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Fretes marítimos seguem pressionados no Pacífico enquanto preços recuam entre Ásia e Europa
Congestionamentos portuários, cancelamentos de viagens e controle de capacidade sustentam valores elevados para os Estados Unidos, enquanto maior oferta de navios pressiona a rota europeia
O transporte marítimo de contêineres entrou em outubro com movimentos distintos nas principais rotas que partem da Ásia. Enquanto os fretes transpacíficos seguem elevados em meio a congestionamentos portuários, cancelamentos de viagens e controle de capacidade pelas companhias marítimas, os preços entre Ásia e Europa continuam em queda. O cenário coincide com a Semana Dourada chinesa e com a prorrogação da trégua comercial entre Estados Unidos e China, fatores que podem voltar a alterar o equilíbrio entre oferta e demanda nas próximas semanas.
Segundo a FreightWave*, com base em dados da Freightos, os preços spot da Ásia para a Costa Oeste dos Estados Unidos chegaram a US$ 8,4 mil por contêiner de 40 pés, enquanto os valores para a Costa Leste ficaram em cerca de US$ 9,6 mil.
Outro indicador, o Drewry World Container Index (WCI), também aponta preços elevados no mercado transpacífico: o trecho Xangai–Nova York subiu 1%, para US$ 10.428, enquanto Xangai–Los Angeles permaneceu em US$ 7.835.
A manutenção dos preços ocorre mesmo diante da expectativa de redução da demanda após o período tradicional de pico e durante o feriado chinês. Dados da Freightos citados pela FreightWaves indicam que esse comportamento está relacionado não apenas à procura por transporte, mas também aos blank sailings, aos atrasos nos portos e ao controle da oferta pelas companhias marítimas.
No índice da Drewry, porém, o comportamento das rotas transpacíficas contrasta com a tendência geral do mercado. Conforme o PortalPortuario, o WCI recuou 1% na última semana, para US$ 4.434 por contêiner de 40 pés, queda atribuída principalmente à redução dos preços entre Ásia e Europa.
A pressão sobre a oferta também vem dos congestionamentos. A Sea-Intelligence estima que os atrasos portuários estejam absorvendo mais de 8% da capacidade mundial de navios e que a normalização completa possa levar até dez meses. Paralelamente, os custos de combustível permanecem pressionados pelas restrições associadas ao Estreito de Ormuz. Esses fatores podem sustentar os fretes mesmo em períodos de menor demanda e abrir espaço para novas altas caso as reservas cresçam antes do Ano-Novo Lunar.
Na rota entre Ásia e Europa, por outro lado, os preços seguem em trajetória de queda. Dados da Drewry divulgados pelo PortalPortuario mostram que o frete entre Xangai e Gênova recuou 3%, para US$ 3.702 por contêiner de 40 pés, enquanto Xangai–Roterdã caiu 2%, para US$ 3.399. O corredor acumula 12 semanas consecutivas de baixa, em meio à demanda mais fraca e ao aumento da capacidade disponível.
O maior número de embarcações voltando a utilizar o Canal de Suez também adiciona capacidade à rota e pressiona os preços. Na semana 39, o trânsito pelo canal ficou 68% acima do registrado no mesmo período do ano anterior. Ainda assim, as incertezas relacionadas aos ataques houthis e às interrupções no Estreito de Ormuz continuam afetando as operações marítimas.
Outro elemento que pode influenciar os fretes é a relação comercial entre Washington e Pequim. Estados Unidos e China estenderam por dois meses a atual trégua comercial, que terminaria em 10 de novembro. O acordo prevê redução de tarifas sobre determinados produtos e afasta temporariamente o risco de uma nova escalada comercial antes do ciclo de compras de fim de ano. Segundo análise da Freightos publicada pela FreightWaves, a distensão também torna mais provável o adiamento das taxas portuárias americanas previstas para navios ligados à China, embora uma decisão formal ainda não tivesse sido anunciada.
Enquanto isso, as condições do Canal do Panamá oferecem algum alívio para cargas asiáticas destinadas à Costa Leste dos Estados Unidos. Com a recuperação das chuvas e dos níveis de água, a Autoridade do Canal pretende restabelecer dez trânsitos diários de navios Neopanamax e elevar para 49 pés o calado máximo autorizado em meados de outubro. A melhora reduz o risco imediato de desvios e atrasos, mas pode ser temporária caso o El Niño diminua as chuvas durante os próximos meses.
Com forças atuando em direções diferentes, o mercado entra no último trimestre sem uma tendência única para os principais corredores marítimos. A Semana Dourada tende a reduzir temporariamente os volumes chineses, e a Drewry prevê novas quedas nos preços no curto prazo. Por outro lado, congestionamentos, cancelamentos de viagens, tensões geopolíticas e uma possível retomada da demanda americana após o feriado mantêm os fretes transpacíficos sob pressão e podem provocar novos movimentos antes do fim do ano.
FUP Explica
O mercado de fretes marítimos está operando em dois regimes simultâneos, e isso importa porque cada rota afeta cadeias de abastecimento diferentes. No Pacífico, os preços elevados encarecem as importações americanas de produtos asiáticos, o que pode alimentar pressão inflacionária nos Estados Unidos e reduzir margens de importadores que não conseguem repassar o custo. Para exportadores brasileiros que competem com produtos asiáticos no mercado americano, fretes mais caros para o concorrente podem, em tese, equilibrar um pouco o campo, mas o efeito depende do setor e do produto específico, e o texto não detalha isso.
Na rota Ásia-Europa, a queda de 12 semanas seguidas sinaliza demanda fraca no continente europeu, o que é um sinal de alerta econômico mais amplo. Mais oferta de navios voltando pelo Canal de Suez ajuda a baixar os preços, mas a volatilidade geopolítica associada aos ataques houthis e ao Estreito de Ormuz pode reverter esse movimento rapidamente. Quem planeja contratos de frete de médio prazo nessa rota enfrenta incerteza real sobre se o patamar atual vai se sustentar.
A extensão da trégua comercial EUA-China por dois meses adiciona uma variável política relevante: ela adia a decisão sobre as taxas portuárias para navios ligados à China, o que interessa diretamente a armadores e operadores de comex que usam essas rotas. Se as taxas forem implementadas depois do prazo, o custo operacional pode subir de forma abrupta, e quem não tiver isso no radar vai ser pego de surpresa. O Canal do Panamá, por sua vez, oferece alívio pontual, mas a dependência das chuvas torna qualquer previsão de capacidade frágil para o médio prazo.




