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Israel usa IA para identificar construções palestinas na Cisjordânia ocupada
Israel passou a utilizar sistemas de inteligência artificial para monitorar alterações em construções palestinas na Cisjordânia ocupada, segundo reportagem publicada pela Al Jazeera nesta quinta-feira (17). A tecnologia é empregada por órgãos israelenses para analisar imagens do território, identificar novas edificações ou modificações consideradas irregulares pelas autoridades e direcionar ações de fiscalização. O uso das ferramentas ocorre em um período de aumento das demolições de estruturas palestinas e de avanço de assentamentos israelenses, segundo dados de organizações citadas pela emissora.
Uma das ferramentas mencionadas pela Al Jazeera é a ImiSight, desenvolvida pela empresa israelense de sistemas de defesa Rafael. O software compara imagens de grandes extensões territoriais para detectar mudanças na paisagem, como novas edificações ou modificações em construções existentes. Segundo a reportagem, as alterações identificadas podem ser transformadas em pontos prioritários para fiscalização, diminuindo o intervalo entre a detecção de uma obra e uma eventual ordem de demolição.
A estrutura de fiscalização ganhou um novo componente em abril de 2025, quando uma unidade da Autoridade de Terras de Israel foi criada especificamente para atuar na Cisjordânia. A organização israelense Peace Now afirma que o órgão utiliza ferramentas tecnológicas baseadas em inteligência artificial para identificar ocupações e alterações no território.
De acordo com o veículo turco PalDigital, a tecnologia havia sido empregada anteriormente no deserto de Naqab, dentro de Israel, para monitorar comunidades beduínas palestinas em localidades não reconhecidas pelo governo israelense. Posteriormente, o sistema teria passado a ser utilizado na Cisjordânia.
Israel realiza demolições de imóveis palestinos no território sob a justificativa de que determinadas construções não possuem as licenças exigidas. Organizações de direitos humanos sustentam, por outro lado, que palestinos enfrentam grandes dificuldades para obter essas autorizações.
Para Amir Daoud, chefe de documentação e publicação da Comissão de Resistência à Colonização e ao Muro, a adoção das ferramentas representa a transferência para a Cisjordânia de um modelo de vigilância anteriormente utilizado no Naqab.
O monitoramento também passou a incorporar novas tecnologias de satélite. Segundo o especialista palestino em tecnologia Khaled Safi, equipamentos mais recentes conseguem processar imagens com inteligência artificial ainda em órbita, identificando alterações e objetos considerados relevantes antes da transmissão dos dados para a Terra. Esse processamento diminui a dependência de uma análise inicial feita por equipes em solo e torna mais rápida a identificação de mudanças no território.
No Naqab, a ImiSight teria permitido à Autoridade de Terras analisar mais de 10,7 mil quilômetros quadrados, conforme informações da mídia israelense reproduzidas pela Al Jazeera. A reportagem associa o emprego da tecnologia à retirada de mais de 2,6 mil beduínos palestinos de áreas monitoradas.
Na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, dados compilados pelas organizações Peace Now e Kerem Navot e citados pela emissora indicam crescimento de 80% nas demolições ao comparar o período de 2023 a 2025 com o intervalo entre 2010 e 2022. Entre 2023 e 2025, a média teria chegado a 966 construções demolidas por ano. Somente de janeiro a setembro de 2025, foram destruídas 1.288 estruturas palestinas, segundo os dados apresentados.
Além das ferramentas automatizadas, a fiscalização inclui patrulhas terrestres, drones e câmeras. Em 2023, segundo a reportagem, o governo israelense destinou 33 milhões de shekels, cerca de US$ 9 milhões, a patrulhas de colonos e outros 40 milhões de shekels, aproximadamente US$ 13,2 milhões, para equipar postos avançados com drones e outros equipamentos de vigilância.
Pesquisadores ouvidos pela Al Jazeera afirmam que a combinação dessas estruturas com algoritmos pode diminuir a participação humana nas etapas iniciais de identificação e seleção das áreas submetidas à fiscalização.
O emprego dessas tecnologias ocorre em um período de crescimento dos assentamentos israelenses na Cisjordânia. Entre 2023 e 2025, o governo avançou com planos para mais de 40 mil unidades habitacionais destinadas a colonos, enquanto 185 novos postos avançados foram estabelecidos, de acordo com os dados reunidos pela reportagem. No mesmo período, 118 comunidades palestinas de pastores deixaram as áreas onde viviam.
Dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) e da Peace Now citados pela reportagem também indicam que cerca de 750 mil colonos israelenses vivem nos territórios ocupados. O levantamento registra ainda 1.836 ataques de colonos contra palestinos em 2025.
Paralelamente, Israel lançou um sistema on-line de registro de terras para a Área C da Cisjordânia, que permanece sob controle administrativo e militar israelense. Autoridades palestinas e a Comissão de Resistência à Colonização e ao Muro criticam a iniciativa e sustentam que a digitalização do cadastro pode aumentar o controle administrativo de Israel sobre o território.
Daoud afirma ainda que a automação pode resultar em tratamentos diferentes para construções palestinas e postos avançados israelenses. Segundo ele, edificações palestinas identificadas pelos sistemas podem ser encaminhadas rapidamente para processos de demolição, enquanto postos avançados israelenses podem posteriormente passar por procedimentos de regularização.
O emprego de inteligência artificial na Cisjordânia ocorre em um contexto de adoção dessas tecnologias por Israel também em operações militares. Sistemas automatizados foram utilizados durante a guerra em Gaza para auxiliar na identificação de possíveis alvos militares. O funcionamento dessas ferramentas, o nível de participação humana nas decisões e suas consequências foram objeto de questionamentos de pesquisadores e organizações de direitos humanos.
Até a publicação da reportagem, a Al Jazeera informou ter procurado as Forças Armadas israelenses e representantes da ImiSight para obter comentários sobre as alegações relacionadas ao emprego da tecnologia na Cisjordânia, mas afirmou não ter recebido resposta.
FUP Explica
O que chama atenção nessa reportagem não é só o uso de IA em si, mas a velocidade com que o ciclo de fiscalização pode se fechar: detecção automatizada, geração de ordem de demolição e execução em campo, com cada vez menos etapas que dependam de revisão humana. Isso tem implicações jurídicas sérias, porque reduz o espaço para contestação antes que a estrutura seja derrubada.
Organizações de direitos humanos já apontam que palestinos têm dificuldade estrutural para obter licenças de construção, e um sistema que acelera a demolição sem ampliar o acesso à regularização tende a aprofundar essa assimetria.
A dimensão política é igualmente relevante. O lançamento de uma unidade específica da Autoridade de Terras para a Cisjordânia em abril de 2025, combinado com o sistema on-line de registro fundiário para a Área C, sinaliza uma expansão do aparato administrativo israelense sobre um território cujo status final ainda é objeto de disputa internacional. Autoridades palestinas leram essa digitalização como um instrumento de consolidação de controle, não de modernização neutra. Esse tipo de movimento tende a gerar pressão diplomática, especialmente em fóruns da ONU, onde dados do OCHA já integram o debate.
Por fim, o paralelo com Gaza é o ponto que mais incomoda pesquisadores: quando sistemas automatizados de identificação de alvos já foram usados em contexto de guerra, a pergunta sobre onde termina a vigilância civil e começa a lógica militar deixa de ser retórica. A ausência de resposta das Forças Armadas israelenses e da ImiSight à Al Jazeera não resolve essa questão, e a tendência é que ela siga sendo pressionada por organizações de direitos humanos e por governos que monitoram o conflito.




