FUP News
Reforma tributária avança, mas 24% das empresas ainda desconhecem seus impactos
Regulatório

Reforma tributária avança, mas 24% das empresas ainda desconhecem seus impactos

19/08/2026·516 palavras
Levantamento mostra que 24% das empresas desconhecem impactos da reforma tributária (CBS/IBS) em implementação até 2033. Relevante para exportadores/importadores por impacto direto em custos tributários, com precedente editorial na FUP.

Cerca de 24% das empresas brasileiras ainda desconhecem os impactos da reforma tributária em curso no país, segundo levantamento realizado pela empresa de tecnologia V360 e divulgado pela Agência Brasil. O estudo, conduzido em novembro de 2025 com 355 companhias de médio e grande porte, revela um quadro de despreparação que persiste mesmo com o processo de implementação das novas regras em andamento.

A pesquisa ouviu empresas dos setores de varejo, indústria, construção civil, agronegócio e tecnologia, com 68,2% delas sediadas na Região Sudeste. Os resultados mostram que 33,2% das companhias ainda não haviam discutido internamente os efeitos da mudança, enquanto 38,6% apenas iniciaram um levantamento preliminar. Somente 28,1% afirmaram ter um plano estruturado de adaptação.

Os números do campo prático reforçam o diagnóstico. Conforme dados da Agência Brasil de maio de 2026, 45% das notas fiscais emitidas no Brasil ainda não seguiam as exigências do novo sistema, enquanto 55% dos documentos, equivalentes a cerca de 12,5 milhões de empresas, já incluíam corretamente as informações sobre os novos tributos.

Um ponto de atenção específico está nas notas fiscais de serviços. Apenas 3,78% dessas notas seguiam o novo padrão em maio de 2026, em contraste com o desempenho das notas de produtos, controladas pelos estados, que representavam a maior parte dos documentos adequados. A defasagem reflete as dificuldades de diversas prefeituras em adaptar seus sistemas para a emissão da nota fiscal de serviços eletrônica, já que o ISS, tributo que o novo modelo substitui nesse segmento, é de competência municipal.

A reforma tributária foi aprovada em 2023 e regulamentada em 2025. O modelo unifica PIS, Cofins, ICMS e ISS em dois novos tributos: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), gerida pelo governo federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), administrado por estados e municípios.

A implementação começou de forma gradativa em janeiro de 2026, com alíquotas de teste de 0,9% para a CBS e 0,1% para o IBS. Em 2027, houve a extinção do PIS/Cofins e a elevação da CBS para a alíquota de referência a ser definida pelo Ministério da Fazenda. A transição completa está prevista para se estender até 2033.

Um dos principais desafios operacionais está no processo de recebimento e conferência de notas fiscais, que passam a ter cerca de 200 novos campos para adequação ao novo sistema. A maior parte das companhias concentrava esforços na emissão das novas notas, mas não no chamado ingresso fiscal, ou seja, na forma como recebem, conferem e pagam seus fornecedores.

Penalidades e prazo de adequação

As empresas que ainda não se adaptaram às novas regras só começarão a ser multadas em 2027, conforme informou o Ministério da Fazenda em maio de 2026. Nos três meses seguintes à publicação dos regulamentos, empresas fora de conformidade podiam ser notificadas, mas sem aplicação de multas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, descreveu esse período como educativo.

Micro e pequenas empresas do Simples Nacional e microempreendedores individuais (MEI) estavam dispensados dessa obrigação naquele momento. Para os demais, o relógio corre: a janela sem penalidades é limitada, e o volume de adequações técnicas e operacionais exigidas é considerável.

FUP Explica

O dado mais revelador desse levantamento não é o percentual de empresas desinformadas, mas o que está por trás dele: a reforma tributária exige mudanças profundas em sistemas, processos e contratos, e boa parte das empresas ainda está na fase de entender o que precisa fazer, não de fazer. Com a extinção do PIS/Cofins em 2027 e a elevação da CBS para alíquota de referência, o ritmo de adaptação precisará acelerar muito nos próximos meses.

O setor de serviços merece atenção especial. A tributação média nesse segmento pode subir de 12% para 28%, segundo análise setorial presente no dossiê, e a CNC estima que, sem mecanismos de compensação adequados, até 3,8 milhões de empregos poderiam ser colocados em risco. Isso afeta diretamente consultorias, empresas de tecnologia e prestadores de serviços em geral, que são intensivos em mão de obra e têm menos margem para absorver aumento de carga.

A janela sem multas até 2027 pode dar uma falsa sensação de fôlego. Na prática, adaptar sistemas fiscais, treinar equipes e renegociar contratos com fornecedores leva tempo, e empresas que deixarem para a última hora vão acumular passivo operacional mesmo antes de qualquer penalidade formal. O período educativo anunciado pelo Ministério da Fazenda é uma oportunidade, não uma prorrogação.

Compartilhar:WhatsAppX (Twitter)LinkedIn

Leia também