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Arábia Saudita busca apoio chinês após houthis avançarem sobre Bab el-Mandeb
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Arábia Saudita busca apoio chinês após houthis avançarem sobre Bab el-Mandeb

18/09/2026·638 palavras

Pequim teria pedido reservadamente ao Irã que usasse sua influência sobre o grupo, enquanto a escalada no Mar Vermelho aumenta a pressão sobre rotas de petróleo e de navegação

Com os houthis avançando rapidamente pela costa do Mar Vermelho e intensificando a pressão sobre uma das principais rotas marítimas do Oriente Médio, a Arábia Saudita recorreu à China nos últimos dias em busca de ajuda para conter a escalada militar no Iêmen. Depois do pedido saudita, Pequim procurou reservadamente o Irã e pediu que Teerã utilizasse sua influência sobre o grupo para reduzir as ações, segundo três fontes iranianas familiarizadas com as conversas que falaram à Reuters.

O movimento ocorre enquanto o estreito de Bab el-Mandeb ganha ainda mais relevância para o transporte de petróleo e mercadorias, sobretudo diante das dificuldades enfrentadas no estreito de Ormuz.

A preocupação de Riad aumentou depois que os houthis conquistaram posições ao longo da costa do Mar Vermelho e nas proximidades de Bab el-Mandeb, passagem que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. O movimento deixou as exportações sauditas de petróleo e o transporte marítimo mais expostos e criou o risco de uma nova frente de interrupções logísticas em uma região já pressionada por conflitos.

A iniciativa chinesa, porém, não foi anunciada oficialmente. Publicamente, Pequim tem defendido contenção, diálogo e a retomada da navegação segura na região, enquanto, nos bastidores, teria solicitado uma ação mais direta de Teerã. As fontes, que falaram sob condição de anonimato, não informaram como a mensagem foi transmitida nem se o assunto foi tratado durante a visita do chanceler iraniano Abbas Araghchi à China nesta semana. A FBC News, que também noticiou o caso, informou que não foi possível determinar se o pedido ocorreu durante a passagem do ministro por Pequim.

Para a China, a situação também representa uma preocupação econômica. O país depende fortemente do petróleo produzido no Oriente Médio e tem interesse direto na manutenção das principais passagens marítimas utilizadas para o escoamento de recursos energéticos da região. Com Ormuz severamente comprometido, ataques prolongados contra navios ou portos próximos ao Mar Vermelho poderiam atingir simultaneamente dois corredores estratégicos para as exportações de petróleo do Oriente Médio.

Cerca de metade das importações chinesas de petróleo vem da região, enquanto o comércio entre a China e os países do Conselho de Cooperação do Golfo gira em torno de US$ 300 bilhões por ano. Pequim também mantém uma relação econômica importante com Teerã. A China é o maior parceiro comercial do Irã há mais de uma década e continua sendo o principal comprador de seu petróleo.

Em 2025, a China respondeu por mais de 80% das exportações iranianas de petróleo por via marítima, com uma média de aproximadamente 1,4 milhão de barris por dia, de acordo com dados da empresa de análise de commodities Kpler.

Ainda assim, não há indicação de que Pequim tenha ameaçado adotar sanções ou exercer pressão econômica caso Teerã não intervenha. Ao responder sobre o tema, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que não deseja ver as tensões regionais se estenderem ainda mais pelo Iêmen e pelo Mar Vermelho e defendeu que as divergências sejam solucionadas por meio de diálogo e negociação. Segundo as fontes ouvidas sobre as conversas, a resposta iraniana foi que a estabilidade regional depende do encerramento da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.

A capacidade chinesa de influenciar a situação, portanto, ainda deve ser testada. Pequim desempenhou um papel diplomático relevante no Oriente Médio em 2023, quando mediou o acordo que restabeleceu as relações entre Irã e Arábia Saudita. Agora, porém, o desafio envolve não apenas a relação entre os dois países, mas também o comportamento dos houthis e a segurança de corredores marítimos dos quais depende uma parcela importante do comércio mundial de recursos energéticos. Ainda não está claro se Teerã atenderá ao pedido chinês.

FUP Explica

O episódio revela uma tensão estrutural na posição chinesa no Oriente Médio: Pequim quer ser vista como mediadora neutra, mas seus interesses econômicos a empurram para agir. Com Hormuz comprometido e os houthis avançando sobre Bab el-Mandeb, a China enfrenta o risco concreto de ver dois dos principais corredores de petróleo do mundo sob pressão simultânea, o que afeta diretamente cerca de metade de suas importações de energia. Agir nos bastidores, sem anunciar e sem ameaçar, é a forma que Pequim encontrou de proteger esses interesses sem romper com Teerã, de quem compra mais de 80% do petróleo exportado por via marítima.

Do ponto de vista político, o movimento mostra os limites da influência chinesa: a resposta iraniana, segundo as fontes da Reuters, foi essencialmente uma recusa disfarçada de condição, vinculando qualquer ação à resolução da guerra mais ampla envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Isso significa que Pequim não tem como entregar o resultado que Riad pediu sem que haja uma mudança no cenário regional mais amplo, algo fora do seu controle direto. A Arábia Saudita, por sua vez, ao recorrer à China em vez de pressionar diretamente o Irã ou acionar aliados ocidentais, sinaliza que aposta na influência econômica de Pequim sobre Teerã como alavanca mais eficaz no momento.

Para o comércio marítimo internacional, o risco prático é a consolidação de uma zona de instabilidade que abrange tanto Ormuz quanto Bab el-Mandeb. Rotas alternativas existem, mas encarecem o transporte e alongam os prazos. O desfecho depende de variáveis que nenhum dos atores controla sozinho, e a sinalização de que Teerã ainda não respondeu ao pedido chinês indica que a pressão sobre essas rotas pode continuar por tempo indeterminado.

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