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Bets podem ter tirado até R$ 141 bilhões da atividade econômica do Brasil em 2025
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Bets podem ter tirado até R$ 141 bilhões da atividade econômica do Brasil em 2025

16/09/2026·651 palavras
Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP aponta que apostas em plataformas de bets reduzem consumo e atividade econômica no Brasil. Análise de tendência setorial com impacto indireto no comportamento do consumidor.

As plataformas de apostas online retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, valor equivalente a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo estimativa do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP). O levantamento, divulgado em 15 de setembro de 2026 e noticiado pela Agência Brasil, analisou os efeitos das bets sobre o consumo, a atividade econômica, a arrecadação, o endividamento das famílias e a distribuição de renda no país.

Para dimensionar o impacto, os pesquisadores estimam que a perda corresponde a cerca de 40% a 50% de todo o crescimento da economia brasileira em 2025. O valor também é aproximadamente cinco vezes superior às estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro.

Mesmo quando considerados os empregos diretos e indiretos associados às plataformas de apostas, os pesquisadores afirmam que o resultado sofre pouca alteração.

O efeito também alcançaria as contas públicas. Segundo o estudo, a redução da atividade econômica resultaria em perda de arrecadação estimada entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. Descontados os cerca de R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com as plataformas de apostas, o efeito líquido sobre as contas públicas seria negativo em pelo menos R$ 22 bilhões e poderia chegar a R$ 46 bilhões.

De acordo com os pesquisadores, esse montante corresponde a algo entre 10% e 20% de todo o orçamento destinado à saúde pública em São Paulo em 2025. Os cálculos indicam que, embora as bets gerem arrecadação direta, essa receita não seria suficiente para compensar a perda fiscal estimada em decorrência da redução da atividade econômica.

A pesquisa também avaliou uma possível relação entre as apostas online e o endividamento das famílias. Os pesquisadores trabalharam com um cenário hipotético em que a transferência líquida de R$ 62,5 bilhões para as plataformas tivesse sido integralmente financiada por novo crédito.

Nesse cenário, classificado pelos próprios autores como uma hipótese extrema, o montante corresponderia a cerca de 14% do aumento do endividamento das famílias em 2025. O cálculo considera que o saldo de crédito para pessoas físicas cresceu aproximadamente R$ 450 bilhões no período.

A estimativa não significa que R$ 62,5 bilhões em novas dívidas tenham sido comprovadamente contraídos para financiar apostas. O cálculo dimensiona quanto esse montante representaria em relação ao crescimento do crédito às pessoas físicas caso toda a transferência líquida às plataformas tivesse sido financiada dessa forma.

O estudo também aponta um possível efeito negativo sobre a distribuição de renda. Considerando que o 1% mais rico da população concentra cerca de 24% de toda a renda do país, os pesquisadores estimam que a transferência de recursos das famílias para as plataformas poderia elevar a concentração de renda desse grupo entre 0,5% e 2,1%, dependendo de quem recebe os lucros das casas de apostas.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores consideraram diferentes cenários. No mais conservador, foram retirados R$ 62,5 bilhões da renda dos 99% restantes da população. Em outro cenário, o mesmo valor foi acrescentado à renda do 1% mais rico.

Mesmo na hipótese mais conservadora, os pesquisadores consideram o efeito significativo diante do nível de concentração de renda existente no Brasil.

A pesquisa do Made/FEA-USP conclui que os possíveis efeitos econômicos das apostas online não se restringem aos prejuízos individuais dos apostadores. Segundo os pesquisadores, a transferência de renda das famílias para as plataformas, principalmente entre as de menor renda, pode elevar a desigualdade, reduzir a demanda e afetar o PIB.

O estudo também aponta reflexos sobre a arrecadação e as contas públicas. Pelas estimativas apresentadas pelos pesquisadores e divulgadas pela Agência Brasil, a receita obtida diretamente com as plataformas de apostas não seria suficiente para compensar as perdas fiscais decorrentes da redução da atividade econômica.

Os valores analisados pelo estudo dizem respeito a 2025. As estimativas do Made/FEA-USP foram divulgadas em setembro de 2026.

FUP Explica

O estudo do Made/USP muda o nível do debate sobre as bets no Brasil. Até agora, a discussão girava em torno de danos individuais, saúde mental e comportamento do apostador. O que a pesquisa faz é mostrar que há um problema macroeconômico concreto: quando as famílias transferem renda para as plataformas e essa renda sai do circuito de consumo, a economia como um todo encolhe. Uma perda equivalente a até metade do crescimento do PIB em um único ano não é ruído estatístico, é sinal de que o fenômeno tem escala suficiente para aparecer nos agregados nacionais.

O ponto fiscal é o mais delicado para o governo. A narrativa de que as bets geram arrecadação e, portanto, são benéficas para as contas públicas fica bastante fragilizada quando o estudo mostra que a perda de receita decorrente da queda na atividade econômica supera em muito o que as plataformas recolhem diretamente. Num cenário em que o governo federal luta para cumprir a meta fiscal, um rombo líquido de até R$ 46 bilhões é argumento de peso para quem defende regulação mais dura ou restrição ao setor.

O recorte distributivo também pesa. O estudo sugere que as bets funcionam como um mecanismo de transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos, num país que já ocupa posição incômoda nos rankings de desigualdade. Isso tende a alimentar o debate político sobre o tema e pode dar mais tração a propostas de restrição à publicidade das plataformas, limites de depósito ou até proibição, como a que o governador Tarcísio de Freitas defendeu publicamente. A pesquisa, ao quantificar o impacto em termos de PIB e arrecadação, oferece munição técnica para esse campo do debate.

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