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Brasil investe em infraestrutura, mas só 31% dos operadores integram modais
Supply Chain

Brasil investe em infraestrutura, mas só 31% dos operadores integram modais

19/08/2026·545 palavras
Estudo revela baixa adoção de logística multimodal no Brasil, com gargalos em regulação e infraestrutura que afetam eficiência da cadeia de suprimentos.

Apenas 31% dos operadores logísticos brasileiros realizam operações de logística multimodal, segundo o Perfil do Operador Logístico no Brasil, pesquisa apresentada pela Associação Brasileira dos Operadores Logísticos (ABOL) durante seu 10º Congresso, realizado em Ibiúna (SP). O dado, divulgado pelo Transporte Moderno, expõe uma lacuna entre os investimentos feitos em ferrovias, portos e infraestrutura e a integração efetiva desses modais na operação cotidiana das empresas.

A integração entre modais esbarra em três obstáculos principais, conforme identificado pela ABOL: regulação inadequada, infraestrutura deficiente e falta de coordenação entre investimentos públicos e privados. Entre os operadores consultados, 52% apontaram a previsibilidade regulatória e de recursos como medida prioritária para destravar o crescimento empresarial, enquanto 36% indicaram a modernização e ampliação das rodovias. A conexão entre modais foi apontada por 39% dos respondentes como essencial para desbloquear a expansão nos próximos anos.

A falta de investimento em infraestrutura aparece como obstáculo de fundo. De acordo com a TOTVS, o Brasil historicamente destina uma parcela relativamente baixa do PIB a esse setor, o que resulta em rodovias precárias, ferrovias subutilizadas e portos congestionados. Superar esse quadro exige, entre outras medidas, a construção de terminais intermodais e a melhoria da interconexão entre os diferentes modais de transporte.

Quanto à responsabilidade pelo avanço do setor, 88% dos respondentes da ABOL entendem que o progresso da multimodalidade depende de atuação coordenada entre poder público e iniciativa privada. Outros 12% atribuem papel preponderante ao Estado, e nenhum participante considerou que o setor privado, por conta própria, poderia conduzir essa transformação.

No âmbito governamental, o Ministério dos Transportes apresentou no congresso as diretrizes do Plano Nacional de Logística (PNL) 2050, que pretende orientar investimentos a partir de corredores de exportação, abastecimento interno, integração territorial e manutenção da infraestrutura existente. As informações foram apresentadas por Gabriela Avelino, subsecretária de Fomento e Planejamento da pasta, e por Danilo Imbimbo, coordenador-geral de Governança da Informação do ministério.

A reforma tributária também aparece como variável relevante para o setor. Metade dos operadores consultados pela ABOL informou estar ajustando estratégia financeira e capital de giro diante do split payment e do novo sistema de créditos tributários. Outros 29% estudam redesenhar a malha logística ou realocar atividades em função da futura redução dos benefícios associados ao ICMS. Daniel Loria, sócio do Loria Advogados, afirmou ao Transporte Moderno que cerca de 90% da reforma tributária está regulamentada, mas que desafios de adaptação de sistemas e documentos fiscais ainda persistem. A transição para o IBS, prevista a partir de 2029, tende a ampliar os efeitos sobre decisões de localização de operações e redes de distribuição.

Revisão de contratos e diversificação de rotas

O cenário de incerteza regulatória e tributária influencia as decisões das empresas. Entre os participantes consultados pela ABOL, 57% disseram estar revisando contratos para aumentar a flexibilidade diante das mudanças no comércio internacional. Outros 39% afirmaram diversificar matrizes e rotas, mesmo percentual dos que ampliam a base de parceiros.

Marcella Cunha, diretora-executiva da ABOL, resumiu a visão do setor ao Transporte Moderno: "É importante que tenhamos estabilidade, integração e coordenação entre os diferentes elos públicos e privados." Para a TOTVS, avançar nessa direção também passa pela simplificação e desburocratização dos processos regulatórios, com facilitação do licenciamento de projetos e maior transparência na gestão dos recursos públicos destinados à infraestrutura.

FUP Explica

O número é revelador: com menos de um terço dos operadores logísticos atuando de forma multimodal, o Brasil desperdiça a capacidade instalada que já existe em ferrovias e portos, e continua sobrecarregando as rodovias. Isso tem custo direto para a eficiência das cadeias produtivas, especialmente para setores que dependem de longas distâncias entre origem e destino, como o agronegócio e a indústria.

O dado sobre a reforma tributária merece atenção especial. Quando quase metade dos operadores revisa estratégia financeira por causa do split payment e 29% cogitam redesenhar a malha logística por conta da redução dos benefícios de ICMS, fica claro que a transição fiscal não é só um problema contábil: ela pode redistribuir onde as operações acontecem fisicamente no país. Isso abre uma janela de incerteza relevante para quem opera centros de distribuição ou define localização de armazéns.

A dependência de coordenação entre governo e setor privado, apontada por 88% dos respondentes, é ao mesmo tempo um diagnóstico e um risco. Quando nenhum dos dois lados consegue agir sozinho, qualquer descontinuidade de política pública, troca de gestão ou corte orçamentário trava o avanço. O PNL 2050 pode ser um passo na direção certa, mas planos de longo prazo no Brasil têm histórico de não sobreviver às mudanças de governo, e o setor sabe disso.

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