FUP News
Inteligência artificial passa a executar processos no comércio exterior
Tecnologia

Imagem gerada por IA

Inteligência artificial passa a executar processos no comércio exterior

24/08/2026·1095 palavras

Nos últimos anos, a inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio e passou a executar diretamente processos empresariais. Pressionadas pela busca por produtividade, redução de custos e maior controle das operações, empresas de tecnologia, logística e comércio exterior começaram a incorporar agentes capazes de interpretar documentos, cruzar dados, acompanhar operações e executar tarefas integradas aos sistemas corporativos.

Os números mostram que essa transformação ultrapassou a fase de experimentação isolada. Uma pesquisa internacional da McKinsey, publicada em novembro de 2025, apontou que 88% das organizações consultadas utilizavam inteligência artificial regularmente em pelo menos uma função de negócio, ante 78% no levantamento anterior. Além disso, 62% afirmaram que suas empresas testavam agentes de IA.

Apesar do avanço, a adoção da tecnologia ainda ocorre de forma desigual. A pesquisa apontou que quase dois terços das empresas não haviam conseguido disseminar seu uso por toda a organização, e o nível de utilização também apresentou diferenças conforme o porte das empresas.

Segundo a OCDE, 20,2% das companhias dos países analisados utilizavam IA em 2025. Esse percentual chegava a 52% entre as grandes empresas, enquanto, entre as pequenas, ficava em 17,4%. Uma evidência de que a incorporação da tecnologia avança em ritmos distintos de acordo com a estrutura das organizações.

Inteligência artificial no comércio exterior: da análise à execução

No comércio exterior, a quantidade de documentos, dados e participantes envolvidos em uma única operação cria um ambiente favorável à automação. Faturas comerciais, conhecimentos de embarque, classificações fiscais, contratos, cotações, rastreamento de cargas e dados alfandegários ainda dependem, em muitos casos, de consultas manuais, transferência de informações entre sistemas e conferência humana.

A Organização Mundial do Comércio estima que os efeitos da tecnologia podem alcançar as próprias trocas internacionais. No World Trade Report 2025, a entidade projetou que a adoção da IA poderia elevar o comércio mundial entre 34% e 37% até 2040. Como consequência, o PIB mundial poderia crescer entre 12% e 13% nos cenários analisados.

Esse movimento reforça uma mudança no papel dos softwares: além de apresentar informações, os sistemas começam a executar ações em fluxos previamente definidos. A questão agora é entender quando essa capacidade deixará de ser um diferencial e passará a representar uma exigência competitiva no setor.

Para Jackson Campos, pesquisador sobre a adoção da inteligência artificial na gestão da cadeia de suprimentos pela Université de Bordeaux, essa mudança ocorreu. Na avaliação do especialista, a IA deixou de ser apenas um diferencial competitivo no comércio exterior e passou a ser uma exigência para as empresas do setor.

O mercado brasileiro também entrou nesse processo. Para Campos, empresas que ainda não utilizam a tecnologia não estão apenas deixando de acompanhar uma tendência, mas se encontram em posição de atraso em relação àquelas que incorporaram essas ferramentas às operações.

Agentes autônomos chegam às plataformas brasileiras

No Brasil, essa transformação começa a aparecer em plataformas desenvolvidas especificamente para o comércio exterior. Em abril de 2026, a Logcomex apresentou uma solução baseada em agentes autônomos capazes, segundo a empresa, de cruzar invoice, packing list e bill of lading, identificar inconsistências, acompanhar embarques, antecipar riscos logísticos, apoiar a busca por fornecedores e organizar processos aduaneiros.

A empresa estima que os agentes possam reduzir entre 50% e 60% das atividades manuais e diminuir em aproximadamente 15% os custos operacionais dos usuários.

A capacidade de interpretar documentos, comparar dados e acompanhar eventos continuamente também levanta outra questão: quais atividades estão mais próximas de serem delegadas aos agentes?

Segundo Campos, as atividades operacionais estão sendo automatizadas, enquanto as funções comerciais devem avançar nessa direção em breve. A tendência é que sistemas capazes de realizar cotações, solicitar embarques e executar processos de faturamento estejam entre os próximos a incorporar níveis maiores de automação. Com isso, a atuação dos agentes deve avançar gradualmente de tarefas repetitivas e operacionais para etapas que hoje exigem maior participação das áreas comerciais.

Tecnologia avança, mas empresas precisam se adaptar

A disseminação das ferramentas não significa que sua implantação seja simples. No comércio exterior, a adoção de agentes exige integração entre sistemas, qualidade dos dados, segurança da informação e definição clara sobre quais decisões podem ser executadas automaticamente e quais devem permanecer sob validação humana.

Esse pode ser um dos principais pontos de diferença entre a velocidade de evolução da tecnologia e a capacidade das empresas de incorporá-la às operações.

Na avaliação de Campos, uma das principais barreiras está na resistência dos próprios usuários, especialmente quando não há confiança nas informações fornecidas pelos sistemas. A dificuldade envolve tanto a falta de clareza sobre a origem dos dados quanto a incerteza sobre o destino das informações inseridas nas plataformas. Soma-se a isso a dificuldade de compreender como a máquina chegou a determinada resposta, fator que pode reduzir a confiança nas ferramentas e retardar sua adoção.

O desafio tende a ganhar importância à medida que grandes fornecedores incorporam agentes diretamente a plataformas corporativas, sistemas de gestão e ferramentas utilizadas no cotidiano das empresas.

A inteligência artificial pode, assim, seguir uma trajetória semelhante à de ERPs, computação em nuvem e plataformas de rastreamento, que passaram de diferenciais tecnológicos a componentes recorrentes das operações.

Para importadores, exportadores, agentes de carga, despachantes e operadores logísticos, a discussão passa a envolver quais processos devem ser redesenhados, quais dados precisam estar preparados e quais atividades podem ser delegadas à tecnologia sem comprometer controle, segurança e responsabilidade.

Nesse cenário, Jackson Campos considera que o primeiro passo para as empresas é compreender profundamente o próprio negócio e reconhecer que a inteligência artificial está sendo utilizada pelos concorrentes.

Adiar o início desse processo por mais um ano pode representar um intervalo significativo diante da velocidade de evolução das ferramentas. Por isso, quanto antes a empresa conhecer as soluções disponíveis e identificar aquelas adequadas às suas necessidades, mais rapidamente poderá decidir como incorporar a tecnologia às operações.

Se esse movimento continuar, a principal mudança provocada pela inteligência artificial no comércio exterior será a passagem de parte das operações para sistemas capazes de interpretar informações e agir de forma autônoma, antes mesmo que um profissional precise solicitar a execução de determinada tarefa.

---

Sobre Jackson Campos

Jackson Campos é especialista em comércio exterior e supply chain, com atuação no setor e em relações governamentais. É doutorando na Universidade de Bordeaux, na França, onde desenvolve pesquisa sobre a adoção da inteligência artificial generativa por empresas e profissionais da cadeia de suprimentos. Acompanha temas como comércio internacional, tarifas e barreiras comerciais, geopolítica, inteligência artificial aplicada à cadeia de suprimentos, importação, exportação e logística internacional, analisando dados, tendências e transformações do mercado e seus impactos sobre empresas e profissionais do setor.

Compartilhar:WhatsAppX (Twitter)LinkedIn

Leia também