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Gargalos no transporte e no refino mantêm petróleo acima de US$ 100
Fretes elevados, danos a refinarias e restrições chinesas à venda de combustíveis limitam o alívio das cotações e podem pressionar custos no Brasil
Os produtores do Golfo voltaram a escoar mais petróleo pelo Estreito de Ormuz nas últimas semanas, recuperando parte das exportações interrompidas pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. A retomada, porém, chega ao início de outubro sem uma queda equivalente nas cotações: o Brent permanece acima de US$ 100 por barril, pois fretes elevados, seguros mais caros e perdas na capacidade de refino dificultam a entrega de combustíveis aos consumidores.
Segundo dados da Kpler apresentados pelo colunista de energia Ron Bousso, da Reuters, o fluxo pelo estreito alcançou 14,2 milhões de barris diários na média de sete dias encerrada em 26 de setembro, quase 80% do patamar anterior ao conflito. Mesmo com essa recuperação, o Brent segue mais de 40% acima do preço registrado antes da guerra.
O aumento das exportações reduziu o desequilíbrio entre oferta e demanda. A consultoria Energy Aspects estima que o déficit mundial caiu de aproximadamente 4 milhões de barris por dia, no auge das interrupções em maio, para cerca de 1,6 milhão. A ameaça de novos ataques, entretanto, mantém um prêmio de risco nas cotações, enquanto os gargalos logísticos limitam o efeito dessa melhora.
Uma das maiores pressões vem do transporte marítimo. Operadores utilizam várias embarcações para levar petróleo através de Ormuz até o Golfo de Omã, onde cargas são transferidas para navios menores antes de seguir à Ásia. Esse sistema ocupa grandes petroleiros e reduz sua disponibilidade em outras rotas. Ao mesmo tempo, compradores asiáticos buscam petróleo na Bacia do Atlântico, em viagens mais longas que mantêm os navios ocupados por mais tempo.
Segundo a corretora Poten & Partners, as tarifas para transportar petróleo do Oriente Médio à Ásia em grandes petroleiros, conhecidos pela sigla VLCC, superaram recentemente US$ 1,2 milhão por dia, ante cerca de US$ 30 mil em janeiro. O frete passou de aproximadamente 3% para 27% do preço do barril entregue ao comprador.
O refino acrescenta outro obstáculo. Como explica o Modern Diplomacy, interrupções no Oriente Médio e ataques de drones ucranianos contra refinarias russas reduziram a capacidade de transformar petróleo em combustíveis, especialmente diesel. Refinadores também disputam tipos de petróleo capazes de gerar proporções maiores desse produto, muitos deles provenientes das regiões afetadas.
A esse cenário se soma a suspensão de exportações de combustíveis por refinarias chinesas em outubro. Conforme quatro fontes ouvidas em reportagem publicada em 1º de outubro e atualizada no dia seguinte, Pequim iniciou o feriado de uma semana sem autorizar embarques para destinos além de Hong Kong e Macau. Naquele momento, não estava claro se as permissões seriam retomadas após 7 de outubro.
A PetroChina cancelou alguns embarques de gasolina e combustível de aviação, enquanto a Zhejiang Petrochemical não programou exportações durante o feriado. A prioridade é preservar o abastecimento doméstico: segundo a Kpler, os estoques comerciais chineses de gasóleo e diesel estavam cerca de 20 milhões de barris abaixo do nível anterior à guerra; os de gasolina, aproximadamente 9 milhões abaixo.
Para o Brasil, a pressão internacional importa porque parte do abastecimento de diesel depende de compras externas. A Empresa de Pesquisa Energética aponta que o país deve continuar dependente dessas importações nos próximos anos e destaca o peso do combustível no transporte rodoviário.
Nesse contexto, a menor oferta chinesa pode intensificar a disputa por fornecedores alternativos e encarecer cargas destinadas ao mercado brasileiro. Caso os custos sejam repassados, transportadoras e produtores rurais podem enfrentar despesas maiores, com possíveis efeitos sobre fretes, escoamento de safras e preços de mercadorias.
A transmissão aos preços internos, contudo, não é automática. A Petrobras afirma que sua estratégia comercial busca evitar o repasse imediato das oscilações conjunturais das cotações internacionais e do câmbio. Enquanto isso, a liberação de diesel das reservas estratégicas pelo G7 pode oferecer alívio temporário ao mercado, mas não recupera refinarias danificadas nem resolve os entraves no transporte.
FUP Explica
O que este cenário mostra é que a crise do petróleo não é mais só uma questão de oferta física: mesmo quando os barris voltam a circular, o custo de movê-los e processá-los virou um problema autônomo. O frete de um VLCC saindo do Oriente Médio para a Ásia passou de US$ 30 mil para mais de US$ 1,2 milhão por dia, segundo a Poten & Partners, e isso significa que o preço do petróleo no porto de destino pode ser completamente diferente do preço na cotação do Brent. Quem compra petróleo ou derivados no mercado internacional está pagando por essa distorção logística, não apenas pelo barril em si.
No lado do refino, o problema é estrutural no curto prazo: refinaria danificada não volta a operar da noite para o dia, e a escassez de diesel pressiona setores que dependem dele para funcionar, como transporte de cargas, agricultura e indústria. A liberação de reservas pelo G7 pode amortecer o choque pontualmente, mas não substitui capacidade instalada. Enquanto isso, a disputa por tipos específicos de petróleo que rendem mais diesel concentra a demanda justamente nas regiões mais afetadas pelo conflito, criando um ciclo que sustenta os preços mesmo quando o volume exportado cresce.
Politicamente, o episódio do oleoduto Leste-Oeste saudita atacado por milícias iraquianas em setembro mostra que a vulnerabilidade das rotas vai além do Estreito de Ormuz. Qualquer nova interrupção, em qualquer ponto da cadeia, tem potencial de reverter rapidamente os ganhos de recuperação que levaram semanas para se consolidar. Para economias que dependem de energia importada, esse ambiente de risco elevado e custo de transporte fora do padrão histórico tende a se traduzir em pressão inflacionária persistente, especialmente nos combustíveis e nos alimentos que dependem do diesel para chegar ao consumidor.
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