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IA chega a 80% das ocupações nos EUA, mas ganhos de produtividade ainda são limitados
A inteligência artificial generativa aparece em mais de 80% das ocupações nos Estados Unidos, mas sua adoção segue concentrada em partes específicas do trabalho e começa a elevar as exigências para quem entra no mercado. Levantamentos do Federal Reserve Bank de St. Louis, divulgados em 2026, mostram que a tecnologia se espalha entre profissionais e empresas, enquanto recém-formados enfrentam desemprego maior em um cenário de contratações fracas, e os ganhos de produtividade prometidos pelas companhias ainda são pouco visíveis.
Em um estudo com quase 14 mil trabalhadores entrevistados entre agosto de 2025 e maio de 2026, o Fed considerou que a IA está presente em uma ocupação quando ao menos 20% dos profissionais afirmam utilizá-la. Por esse critério, mais de oito em cada dez ocupações registram adoção.
Ainda assim, apenas 40% têm uso superior a 50%, e menos de 3% das tarefas analisadas são realizadas com IA por mais da metade das pessoas responsáveis por elas.
A adoção é maior em funções ligadas à computação. Cientistas de pesquisa em computação e informação chegam a 87,3%, analistas de segurança da informação chegam a 85,4% e administradores de redes e sistemas, a 82,4%. Cuidadores de animais registram 5,3%, recepcionistas e funcionários de informação, 7,6%, e profissionais de enfermagem prática e vocacional licenciados, 10,4%. Professores de educação especial, porém, chegam a 70,9%, enquanto trabalhadores de lavanderias e lavagem a seco aparecem com 49%.
Ao mesmo tempo, outro relatório do Fed aponta que a desaceleração do mercado de trabalho desde o pico de 2023 elevou em 2,2 pontos percentuais o desemprego entre recém-formados. Entre jovens de 18 a 24 anos com até o ensino médio, a alta foi de 1,23 ponto, enquanto trabalhadores de 25 a 64 anos tiveram alta de 1,1 ponto. Desde abril de 2023, a redução das contratações atingiu especialmente os novos entrantes.
As mudanças relacionadas à IA acrescentaram pressão adicional. Segundo o levantamento, elas estiveram associadas a um aumento de 1,68 ponto percentual no desemprego entre recém-formados, impacto mais de cinco vezes maior do que entre trabalhadores de 25 a 64 anos e oito vezes superior ao observado entre jovens sem diploma universitário. Os pesquisadores, contudo, destacam que a desaceleração econômica e a queda das vagas continuam sendo fatores mais relevantes.
A demanda por novas competências também pesa. Pesquisa da National Association of Colleges and Employers indicou, no início de 2026, que mais de um terço dos empregadores exigia habilidades em IA para funções de entrada, proporção que havia triplicado desde o outono de 2025.
Parte das faculdades ainda não acompanha essa mudança, aumentando a lacuna entre formação e exigências das empresas, justamente quando muitos recém-formados precisam começar a pagar empréstimos estudantis após deixar a universidade.
Entusiasmo nas empresas corre à frente dos resultados
Embora a tecnologia esteja disseminada, a experiência de uso influencia sua profundidade. Profissionais que utilizam IA generativa há pelo menos seis meses tendem a incorporá-la em mais tarefas, enquanto idade, escolaridade e sexo explicam pouco das diferenças individuais. Atividades físicas ou presenciais, como dirigir caminhões, coletar amostras biológicas e preparar áreas de tratamento, não tiveram uso relatado.
Nas empresas, por sua vez, o entusiasmo ainda corre à frente dos resultados. Uma análise de quase 500 mil transcrições de teleconferências mostrou que a fatia de frases sobre produtividade associadas à IA saltou de 1,5% no quarto trimestre de 2022 para 15,6% no mesmo período de 2025.
Cerca de 95% dessas menções foram formuladas no futuro, e mais de nove em cada dez indicavam expectativa de maior produtividade, sem correspondência equivalente nos números de eficiência operacional.
O contraste também aparece entre os CIOs: 94% disseram que o interesse por IA cresceu em suas organizações, mas 51% avaliam que a implementação avança rápido demais e 55% ainda não têm clareza sobre o roteiro para os próximos dois ou três anos. Estudos citados pelo levantamento indicam ainda que ferramentas de IA podem reduzir o ritmo de programadores experientes em algumas situações e que gerar mais linhas de código não significa, necessariamente, lançar mais software. Assim, o impacto da tecnologia sobre emprego, salários e produtividade dependerá de quais tarefas forem efetivamente transformadas por ela.
FUP Explica
O que os dados do Fed de St. Louis revelam é uma tecnologia que se espalhou rápido em termos de presença, mas que ainda não entregou a transformação de produtividade que as empresas prometem aos acionistas. Isso tem consequências práticas em pelo menos três frentes.
No mercado de trabalho, o grupo mais vulnerável no curto prazo é o de recém-formados universitários. Eles chegam ao mercado num momento em que as contratações desaceleraram e, ao mesmo tempo, as empresas passaram a exigir familiaridade com IA até para vagas de entrada. A lacuna entre o que as faculdades ensinam e o que os empregadores pedem tende a se aprofundar enquanto os currículos não se adaptarem, e isso pode prolongar o período de desemprego justamente quando esses jovens começam a arcar com dívidas estudantis.
No lado das empresas, o risco é de uma bolha de expectativa. Quando 95% das menções à produtividade via IA nas teleconferências são formuladas no futuro, e os números de eficiência operacional não acompanham o discurso, há pressão crescente para que os resultados apareçam. Isso pode acelerar decisões de implementação mal planejadas, o que ajuda a entender por que 51% dos CIOs avaliam que o ritmo está rápido demais. A evidência de que ferramentas de IA podem, em alguns casos, reduzir o desempenho de programadores experientes sugere que a adoção sem critério pode gerar custo antes de gerar ganho.
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