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Claude é usado em proposta de pesquisa com mutações de chikungunya em instituto militar
A Anthropic informou ter identificado e bloqueado usos do Claude em pesquisas que, segundo avaliação da empresa, poderiam contribuir para o desenvolvimento de capacidades biológicas perigosas. Os episódios aparecem no relatório “Detecting and countering misuse of AI: September 2026”, divulgado em setembro e referente a ocorrências registradas entre dezembro de 2025 e agosto de 2026, a USA Today.
A empresa apresentou cinco estudos de caso relacionados a riscos biológicos envolvendo diferentes versões do Claude, entre elas Haiku, Sonnet e Opus, segundo a BBC. As contas associadas às atividades consideradas de risco foram bloqueadas.
A Anthropic afirma que uma das principais dificuldades para identificar esse tipo de utilização está na natureza de uso dual das informações científicas: conhecimentos empregados no desenvolvimento de tratamentos, vacinas e outras pesquisas legítimas também podem ser aproveitados para fins prejudiciais.
Um dos casos identificados ocorreu em maio de 2026, quando um usuário pediu ajuda ao Claude para elaborar uma proposta de financiamento relacionada a uma pesquisa de ganho de função envolvendo o vírus chikungunya.
A proposta envolvia a introdução de mutações no vírus e experimentos com infecções repetidas em animais vivos. A Anthropic classificou o episódio como especialmente sensível diante das características da pesquisa e do ambiente em que os experimentos seriam realizados.
Segundo o Forte, embora a proposta mencionasse pesquisadores civis, os experimentos estavam previstos para ocorrer em um instituto militar. O relatório também descreve atividades relacionadas à gripe aviária, a orthopoxvírus e ao desenvolvimento computacional de toxinas, segundo a mesma publicação.
Em outro estudo de caso, um usuário solicitou ao Claude auxílio para elaborar uma candidatura a financiamento de pesquisa envolvendo orthopoxvírus em um laboratório associado ao Estado. Esse grupo de vírus inclui agentes relacionados à varíola e à mpox.
A Anthropic não divulgou os nomes dos pesquisadores, instituições ou países envolvidos nos episódios biológicos.
Distinguir pesquisa científica legítima de uma atividade potencialmente prejudicial é um dos principais desafios descritos pela empresa. Jacob Klein, chefe de inteligência de ameaças da Anthropic, classificou a avaliação desse tipo de atividade como “incrivelmente matizada”, em declaração ao New York Times.
“Você não vê alguém, como num gibi, dizendo: ‘Quero construir uma arma biológica para matar todo mundo’. É uma situação extremamente complexa”, afirmou Klein.
A Anthropic também destacou que informações capazes de contribuir para o desenvolvimento de uma arma biológica podem ter aplicações legítimas, como pesquisas destinadas à criação de vacinas ou tratamentos. Diante dessa ambiguidade, a empresa informou ter adotado uma abordagem de precaução nos casos em que não conseguiu determinar com segurança a finalidade das solicitações. As contas relacionadas foram bloqueadas.
Segundo informações publicadas pelo Forte, alguns usuários recorreram a uma plataforma intermediária utilizada por dezenas de pesquisadores das ciências da vida.
O tráfego também teria sido direcionado por servidores localizados nos Estados Unidos para contornar restrições geográficas. A publicação relata ainda tentativas de fragmentar ou ocultar o objetivo das pesquisas para evitar os mecanismos de segurança do modelo.
A Anthropic afirma ter reforçado seus controles à medida que seus sistemas passaram a apresentar maior capacidade para executar tarefas científicas complexas.
Avaliações realizadas em 2025 indicavam que modelos anteriores da empresa ainda não ofereciam auxílio considerado significativo para determinadas pesquisas biológicas perigosas. A evolução das capacidades dos modelos levou a companhia a adotar salvaguardas adicionais.
Os riscos biológicos representam apenas uma parte das atividades descritas no relatório. A Anthropic também documentou usos do Claude relacionados a operações de influência, vigilância, ataques cibernéticos, fraudes e desenvolvimento de sistemas ligados a armas convencionais.
