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Houthis mudam estratégia e passam a atacar navios no norte do Mar Vermelho
Houthis anunciam bloqueio de rotas de petróleo saudita e afirmam ter atingido 8 navios desde 20 de julho, expandindo ameaças em ambas as extremidades do Mar Vermelho. Crise geopolítica com impacto crítico em rotas marítimas e frete internacional.
Os Houthis do Iêmen ampliaram suas operações no Mar Vermelho e passaram a atacar embarcações sauditas também no extremo norte da rota, próximo ao porto de Yanbu, depois de declarar o fechamento do sul pelo Estreito de Bab el-Mandeb. O movimento representa uma mudança operacional relevante do grupo e eleva o risco para a navegação em toda a extensão do corredor marítimo.
Nesta quarta-feira (5), os Houthis atacaram com vários mísseis balísticos o petroleiro saudita Wafa no norte do Mar Vermelho, segundo o Opera Mundi. O comunicado do grupo afirma que a embarcação foi atingida com precisão. Com esse ataque, o número total de petroleiros sauditas atingidos desde o início do embargo chegou a oito, de acordo com o próprio grupo.
O embargo foi declarado em 20 de julho de 2026, quando os Houthis anunciaram o fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb para navios sauditas, em retaliação ao bloqueio imposto por Riad ao Iêmen desde 2015 e ao bombardeio do aeroporto de Sanaa. O Estreito de Bab el-Mandeb separa o Iêmen do Djibuti e da Eritreia, conectando o Mar Vermelho ao Oceano Índico.
No dia seguinte, dois petroleiros carregados com petróleo saudita destinado à China e à Índia reverteram a rota ao se aproximar do estreito, segundo dados de monitoramento marítimo reportados pelo G1.
Em 23 de julho, os Houthis anunciaram ter atingido dois petroleiros sauditas com mísseis e drones, e fontes sauditas confirmaram danos a uma das embarcações, de acordo com a DW. Na mesma semana, cinco petroleiros adicionais mudaram de rota para evitar Bab el-Mandeb, e três navios com petróleo saudita destinado à China e à Índia fizeram meia-volta.
Desde o início do embargo, em 22 de julho, o grupo afirma que 29 petroleiros sauditas foram forçados a se retirar ou recuar nos mares Vermelho e Arábico, conforme comunicado divulgado pelos próprios Houthis e reportado pelo Opera Mundi.
O ataque ao Wafa, no norte do Mar Vermelho, responde diretamente ao desvio de rota adotado pelos navios sauditas. Os Houthis declararam que, diante do sucesso em fechar o acesso pelo sul, as embarcações passaram a navegar pelo norte, e o grupo anunciou que suas operações nessa área "continuarão e se intensificarão", com o objetivo de "fechar todos os pontos de acesso".
O grupo opera sob a lógica declarada de "bloqueio por bloqueio", em referência ao cerco imposto pela Arábia Saudita ao Iêmen. Após ataques aéreos sauditas contra posições houthis em Hodeida, o grupo respondeu com mísseis contra o território saudita, configurando uma troca de ataques que abre nova frente no conflito regional.
Rotas afetadas e contexto regional
O Estreito de Bab el-Mandeb responde por cerca de 12% do comércio mundial, incluindo um quarto do tráfego de contêineres na rota que conecta Europa e Ásia pelo Canal de Suez. Com o Estreito de Ormuz sob bloqueio do Irã, uma interrupção simultânea no Mar Vermelho eliminaria as duas principais rotas de exportação de petróleo do Oriente Médio ao mesmo tempo, conforme registrou o G1.
O contexto regional é de escalada ampla. A DW reportou, em 23 de julho de 2026, que forças americanas realizavam ataques contra o Irã por ordem do presidente Donald Trump, com a 12ª noite consecutiva de ofensivas naquela data, enquanto o Irã afirmava ter respondido com ataques a posições militares dos EUA na Jordânia e no Kuwait.
A Arábia Saudita buscava, formar uma coalizão internacional para proteger a navegação no Mar Vermelho, com discussões em curso com dezenas de países, segundo duas fontes próximas às negociações. A composição da coalizão não havia sido definida naquela data.
FUP Explica
A extensão das operações houthis para o norte do Mar Vermelho fecha o cerco sobre a Arábia Saudita por ambas as extremidades da rota e torna o desvio pelo Cabo da Boa Esperança, ao redor da África, a alternativa mais provável para os petroleiros sauditas. Isso significa trajetos significativamente mais longos, mais combustível, mais tempo e, consequentemente, pressão de alta sobre os fretes e sobre o preço do petróleo nos mercados que dependem do fornecimento saudita, especialmente China e Índia.
O problema se agrava porque o Estreito de Ormuz, a outra saída do Golfo Pérsico, já opera sob restrições severas impostas pelo Irã. Com as duas rotas comprometidas ao mesmo tempo, o mercado de petróleo enfrenta um gargalo sem precedente recente, e qualquer interrupção prolongada tende a se traduzir em inflação de energia nos países importadores, inclusive no Brasil, que depende de petróleo importado para parte da sua demanda de derivados.
No plano político, a crise coloca a Arábia Saudita em uma posição delicada: ela precisa de apoio internacional para proteger sua navegação, mas a coalizão que tentava montar em julho ainda não tinha composição definida, e os EUA estão simultaneamente engajados em ataques ao Irã, o que reduz a margem para uma resposta coordenada e calculada.
Para o comércio marítimo em geral, o risco é de uma nova rodada de desvios de rota e alta de frete nas linhas que passam pelo Canal de Suez, repetindo o padrão já observado em crises anteriores no Mar Vermelho.



