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Portos mexicanos ganham volume de contêineres enquanto filas e atrasos expõem gargalos
Portos mexicanos de Manzanillo e Lázaro Cárdenas registram crescimento de dois dígitos em 2026 apesar de incertezas comerciais com EUA e pressão sobre China, demandando expansão de infraestrutura.
Os portos de Manzanillo e Lázaro Cárdenas, principais portas de entrada de cargas na costa mexicana do Pacífico, registraram crescimento na movimentação de contêineres nos primeiros sete meses de 2026, apesar das incertezas nas relações comerciais do México com os Estados Unidos e das pressões de Washington por uma postura mais rígida em relação à China. Manzanillo avançou 11,7% no período, enquanto Lázaro Cárdenas cresceu 6%, segundo dados publicados pelo The Loadstar nesta segunda-feira (14).
Manzanillo, maior porto de contêineres do México, movimentou 2.455.953 TEU entre janeiro e julho, alta de 11,7% em relação ao mesmo período de 2025. Dentro do complexo portuário, o terminal Contecon apresentou crescimento superior ao registrado pelo porto como um todo, com 1.022.182 TEU movimentados, avanço de 20,1%.
Lázaro Cárdenas movimentou 1,34 milhão de TEU nos primeiros sete meses do ano, crescimento de 6%. Esse desempenho contribuiu para que a movimentação total do porto aumentasse 16% em relação ao primeiro semestre de 2025, apesar de uma queda de 8% nas importações de veículos. Em julho, o tráfego de contêineres em Lázaro Cárdenas também apresentou crescimento anual de 7%.
O crescimento da movimentação ocorre enquanto os terminais dos dois portos desenvolvem projetos para aumentar sua capacidade operacional.
Em agosto, o Contecon Manzanillo recebeu autorização para operar navios com calado de até 15,5 metros. A nova condição permite ao terminal receber porta-contêineres de grande porte, com capacidade de até 23 mil TEU. O Contecon tornou-se o único terminal da costa mexicana do Pacífico autorizado a receber embarcações desse porte.
Parte da infraestrutura necessária para essas operações havia chegado ao terminal em janeiro, quando o Contecon recebeu seis guindastes Super Post-Panamax. Três conseguem atender navios com até 18 fileiras de contêineres, enquanto os outros três alcançam embarcações com até 22 fileiras.
Em Lázaro Cárdenas, a APM Terminals também registrou crescimento acima do desempenho geral do porto. O terminal movimentou 684.599 TEU no primeiro semestre de 2026, ante 508.506 TEU entre janeiro e junho de 2025, avanço de 35%.
O aumento dos volumes, porém, ocorre em meio a problemas de infraestrutura e de processamento aduaneiro nos dois portos. No fim de julho, as operações em Manzanillo foram interrompidas depois que fortes chuvas provocaram um apagão e afetaram os sistemas da alfândega. A interrupção resultou em uma fila de aproximadamente 5 mil caminhões na rodovia de acesso ao porto.
O problema não foi isolado. Em 2025, uma greve de funcionários aduaneiros em Manzanillo provocou interrupções nas operações e levou proprietários de cargas a redirecionarem parte do tráfego para Lázaro Cárdenas.
Mesmo diante desses gargalos, o Contecon registrou movimentação recorde nos dias 20 e 21 de agosto de 2026. O terminal processou quase 4 mil contêineres em 48 horas, período em que as operações permaneceram abertas continuamente e houve extensão do horário de funcionamento da alfândega.
O presidente-executivo do Contecon Manzanillo, José Antonio Contreras, atribuiu o resultado aos investimentos realizados no terminal e à coordenação com as autoridades aduaneiras.
Os problemas aduaneiros também atingem Lázaro Cárdenas. Em abril, operadores e outros participantes das atividades portuárias relataram atrasos nas inspeções que deixaram alguns contêineres retidos por até 30 dias.
A demora gerou custos adicionais porque as taxas de armazenagem começavam a ser cobradas depois de 15 dias. Em 2025, caminhoneiros chegaram a bloquear o porto em meio a reclamações que incluíam os longos períodos de espera pela liberação aduaneira.
Parte dos problemas de acesso ao porto é alvo de um programa de investimentos iniciado no começo de junho pela unidade local da Administração do Sistema Portuário Nacional, a Asipona.
O programa prevê investimentos de 1,729 bilhão de pesos mexicanos e inclui obras para melhorar o acesso rodoviário a Lázaro Cárdenas. Entre os principais projetos estão o aumento de duas para quatro faixas de uma rota alternativa de acesso ao porto e a expansão de uma ponte.
Além de elevar a capacidade das vias existentes, as intervenções buscam separar o tráfego relacionado às operações portuárias do fluxo local de veículos. A execução das obras, entretanto, poderá provocar novos gargalos temporários. A própria Asipona alertou que as áreas em construção podem se transformar em pontos de estrangulamento para o transporte de cargas durante os trabalhos.
México prepara modernização de portos
Os investimentos em Manzanillo e Lázaro Cárdenas fazem parte de um movimento mais abrangente de modernização da infraestrutura portuária mexicana.
Em outubro de 2025, a Descartes informou que eram esperados 241 bilhões de pesos em investimentos privados para projetos envolvendo os portos de Ensenada, Manzanillo, Lázaro Cárdenas, Acapulco, Veracruz e Progreso. Os recursos seriam destinados a obras de infraestrutura, novos terminais e melhorias ambientais.
Segundo a mesma publicação, os terminais mexicanos movimentaram 9,38 milhões de TEU em 2024, volume 12% superior ao registrado no ano anterior. Manzanillo, Lázaro Cárdenas, Altamira e Veracruz concentraram, juntos, 91,2% do tráfego portuário do país naquele ano.
O crescimento registrado em 2026 nos dois principais portos mexicanos do Pacífico aumenta a pressão sobre terminais, acessos rodoviários e sistemas aduaneiros. Enquanto Manzanillo e Lázaro Cárdenas recebem investimentos para elevar a capacidade de movimentação, episódios recentes de congestionamento e atrasos mostram que o avanço dos volumes também exige maior capacidade de processamento das cargas fora dos cais.
FUP Explica
O crescimento acelerado de Manzanillo e Lázaro Cárdenas acontece num momento politicamente delicado: os EUA pressionam o México a restringir a presença chinesa nas cadeias logísticas, e parte do volume que chega pelo Pacífico mexicano tem origem ou destino ligado à China. O avanço dos terminais, portanto, não é neutro, e pode acirrar tensões diplomáticas com Washington, especialmente se o crescimento for lido como facilitação de transbordo de mercadorias chinesas para o mercado norte-americano.
Do ponto de vista econômico, a expansão é positiva para o México, mas os gargalos aduaneiros revelam um problema estrutural sério: de nada adianta autorizar navios ultra-grandes de 23.000 TEU se um apagão ou uma greve de fiscais paralisa o porto e empilha 5.000 caminhões na rodovia. A dependência de sistemas aduaneiros frágeis e de infraestrutura viária ainda em obras cria um risco real de que o crescimento de volume supere a capacidade de escoamento, o que tende a elevar custos de armazenagem e prazos de liberação para os importadores que operam por esses terminais.
Para quem acompanha comércio exterior, vale observar que Lázaro Cárdenas e Manzanillo competem por cargas que também transitam por portos norte-americanos da costa oeste. Se os gargalos persistirem, armadores podem redirecionar escalas. Por outro lado, se o México conseguir resolver o problema aduaneiro e concluir as obras viárias, os dois portos ganham relevância como alternativa de rota para cargas que cruzam o Pacífico.




