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Irã coloca 45 navios em lista negra por trânsito no Estreito de Ormuz
Conflitos

Irã coloca 45 navios em lista negra por trânsito no Estreito de Ormuz

25/08/2026·656 palavras
Irã publica primeira lista de 45 navios não-conformes com ameaças de multas, apreensão e confisco em resposta a tensões com EUA, impactando operações de estados-chave do Golfo e aumentando riscos para o comércio marítimo internacional.

O Irã publicou nesta segunda-feira (23), sua primeira lista negra com 45 navios acusados de violar normas iranianas para trânsito pelo Estreito de Ormuz. A medida foi anunciada pela Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, órgão criado pelo país para administrar a passagem, e prevê multas, detenção e confisco para as embarcações listadas, conforme informou o Maritime Executive.

O anúncio ocorre seis meses após o início de um conflito que interrompeu o tráfego pela rota, responsável por cerca de 20% do petróleo e gás natural liquefeito movimentados diariamente no mundo antes da crise, segundo a Antena 1. A publicação da lista representa uma escalada nas tensões entre Irã e Estados Unidos, que nos dias anteriores ao anúncio trocaram ameaças públicas: os EUA prometeram "as sanções mais duras da história", e o Irã respondeu que sua reação seria "devastadora".

A relação abrange operações de estados-chave do Golfo. Constam da lista navios da Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (ADNOC), do Grupo de Portos de Abu Dhabi, da Bahri, empresa nacional de navegação da Arábia Saudita, e da Nakilat, do Catar, de acordo com o Maritime Executive. Embarcações da ADNOC Logistics and Shipping e da Navig8 Tankers, subsidiária da ADNOC, também foram citadas pela Antena 1. Entre os proprietários internacionais, o Maritime Executive identificou a sul-coreana Sinokor, além de navios da Klaveness Ship Management e da Stolt Tankers.

As embarcações listadas incluem superpetroleiros, navios-tanque de gás natural liquefeito, embarcações de gás de petróleo liquefeito e navios de produtos refinados. A Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico advertiu que qualquer embarcação envolvida em transferências de navio para navio com os navios listados também poderá ser adicionada à relação, e exigiu que companhias de navegação revisem a lista antes de contratar embarcações.

O Irã justificou as restrições citando "violações por certas embarcações das disposições iranianas para trânsito pelo Estreito de Ormuz", sem especificar quais regras foram descumpridas. Anteriormente, o país havia exigido que armadores obtivessem autorização iraniana para transitar pelo estreito e pagassem por serviços de segurança e outros. O Parlamento iraniano aprovou regras que permitem cobrar taxas por serviços de navegação, proteção ambiental, abastecimento de combustível em circunstâncias especiais, seguro, segurança e outros serviços prestados no estreito.

A medida também visa atingir operações de transbordo que cresceram como alternativa ao trânsito direto pela passagem. O Irã declarou que pretende alcançar operações de navios-tanque que emergiram no Golfo e transferências de navio para navio fora do Golfo, adotadas por operadores avessos ao risco que passaram a evitar o Estreito de Ormuz.

Tráfego e tensão no Estreito

Os dados de tráfego mostram volatilidade. Na semana anterior ao anúncio, as travessias de Ormuz subiram 2,5% para 121, enquanto os trânsitos carregados caíram 27% e as travessias sancionadas aumentaram de 9 para 16, segundo levantamento da Kpler. No fim de semana anterior ao anúncio, menos de 20 navios comerciais passaram pelo estreito, com apenas quatro no domingo, conforme o mesmo veículo.

O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, afirmou na sexta-feira anterior ao anúncio que a média de sete dias do petróleo que sai do Estreito superava 8 milhões de barris por dia, segundo a Antena 1. Um porta-voz da Guarda Revolucionária Islâmica contestou as afirmações americanas de que entre 7 milhões e 15 milhões de barris passam diariamente pelo estreito, classificando-as de "infundadas, irrealistas e fantasiosas".

O principal oficial de segurança do Irã, Mohsen Rezaei, declarou que "se a guerra econômica continuar, nem uma gota de óleo será exportada, nem pelo Estreito de Ormuz nem de lugar algum do Golfo Pérsico". A crise teve início após ataques dos EUA e Israel contra o Irã: em março de 2026, os EUA atacaram alvos militares na Ilha Kharg, principal centro petrolífero iraniano e responsável por 90% das exportações de petróleo do país. Em abril de 2026, o Irã abriu a passagem a navios com bandeiras de nações consideradas não hostis, permitindo o trânsito de embarcações da França, Omã e Japão, também.

FUP Explica

A publicação da lista negra sinaliza que o Irã está institucionalizando o controle sobre o Estreito de Ormuz, transformando o que antes era uma ameaça retórica em mecanismo administrativo com consequências concretas para armadores. Isso muda o cálculo de risco para qualquer operador que precise transitar pela passagem: não basta evitar o estreito, porque a ameaça de inclusão na lista por transferências de navio para navio fora do Golfo alcança também as rotas alternativas que o mercado criou nos últimos meses.

O fato de a lista incluir empresas da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar, ou seja, vizinhos e rivais regionais do Irã, amplia a dimensão política da medida. Não se trata apenas de pressão contra os EUA: o Irã está sinalizando capacidade de interferir nas operações de exportação de petróleo e GNL de países do próprio Golfo, o que tende a elevar a pressão diplomática regional e pode complicar ainda mais as negociações em curso.

Do ponto de vista econômico, a incerteza sobre quais regras foram violadas e quais critérios definem a conformidade cria um ambiente de insegurança jurídica para armadores e seguradoras. Sem clareza sobre o que o Irã exige, qualquer navio que transite pela região opera sob risco de ser incluído na lista a qualquer momento, o que tende a encarecer seguros, reduzir a oferta de embarcações disponíveis para a rota e pressionar os fretes. A volatilidade nos dados de tráfego, com queda acentuada nos trânsitos carregados e aumento nas travessias sancionadas, já indica que o mercado está absorvendo esse risco de forma desordenada.

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