
Fim da taxa das blusinhas faz Brasil bater recorde de importação
O fim da taxa das blusinhas impulsionou as importações de pequeno valor a um recorde histórico no Brasil. Em junho de 2026, as compras internacionais registradas no Programa Remessa Conforme da Receita Federal totalizaram entre R$ 2,6 bilhões e R$ 2,9 bilhões — dependendo da fonte —, com cerca de 28 milhões de encomendas processadas no mês. O volume representa crescimento de 107% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registradas 13 milhões de remessas.
O impacto direto do fim da taxa das blusinhas
A extinção do tributo foi formalizada pela Medida Provisória nº 1.357. A medida zerou o Imposto de Importação de 20% que incidia sobre compras internacionais de até US$ 50 realizadas em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress. Esse imposto havia sido criado em agosto de 2024, no âmbito do Programa Mover, com o argumento de garantir isonomia competitiva com o varejo nacional.
O efeito sobre o volume de importações foi imediato. Em maio de 2026, primeiro mês após a extinção do tributo, o volume subiu cerca de 30% em relação a abril. Em junho, a alta foi de aproximadamente 37% frente ao mês anterior. No acumulado dos dois primeiros meses após o fim da taxa, o crescimento chegou a 85%.
Como ficou a tributação após a MP
A extinção do imposto federal não significa isenção total — ponto que gera confusão entre consumidores. O ICMS estadual, que varia entre 17% e 20%, continua sendo cobrado em todas as faixas de valor. Para compras entre US$ 50,01 e US$ 3.000, o Imposto de Importação federal segue em 60%, com dedução fixa de US$ 30. O Congresso Nacional prorrogou a vigência da MP até setembro de 2026, mantendo esse cenário por ora.
As operações continuam dentro do ambiente regulado do Remessa Conforme, programa criado em 2023 que certifica plataformas internacionais comprometidas com regras de conformidade fiscal. As empresas participantes são obrigadas a informar ao consumidor que o item é importado, detalhar todos os tributos incidentes e recolher os impostos no momento da compra — mecanismo que permite à Receita Federal processar 100% dos pacotes que chegam ao país.
Pressão sobre o varejo e a indústria nacional
O avanço das importações acende um alerta para o varejo brasileiro. Relatório do Citi, obtido pelo Valor Econômico, aponta que empresas como Renner, C&A e Marisa estão entre as mais expostas ao aumento da concorrência. Segundo o banco, as ações dessas companhias negociam com desconto relevante — Renner a cerca de 8 vezes a relação preço/lucro projetado para 2027 e C&A a cerca de 6 vezes o mesmo indicador.
No campo industrial, a Fiesp solicitou formalmente à presidência do Congresso a devolução da MP, argumentando que a medida gera concorrência desleal e destrói empregos no Brasil. Entidades do setor privado também publicaram manifesto conjunto, resumindo a reivindicação na frase: "Se baixar para estrangeiro, tem que baixar para brasileiro."
O debate, portanto, vai além do volume de encomendas. Ele envolve a estrutura de custos que separa empresas instaladas no Brasil — sujeitas à legislação tributária, trabalhista, ambiental e de defesa do consumidor — das plataformas internacionais que operam com menor carga regulatória. Com a MP vigente até setembro e o Congresso ainda sem posição definitiva sobre o tema, o cenário permanece em aberto.
FUP Explica
O recorde de junho não é apenas um dado estatístico — ele sinaliza uma mudança estrutural no fluxo de importações de baixo valor que pode ter efeitos duradouros. O crescimento de 107% ano a ano em encomendas via Remessa Conforme indica que a demanda reprimida era significativa e que a extinção do tributo destravou um volume que o mercado já estava preparado para absorver.
O ponto de atenção mais imediato, no entanto, é a incerteza regulatória. A MP vigente só garante o cenário atual até setembro de 2026, e o Congresso ainda não sinalizou uma posição definitiva. Isso significa que qualquer planejamento de médio prazo — seja de plataformas internacionais ampliando operações no Brasil, seja de varejistas nacionais ajustando estratégia de preços — está sujeito a reversão.





