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Hapag-Lloyd reforça oferta de US$ 4,2 bilhões pela ZIM para tentar vencer resistência de Israel
Nova proposta inclui rota direta para o Extremo Oriente, maior controle israelense sobre a operação local, frota própria e proteção a funcionários, mas autoridades e trabalhadores ainda questionam a venda
Em meio à resistência do governo israelense à venda de uma das principais estruturas marítimas do país, a Hapag-Lloyd e o fundo israelense FIMI reformularam a proposta de US$ 4,2 bilhões pela ZIM para tentar destravar a aquisição. O novo desenho, apresentado às autoridades de Israel em setembro, prevê criar uma companhia independente sob controle israelense, acrescentar uma rota direta para o Extremo Oriente, manter a gestão dos navios no país e reforçar as garantias para cargas essenciais e trabalhadores.
As mudanças buscam responder às preocupações de segurança nacional levantadas durante a análise da operação, que ainda depende de aprovações regulatórias para ser concluída.
A resistência ganhou força depois que autoridades israelenses passaram a questionar se a estrutura da transação garantiria autonomia suficiente ao país em períodos de crise. Segundo a Lloyd’s List, o Ministério das Finanças de Israel se posicionou contra a operação por preocupações relacionadas à segurança nacional, à influência estrangeira e à possível dependência operacional da Hapag-Lloyd. Embora o acordo de fusão tenha sido firmado em fevereiro e recebido a aprovação dos acionistas, o aval do Estado continua sendo um dos principais obstáculos para o fechamento do negócio.
Para responder a essas preocupações, Hapag-Lloyd e FIMI propõem manter uma operação independente, chamada ZIM Israel, sob propriedade e administração israelenses. De acordo com o Globes, a empresa teria frota própria, gestão dos navios e conhecimento técnico mantidos no país, além de um sistema de tecnologia da informação independente, sem acesso de terceiros, inclusive da própria Hapag-Lloyd. A proposta também reforça os poderes associados à “golden share”, participação especial do governo que permite ao Estado impor condições relacionadas à presença e às operações marítimas da companhia em Israel.
Entre as principais mudanças está a criação de uma rota semanal direta entre Israel e o Extremo Oriente, que se somaria às operações previstas no Atlântico e no Mediterrâneo. Com isso, a ZIM Israel passaria a atuar em três importantes corredores comerciais, enquanto um acordo de longo prazo permitiria acesso à frota da Hapag-Lloyd. O objetivo apresentado pelos compradores é reduzir a vulnerabilidade do abastecimento israelense em situações de emergência e garantir capacidade para transportar produtos considerados essenciais.
A estrutura prevê ainda que a ZIM Israel mantenha uma frota principal de porta-contêineres e tenha capacidade própria de contêineres refrigerados equivalente ao dobro do nível atualmente pertencente à ZIM, segundo o CTech.
O reforço serviria principalmente ao transporte de alimentos e outras cargas essenciais. No plano financeiro, os compradores estimam que as mudanças possam acrescentar cerca de US$ 1,7 bilhão às receitas da operação israelense ao longo de dez anos e gerar aproximadamente US$ 200 milhões adicionais em lucro líquido no mesmo período, impulsionados sobretudo pela nova rota com o Extremo Oriente.
Os trabalhadores também ganharam espaço na proposta revisada. O plano prevê um acordo coletivo para preservar o emprego da maior parte do quadro atual, uma rede de proteção de dez anos para funcionários veteranos, condições adicionais para desligamentos voluntários e o compromisso de evitar demissões até o fim de 2027. Hapag-Lloyd e FIMI também prometem investir na formação e contratação de marítimos israelenses, com o objetivo de recuperar parte da mão de obra especializada perdida pelo setor nos últimos anos.
No entanto, as mudanças ainda não encerraram a resistência. Ao The Times of Israel, o dirigente sindical Oren Caspi argumentou que as novas garantias não resolvem uma das principais preocupações dos trabalhadores: a quantidade de embarcações que permaneceria efetivamente sob controle israelense. Segundo ele, cerca de 98% das importações do país chegam por via marítima, incluindo alimentos e medicamentos, o que torna a disponibilidade de navios especialmente relevante durante crises. A proposta anterior previa uma operação israelense com uma frota de 12 a 16 embarcações.
Do lado da Hapag-Lloyd, a aquisição também é defendida pelo ganho de escala. Segundo o Container News, a combinação das operações poderia gerar entre US$ 300 milhões e US$ 500 milhões em sinergias anuais. Juntas, as empresas operariam mais de 400 navios, reuniriam capacidade superior a 3 milhões de TEU e transportariam mais de 18 milhões de TEU por ano.
Hapag-Lloyd e FIMI devem apresentar em até 45 dias a documentação completa do plano de negócios e da estrutura jurídica da proposta revisada. A previsão inicial era concluir a aquisição até o fim de 2026, mas a análise das novas condições pode estender o processo, cujo prazo permite prorrogação até meados de 2027. Até lá, o futuro da ZIM permanece no centro de uma negociação que vai além do valor da companhia e coloca em discussão até que ponto Israel aceita transferir parte de sua estrutura de transporte marítimo a um grupo estrangeiro.
FUP Explica
O que está em jogo aqui não é só uma transação bilionária entre duas empresas de navegação: é uma disputa sobre soberania logística. Israel trata a ZIM como ativo de segurança nacional, e com razão do ponto de vista prático, já que, segundo o próprio dirigente sindical citado no texto, cerca de 98% das importações do país chegam por mar. Transferir o controle operacional de uma armadora desse porte para um grupo alemão, mesmo com salvaguardas contratuais, cria uma dependência que o governo israelense claramente não quer assumir sem garantias robustas.
A reformulação da proposta mostra que a Hapag-Lloyd entendeu o problema político, mas ainda não o resolveu. Criar a ZIM Israel como entidade separada, com frota própria e TI independente, é uma concessão relevante. Mesmo assim, o sindicato aponta o ponto fraco: o que importa não é a estrutura jurídica, mas quantos navios ficam fisicamente disponíveis sob comando israelense numa crise. Esse é um debate que nenhuma cláusula contratual resolve sozinha, porque depende de como a operação vai funcionar na prática, não no papel.
No plano econômico, os números que a Hapag-Lloyd projeta para convencer Israel (US$ 1,7 bilhão em receita adicional e US$ 200 milhões em lucro líquido ao longo de dez anos) são estimativas dos próprios compradores, o que reduz seu peso como argumento neutro. As sinergias de US$ 300 milhões a US$ 500 milhões anuais, por outro lado, são o motivo real pelo qual a Hapag-Lloyd quer o negócio: com mais de 400 navios e capacidade acima de 3 milhões de TEU, a empresa consolidada saltaria de patamar no setor de navegação de contêineres. O prazo que se abre até meados de 2027 para fechar o negócio dá fôlego à negociação, mas também prolonga a incerteza sobre o futuro da ZIM como empresa independente.




