção ambiental e a produtividade agrícola no mesmo lado da equação, não em lados opostos. As regiões apontadas como mais vulneráveis, como o norte do Mato Grosso e partes do Pará e do Maranhão, são exatamente onde a expansão agrícola tem sido mais intensa, o que cria um ciclo de pressão sobre o próprio sistema que sustenta a produção.

A redução de até 48% no volume de chuvas em algumas áreas já desmatadas, citada pelo The Conversation, é o tipo de número que tende a aparecer em avaliações de risco de crédito agrícola e de seguro rural nos próximos anos.

Na dimensão política, a pesquisa alimenta o debate sobre demarcação de Terras Indígenas e sobre o ritmo de fiscalização em unidades de conservação, dois temas que seguem disputados no Congresso e no Executivo.

Os dados de desmatamento dentro e no entorno de áreas protegidas, com 904 células identificadas entre outubro e dezembro de 2025 segundo a Agência Brasil, mostram que a pressão não diminuiu. Para quem acompanha o tema de comércio exterior, vale lembrar que exigências ambientais de mercados importadores, como o Regulamento de Desmatamento da União Europeia, usam exatamente esse tipo de evidência científica como base para definir restrições de acesso.

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