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Fed pode elevar juros pela primeira vez em três anos nesta quarta-feira
O Federal Reserve (Fed) decide nesta quarta-feira (16) o novo patamar dos juros dos Estados Unidos, com o mercado esperando uma elevação de 0,25 ponto percentual, para a faixa entre 3,75% e 4% ao ano. Caso seja confirmada, será a primeira alta em três anos. A expectativa ganhou força diante da persistência da inflação e da disparada do petróleo, enquanto o presidente Donald Trump pressiona publicamente por juros mais baixos.
A elevação não está garantida, mas passou a ser o cenário predominante entre investidores e analistas. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, afirmou ao Money Times que a probabilidade atribuída ao movimento passou de cerca de 60% para perto de 90% nos últimos dias. Dados do mercado futuro citados pela Associated Press também apontavam probabilidade de 90% para uma alta.
A mudança nas projeções ocorreu após dados de inflação mais resistentes e declarações mais duras do presidente do Fed, Kevin Warsh. O índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos, o CPI, avançou 0,4% em agosto, enquanto o núcleo, que exclui itens mais voláteis, subiu 0,3%.
A disparada do petróleo acrescentou pressão ao cenário inflacionário. A referência internacional no mercado atacadista ultrapassou US$ 109 por barril, ante cerca de US$ 86 no fim de agosto, em meio ao aumento das tensões no Oriente Médio. O avanço da commodity aumenta as preocupações com a persistência da inflação, que permanece acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve.
O mercado de trabalho, por outro lado, continua mostrando resistência. Os Estados Unidos criaram 162 mil vagas em agosto, enquanto a taxa de desemprego permaneceu em 4,1%. O BTG Pactual classificou o mercado de trabalho como “saudável” e avaliou que os números oferecem pouca evidência da necessidade de manter a atual acomodação monetária.
Kevin Warsh, que assumiu a presidência do Federal Reserve em maio, chega à reunião após endurecer o discurso contra a inflação durante a conferência anual do banco central em Jackson Hole.
Para o BTG Pactual, o discurso reduziu a resistência a uma elevação dos juros em setembro e deixou pouco espaço para uma nova manutenção caso os dados econômicos confirmassem o cenário esperado. O banco avalia que uma alta após as declarações de Warsh reforçaria a credibilidade do compromisso do Fed com o controle da inflação.
A decisão, entretanto, pode não ser unânime. Andressa Durão, economista do ASA, afirmou ao Money Times que espera pelo menos um voto divergente favorável à manutenção dos juros.
As expectativas de inflação e juros também pressionaram o mercado de títulos públicos americanos. O rendimento dos Treasuries de dez anos chegou a 5,04%, maior nível desde 2007, antes de recuar. O governo dos Estados Unidos realizou recompras de títulos em uma tentativa de reduzir os rendimentos. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, classificou a intervenção como bem-sucedida, embora os custos de financiamento permaneçam elevados.
Carol Schleif, estrategista-chefe de mercado da BMO Wealth Management, avaliou que o mercado de títulos vinha sinalizando havia semanas a possibilidade de necessidade de juros mais altos.
A expectativa de aumento contrasta com a posição do presidente Donald Trump, que defende juros mais baixos. No domingo anterior à decisão, Trump afirmou que os Estados Unidos são fortes o suficiente para pagar a menor taxa de juros do mundo. Kevin Hassett, principal conselheiro econômico do presidente, afirmou que Trump respeita a independência de Kevin Warsh. Hassett, porém, também demonstrou preocupação com uma eventual elevação dos juros tão próxima das eleições de meio de mandato.
A reunião ocorre sete semanas antes das eleições legislativas americanas, em um cenário no qual inflação e custo de vida ocupam espaço no debate público.
Com uma alta de 0,25 ponto percentual já incorporada às expectativas de grande parte do mercado, a atenção dos investidores também estará voltada ao dot plot, gráfico que reúne as projeções dos integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) para a trajetória dos juros.
O BTG Pactual espera que o documento indique duas elevações de 0,25 ponto percentual em 2026, incluindo a de setembro, levando a mediana das projeções para perto de 4,1%. O banco também projeta revisão para cima da estimativa dos juros de longo prazo. O ASA também espera aumento acumulado de 0,50 ponto percentual neste ano, dividido em duas altas de 0,25 ponto, mas projeta estabilidade dos juros em 2027.
As duas instituições esperam que Warsh mantenha um discurso firme contra a inflação após a decisão. O conteúdo do comunicado e da entrevista do presidente do Fed deverá ser acompanhado pelo mercado em busca de indicações sobre a duração e a intensidade de um eventual ciclo de alta dos juros.
FUP Explica
A alta dos juros do Fed, se confirmada, representa uma virada relevante no ciclo monetário americano, com efeitos em cadeia que vão além das fronteiras dos EUA. O ponto mais imediato é o câmbio: juros mais altos nos EUA tendem a fortalecer o dólar frente a moedas emergentes, e o real costuma ser pressionado de forma desproporcional em momentos de aversão ao risco. Para importadores brasileiros, isso significa custo maior em reais; para exportadores, a conversão das receitas em dólar melhora, mas o efeito líquido depende de como o mercado absorve o movimento.
No financiamento internacional, a alta também pesa. Linhas como ACC e ACE, além de créditos de fornecedores no exterior, são referenciadas em taxas americanas, o que encarece o custo de capital para operações de comércio exterior. Com o rendimento do Tesouro de 10 anos já em 5,04%, o nível mais alto desde 2007, esse custo já está se materializando antes mesmo da decisão formal do FOMC.
O cenário político adiciona uma camada de incerteza que o mercado está precificando via prêmio de risco. Se Warsh ceder à pressão de Trump e sinalizar pausa após setembro, a credibilidade do Fed entra em xeque, o que tende a manter os rendimentos longos elevados mesmo sem novas altas formais. Por outro lado, se o dot plot confirmar mais uma alta até dezembro, como esperam BTG e ASA, o ciclo de aperto se prolonga num momento em que a economia americana ainda mostra resiliência, o que reduz a probabilidade de um pouso suave e aumenta o risco de desaceleração mais abrupta à frente.




