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Peru aposta na cabotagem para manter abastecimento durante El Niño
Corredor logístico usaria cabotagem entre terminais das regiões norte, central e sul da costa para transportar alimentos, medicamentos e ajuda humanitária caso chuvas interrompam rodovias.
O Peru prepara uma rede formada por sete portos para manter o transporte de alimentos, medicamentos, suprimentos estratégicos e ajuda humanitária caso chuvas intensas associadas ao Fenômeno El Niño provoquem bloqueios nas rodovias do país. A iniciativa é conduzida pelo Ministério dos Transportes e Comunicações (MTC), por meio da Autoridade Portuária Nacional (APN), e prevê conectar terminais do norte, centro e sul da costa peruana por cabotagem. A proposta é criar uma rota alternativa para o abastecimento quando o transporte terrestre estiver comprometido.
A estrutura considerada inicialmente reúne os portos de Talara e Paita, em Piura; Salaverry, em La Libertad; Chimbote, em Áncash; além de Chancay, Callao e Pisco. Essas instalações poderiam receber cargas prioritárias e ajuda humanitária caso chuvas, cheias de rios ou outros efeitos do El Niño interrompam estradas entre o norte e a região centro-sul do país. Chancay, Callao e Pisco teriam ainda função complementar na extensão da rede para outras áreas do território peruano.
O plano busca reduzir a dependência das rodovias em situações de emergência. A alternativa marítima ganha importância especialmente na costa norte, onde interrupções das principais vias terrestres podem dificultar a chegada de mercadorias às comunidades afetadas. Além de alimentos e medicamentos, o corredor poderia transportar produtos agrícolas para Lima e facilitar o envio de suprimentos às regiões que precisassem de assistência, reduzindo os trajetos por terra durante uma crise.
A rede, no entanto, ainda está em preparação e não funciona como um corredor emergencial permanente. A APN avalia a infraestrutura e a capacidade dos terminais e embarcadouros, as condições das rotas de acesso, os pontos vulneráveis próximos a rios e quebradas, os meios de transporte disponíveis e a conexão entre os centros de abastecimento e os portos.
A atenção está concentrada principalmente em Piura, La Libertad e Áncash, regiões expostas a interrupções viárias durante episódios de chuvas intensas.
As avaliações fazem parte do Plano de Ação da APN para a ocorrência do Fenômeno El Niño, aprovado pela Resolução de Presidência de Diretoria nº 0078-2026-APN-PD. O trabalho também envolve administradores portuários, a Marinha de Guerra do Peru, a Provías, governos regionais e outras instituições, que analisam quais recursos e estruturas poderiam ser mobilizados caso uma emergência afetasse o transporte terrestre.
O objetivo é permitir que o Sistema Portuário Nacional funcione como uma camada adicional de segurança logística. Em vez de substituir o transporte rodoviário, a cabotagem passaria a atuar como alternativa temporária para levar cargas para mais perto das áreas afetadas, mantendo o fluxo de produtos essenciais enquanto os acessos terrestres permanecessem bloqueados ou operassem com restrições.
A preparação ocorre em meio à crescente preocupação com os efeitos econômicos do fenômeno climático. O Infobae informou que o Banco Central de Reserva do Peru reduziu de 3,4% para 3,2% a previsão de crescimento da economia em 2026, diante da expectativa de impactos mais intensos do El Niño Costeiro. A autoridade monetária também revisou para baixo as perspectivas dos setores de pesca e agropecuária.
Nesse cenário, a estratégia portuária busca preservar principalmente a continuidade do abastecimento. Caso chuvas intensas interrompam trechos da malha rodoviária, os sete terminais poderão formar uma rota marítima de contingência entre diferentes regiões do Peru, permitindo que produtos prioritários e ajuda humanitária continuem sendo transportados mesmo com limitações no transporte por terra.
FUP Explica
O que o Peru está montando aqui é, na prática, um plano B logístico para um risco que o país conhece bem: o El Niño Costeiro tem histórico de destruir trechos inteiros de rodovias no norte do país, isolando comunidades e interrompendo o abastecimento por dias ou semanas. A novidade é que, desta vez, o governo formalizou a resposta antes da crise, com resolução publicada e avaliação em curso nos sete terminais. Isso reduz o improviso e, em tese, encurta o tempo de reação quando a emergência chegar.
No plano econômico, o contexto é delicado: o Banco Central de Reserva do Peru já revisou para baixo a projeção de crescimento para 2026, de 3,4% para 3,2%, e cortou as perspectivas para pesca e agropecuária, dois setores que dependem justamente das regiões mais vulneráveis ao El Niño. Se as rodovias forem bloqueadas e a rede portuária não estiver pronta para operar, o impacto sobre preços de alimentos e sobre a produção agrícola pode ser mais severo do que o já previsto. A cabotagem entre os sete terminais não resolve o problema estrutural das estradas, mas pode evitar que uma crise logística vire uma crise de abastecimento prolongada.
Para operadores de comércio exterior que movimentam carga pelos portos peruanos, especialmente Callao e Chancay, vale acompanhar como esse plano evolui: em caso de ativação do corredor emergencial, a prioridade declarada é para alimentos, medicamentos e ajuda humanitária, o que pode afetar a disponibilidade de berços e a movimentação de cargas comerciais nesses terminais durante uma eventual crise.
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