Rússia, China, Irã e Iêmen aparecem no documento em conexão com diferentes operações investigadas pela empresa. As atribuições correspondem às avaliações apresentadas pela Anthropic sobre as atividades identificadas.
Uma operação associada à Rússia teria utilizado o Claude para produzir conteúdo apresentado como material jornalístico relacionado às eleições na Moldávia. Operações relacionadas à China e ao Irã também foram associadas a atividades de monitoramento de opositores no exterior, segundo as fontes citadas.
A BBC informou que o relatório apresenta seis casos relacionados ao desenvolvimento de software para sistemas de armas convencionais, entre eles armas de fogo, mísseis, drones armados e bombas.
Uma atividade com características atribuídas ao grupo conhecido como Midnight Blizzard ou APT29 também teria utilizado inteligência artificial em um sistema destinado a modificar repetidamente códigos maliciosos para reduzir sua detecção por ferramentas de segurança.
O período analisado inclui ainda atividades relacionadas a falsos aplicativos de relacionamento, golpes contra redes de hotéis e sistemas de vigilância destinados à identificação de dissidentes.
A Anthropic afirmou ter incorporado as informações obtidas durante as investigações aos seus processos internos para “melhor prevenir, detectar e interromper essas atividades no futuro”.
A empresa também informou ter compartilhado informações sobre ameaças com autoridades e parceiros do setor quando considerou necessário. A Anthropic classificou o possível uso de inteligência artificial em atividades biológicas perigosas como “um dos riscos mais sérios de modelos de IA de fronteira” e afirmou que, sem salvaguardas adequadas, essas capacidades “poderiam ter consequências catastróficas”.
Andrew Weber, do Council on Strategic Risks, que analisou o relatório antes de sua publicação, defendeu que o acesso a determinadas capacidades desses modelos seja restrito a pesquisadores considerados confiáveis, segundo declaração ao New York Times.
As conclusões sobre os episódios biológicos, entretanto, baseiam-se principalmente nas investigações da própria Anthropic. Como a empresa não revelou as identidades dos pesquisadores, as instituições nem os países relacionados a esses casos, as circunstâncias descritas no relatório não podem ser verificadas de forma independente apenas com as informações tornadas públicas.
FUP Explica
O relatório da Anthropic expõe uma tensão que vai crescer conforme os modelos de linguagem ficam mais capazes: quanto mais útil a IA é para ciência legítima, mais útil ela também é para quem quer causar dano. O problema do "uso dual" não é novo na biologia, mas a IA acelera o acesso a conhecimento especializado que antes exigia anos de formação ou acesso a laboratórios restritos.
Isso muda a equação de risco de forma significativa, porque reduz a barreira de entrada para atores mal-intencionados sem experiência técnica profunda.
Do ponto de vista institucional, o episódio mostra que as empresas de IA estão, na prática, exercendo um papel de controle que deveria ser compartilhado com governos e organismos internacionais, mas que ainda não tem estrutura regulatória clara para isso.
A Anthropic tomou decisões unilaterais de bloqueio com base em julgamento próprio sobre risco, sem critério público ou supervisão externa. Isso pode funcionar bem quando a empresa age com cautela, como parece ter sido o caso aqui, mas cria um precedente problemático: a segurança depende da boa-fé e da capacidade técnica de uma corporação privada, não de um marco legal verificável.
O contexto político americano complica ainda mais. A disputa entre a Anthropic e o Departamento de Defesa, que tentou exigir acesso irrestrito ao Claude e viu seus produtos temporariamente banidos do governo antes de uma liminar judicial reverter a decisão, mostra que a empresa está navegando entre pressões opostas: de um lado, governos que querem usar IA sem restrições para fins militares; de outro, especialistas em segurança que pedem freios mais rigorosos.
O relatório divulgado agora pode ser lido também como um movimento de posicionamento público da Anthropic nesse debate, demonstrando que age com responsabilidade num momento em que a regulação do setor ainda está em aberto.
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