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Nova instalação em Yongbyon aumenta preocupação com programa nuclear da Coreia do Norte
A Coreia do Norte expandiu sua infraestrutura para enriquecimento de urânio com a construção de uma nova instalação no complexo nuclear de Yongbyon, principal centro do programa nuclear norte-coreano, segundo uma avaliação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) divulgada nesta semana. A estrutura, identificada a partir de imagens de satélite e fotografias publicadas pela mídia estatal norte-coreana, pode comportar até 28 cascatas de centrífugas.
Ela surge enquanto Pyongyang avança na produção de material nuclear, intensifica atividades em outras instalações e reforça sua intenção de expandir o arsenal sob o governo de Kim Jong Un.
De acordo com o The Guardian, a AIEA classificou a continuidade e a expansão das atividades nucleares norte-coreanas como motivo de "séria preocupação". O novo prédio foi identificado como a segunda instalação de enriquecimento de urânio em Yongbyon após a comparação de imagens obtidas durante sua construção com fotografias da visita realizada por Kim ao local no início de junho. A agência estima que a estrutura tenha espaço para até 28 cascatas, conjuntos nos quais várias centrífugas trabalham de maneira coordenada no processo de enriquecimento do urânio.
A análise, no entanto, possui limitações. Inspetores internacionais da AIEA não estão presentes na Coreia do Norte desde 2009, o que impede a verificação direta das instalações e de sua capacidade operacional.
Por isso, o acompanhamento do programa depende principalmente de imagens comerciais de satélite, informações de fontes abertas e materiais divulgados pelo próprio governo norte-coreano. A Reuters também apurou que o relatório da agência é datado de 28 de agosto e aponta uma expansão contínua da infraestrutura nuclear do país em diferentes locais.
Além de Yongbyon, a AIEA identificou aumento das atividades em Kangson, instalação de enriquecimento localizada nas proximidades de Pyongyang. A agência observou sinais de operação em uma área expandida do complexo, reforçando a avaliação de que a expansão da capacidade norte-coreana não está concentrada em um único ponto. A continuidade das operações em Kangson e Yongbyon, somada à construção de novas estruturas, indica um esforço prolongado para aumentar a produção de material nuclear.
Durante uma visita à nova instalação em junho, Kim Jong Un afirmou que a capacidade da Coreia do Norte de produzir material nuclear para armamentos havia mais do que dobrado nos últimos cinco anos. Na ocasião, o líder também anunciou planos para continuar aumentando as forças nucleares do país, embora essas declarações tenham sido divulgadas pela mídia estatal e não possam ser verificadas de maneira independente pela AIEA.
Estimativas externas buscam dimensionar o impacto da nova capacidade. Segundo o Chosun Daily, citando uma análise do James Martin Center for Nonproliferation Studies, uma configuração com 28 cascatas e cerca de 4.592 centrífugas poderia produzir aproximadamente 85 quilos de urânio altamente enriquecido por ano, quantidade potencialmente suficiente para três ou quatro ogivas adicionais. O cálculo, porém, é uma projeção técnica e não uma confirmação da produção efetiva da instalação.
Violação de resoluções da ONU e incerteza sobre o arsenal
O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, afirmou que a expansão da produção de material nuclear e a manutenção das instalações de enriquecimento violam resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Paralelamente, estimativas sobre o tamanho atual do arsenal norte-coreano continuam apresentando grande margem de incerteza. Em agosto, o ministro da Defesa da Coreia do Sul, Ahn Gyu-back, citou avaliações de organizações privadas que apontam entre 80 e 120 ogivas, mas ressaltou que as Forças Armadas sul-coreanas não conseguem confirmar esses números.
A expansão ocorre ainda em um cenário de fortalecimento dos vínculos de Pyongyang com Moscou e de reaproximação com Pequim. Nas últimas semanas, autoridades russas voltaram a destacar a cooperação com a Coreia do Norte, enquanto sinais de retomada da integração econômica com a China incluem o avanço das obras de uma ligação rodoviária entre os dois países. Esse ambiente diplomático adiciona uma nova camada às tentativas internacionais de limitar o avanço do programa nuclear norte-coreano.
FUP Explica
O ponto central aqui é a combinação de dois problemas que se reforçam: a Coreia do Norte expande sua capacidade nuclear em ritmo acelerado e, ao mesmo tempo, a comunidade internacional não tem como verificar nada disso de perto, já que inspetores da AIEA estão fora do país desde 2009. Isso significa que toda estimativa, inclusive a projeção de 85 quilos de urânio enriquecido por ano citada pelo Chosun Daily, é cálculo técnico feito de fora, não dado auditado.
A margem de incerteza é enorme, e o próprio ministro da Defesa sul-coreano admitiu que nem as Forças Armadas da Coreia do Sul conseguem confirmar o tamanho real do arsenal.
No plano político e diplomático, o cenário é desfavorável para qualquer pressão coordenada. O fortalecimento dos laços de Pyongyang com Moscou e a reaproximação com Pequim reduzem o espaço para sanções efetivas no Conselho de Segurança da ONU, onde Rússia e China têm poder de veto. Enquanto isso, Kim Jong Un usa a própria mídia estatal para anunciar expansão do arsenal, o que serve tanto como sinal interno de força quanto como mensagem para potências externas. A declaração de que a capacidade de produção mais do que dobrou nos últimos cinco anos, mesmo sem verificação independente, entra no cálculo de dissuasão que Pyongyang quer projetar.
Para a segurança regional, o risco concreto é que a expansão das instalações em Yongbyon e Kangson, se confirmada na prática, reduza o tempo necessário para produzir ogivas adicionais. Isso tende a complicar qualquer negociação futura, já que quanto maior o arsenal, maior o custo político de abrir mão dele. A violação de resoluções do Conselho de Segurança, apontada pelo diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, reforça o isolamento formal de Pyongyang, mas sem mecanismo de verificação e sem consenso entre as grandes potências, a pressão institucional perde força na prática.




