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EUA estudam o uso de embarcações autônomas na fronteira com o México
Pentágono avalia adicionar até 50 unidades à frota após testes no Rio Grande e considera levar tecnologia ao Golfo do México
Depois de meses utilizando pequenas embarcações autônomas para monitorar o Rio Grande, na fronteira entre Estados Unidos e México, o Pentágono estuda aumentar em até 50 unidades a frota desses equipamentos e levar a tecnologia também para o Golfo do México.
Os veículos de superfície não tripulados, capazes de permanecer em operação por meses e equipados com diferentes sensores, participam desde janeiro de uma operação voltada à identificação de travessias irregulares e rotas utilizadas pelo tráfico de drogas.
Atualmente, dez embarcações fazem parte dos testes, enquanto autoridades americanas avaliam como a tecnologia pode ser utilizada em trechos remotos da fronteira e reduzir a necessidade de empregar continuamente navios da Guarda Costeira e aeronaves tripuladas. Segundo a Reuters, a iniciativa também acompanha um movimento do Departamento de Defesa dos Estados Unidos em busca de sistemas autônomos mais baratos e capazes de realizar missões de vigilância durante longos períodos.
Entre as embarcações utilizadas está o Lightfish, desenvolvido pela Seasats, startup de San Diego. Com aproximadamente 3,3 metros de comprimento e 154 quilos, o veículo custa cerca de US$ 240 mil e utiliza painéis solares para gerar energia. O equipamento pode ser colocado na água a partir de uma rampa para barcos ou transportado na traseira de uma caminhonete e foi projetado para permanecer durante meses em operação, inclusive em condições marítimas adversas.
Para realizar a vigilância, o Lightfish transporta sensores eletro-ópticos, infravermelhos e sonares. As informações coletadas são transmitidas em tempo real para sistemas utilizados pelas autoridades americanas, entre eles o Maven Smart System, da Palantir Technologies, e a plataforma Fortress, da Anduril Industries. Dessa forma, unidades da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos e da Guarda Costeira podem receber alertas sobre movimentações identificadas pelas embarcações.
De acordo com dados apresentados pelo Pentágono, em um mês médio de operação os equipamentos auxiliaram em 452 detecções, 350 apreensões e 100 casos classificados como “turnbacks”, quando grupos desistem de tentar atravessar a fronteira depois de perceber que foram identificados. M. Roosevelt Ditlevson, secretário-assistente de Defesa para Defesa do Território Nacional e Assuntos de Segurança das Américas, afirmou que sistemas desse tipo podem oferecer uma alternativa de menor custo para manter a vigilância em áreas para onde traficantes têm deslocado suas operações.
A possibilidade de expansão não se limita ao Rio Grande. Caso os testes continuem apresentando resultados considerados positivos pelas autoridades, o número de Lightfish encomendados pode crescer em até 50 unidades. Parte das embarcações também poderá ser posicionada no Golfo do México, onde o governo americano estuda estabelecer uma faixa de monitoramento entre o Texas e Key West, na Flórida.
O avanço, porém, deverá ocorrer gradualmente. Ditlevson afirmou que o Departamento de Defesa pretende experimentar diferentes tecnologias e não está comprometido exclusivamente com um fabricante. Além da Seasats, empresas como Saronic, Saildrone e Splash desenvolvem embarcações não tripuladas voltadas a missões semelhantes.
A operação no Golfo do México também poderá funcionar como preparação para testes em condições mais severas no Oceano Pacífico, próximo a San Diego. O interesse das Forças Armadas americanas por sistemas não tripulados cresceu nos últimos anos, principalmente após o uso recorrente dessas tecnologias na guerra da Ucrânia demonstrar novas possibilidades para missões de vigilância e reconhecimento.
Para Mike Flanigan, CEO da Seasats, uma das principais diferenças das embarcações autônomas está justamente na capacidade de permanecer por longos períodos na mesma região. Enquanto aeronaves e navios convencionais conseguem percorrer distâncias maiores em menos tempo, dependem de combustível, tripulações e ciclos operacionais mais curtos. O Lightfish, por outro lado, desloca-se mais lentamente, mas pode continuar monitorando uma área durante meses.
A tecnologia já chamou atenção também em operações no Pacífico. Em julho, uma embarcação comercial Lightfish que navegava dentro da zona econômica exclusiva das Filipinas conseguiu se aproximar de um destróier de mísseis guiados da Marinha chinesa e registrar imagens detalhadas do navio. O episódio demonstrou como pequenas embarcações autônomas podem ser utilizadas para acompanhar e monitorar ativos militares de grande porte.
Agora, a experiência no Rio Grande deverá servir de referência para decidir até onde esse modelo de vigilância poderá avançar. Se a expansão for confirmada, as pequenas embarcações autônomas deixarão de atuar apenas no projeto-piloto da fronteira para ocupar também áreas costeiras dos Estados Unidos e, posteriormente, enfrentar uma nova etapa de testes no Pacífico.
FUP Explica
O que chama atenção nessa notícia não é só a tecnologia em si, mas o que ela representa como mudança de modelo operacional. O Pentágono está testando uma lógica de vigilância contínua e barata no lugar da presença episódica e cara de navios e aeronaves tripulados. Se os números que o próprio Departamento de Defesa apresentou se sustentarem, mais de 400 detecções por mês com drones que custam US$ 240 mil cada é uma equação que tende a pressionar outros países a repensar seus próprios modelos de patrulha de fronteira e litoral.
Do ponto de vista político, o programa está diretamente ligado à agenda de controle de imigração e combate ao narcotráfico, dois temas centrais na disputa interna americana. A decisão de não se prender a um único fornecedor, mencionada por Ditlevson, também tem leitura industrial: o governo sinaliza que quer criar um mercado competitivo entre empresas como Seasats, Saronic, Saildrone e Splash, o que pode acelerar o desenvolvimento do setor e reduzir custos ao longo do tempo.
O episódio nas Filipinas, em que um Lightfish comercial se aproximou de um destróier chinês e registrou imagens detalhadas, abre uma dimensão que vai além da fronteira terrestre. Ele mostra que plataformas baratas e persistentes podem ser usadas para monitorar ativos militares de potências rivais, o que tende a gerar reação diplomática e possivelmente novas disputas sobre o uso de drones autônomos em zonas econômicas exclusivas. Esse desdobramento ainda não está regulado de forma clara pelo direito internacional, e o uso crescente dessas embarcações deve pressionar por definições que hoje não existem.




