
Imagem: reprodução insta @dronecubatao
Após seis anos de impasses, Srakane começa a ser desmontado no Porto de Santos
Embarcação acumulou duas crises com tripulantes estrangeiros, salários atrasados, abandono e problemas de segurança antes de chegar à etapa de desmonte
Depois de seis anos marcados por pedidos de socorro de tripulantes, falta de água e alimentos, salários atrasados, ações judiciais e problemas de segurança da navegação, o Srakane começou a ser desmontado no Porto de Santos. O cargueiro de bandeira panamenha, que chegou ao litoral de São Paulo em 2020 e está sem condições de navegar, entra agora em uma nova etapa de uma história que mobilizou autoridades marítimas, trabalhistas e portuárias. A desmontagem já vinha sendo discutida desde 2024, quando documentos da Autoridade Portuária de Santos (APS) registraram que a embarcação não voltaria a ser utilizada pelo proprietário e cobraram um cronograma para o serviço.
A trajetória do Srakane no Brasil começou com problemas antes mesmo de sua chegada ao Porto de Santos. Em junho de 2020, enquanto estava fundeado próximo ao Porto de São Sebastião, no litoral norte paulista, a Inspeção do Trabalho recebeu um pedido de socorro informando que as provisões haviam acabado havia cinco dias.
A bordo estavam 16 trabalhadores da Ucrânia, Croácia e Montenegro, que também enfrentavam meses de salários atrasados. Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Marinha levou mantimentos após encontrar uma situação de completa escassez de água e comida. Uma força-tarefa permitiu posteriormente o pagamento dos valores pendentes e a repatriação dos trabalhadores.
O caso, no entanto, ganhou um novo capítulo no Porto de Santos. O Srakane chegou à Baixada Santista em outubro de 2020 e permaneceu nas proximidades de um estaleiro na Margem Esquerda, em Guarujá. Meses depois, em abril de 2021, uma fiscalização encontrou outra tripulação, formada por 15 trabalhadores da Ucrânia, Montenegro e Geórgia, novamente em situação de abandono. Eles estavam sem água potável e alimentos, enquanto a embarcação permanecia sem combustível e com o sistema de esgoto saturado. Também havia problemas de segurança, higiene e pagamento de salários.
Diante da situação, o MPT ajuizou uma ação civil pública contra as empresas Argo, Seachios e CBA para cobrar os salários atrasados, garantir assistência médica e viabilizar a repatriação dos trabalhadores. À época, auditores fiscais calcularam que o montante devido chegava a US$ 111 mil. A seguradora do navio pagou o equivalente a quatro meses de salários, enquanto a Justiça do Trabalho determinou o desembarque e o retorno dos tripulantes aos países de origem. Os 15 trabalhadores foram repatriados entre o fim de julho e o início de agosto de 2021.
A disputa trabalhista continuou mesmo depois da saída da tripulação. Em agosto de 2022, a 1ª Vara do Trabalho de Guarujá condenou a C.B.A Exportação de Produtos Agrícolas, responsável pelo fretamento do Srakane, a pagar as diferenças salariais restantes aos 15 trabalhadores. O valor foi estimado em outros US$ 87 mil. A decisão afastou a responsabilidade dos agentes marítimos Argo e Seachios, por entender que atuavam como mandatários no caso.
Enquanto a questão trabalhista avançava na Justiça, o navio permaneceu parado. Sem tripulação e sem condições de navegabilidade, o Srakane se deteriorou ao longo dos anos e passou a gerar também preocupação com a segurança do canal. Em 2024, a situação das amarras levou as autoridades a discutir sua retirada do local, enquanto a APS registrava que ainda não havia sido apresentado um cronograma para a desmontagem. O documento já indicava que o proprietário não pretendia voltar a utilizar a embarcação devido ao estado em que se encontrava.
A retirada daquele ponto só ocorreu em fevereiro de 2025. O Srakane foi transferido da área próxima ao estaleiro da Wilson Sons, na Margem Esquerda, para uma região próxima à Base Aérea de Santos, no interior do canal aquaviário. Segundo a Capitania dos Portos de São Paulo, as condições de amarração haviam atingido elevado grau de desgaste, tornando iminente o risco de ruptura das estruturas que mantinham o casco preso. A operação foi realizada por uma empresa especializada em salvamento marítimo após o cumprimento das exigências de segurança.
A mudança resolveu o risco imediato provocado pela permanência do casco naquele ponto. Em 2025, o Ministério Público Federal registrou que a transferência havia levado o Srakane para um local considerado seguro e adequado dentro do complexo portuário, permitindo o arquivamento de um inquérito que investigava riscos à navegação e ao meio ambiente.
Agora, com o início do desmonte, o Srakane chega a mais um capítulo de uma trajetória que começou com trabalhadores pedindo socorro no litoral paulista e atravessou duas crises envolvendo tripulações estrangeiras, processos trabalhistas, anos de abandono e intervenções para preservar a segurança do Porto de Santos. Uma destinação que já aparecia nos documentos oficiais desde 2024 começa, enfim, a sair do papel.
FUP Explica
O caso do Srakane expõe uma lacuna institucional séria: o Brasil não tem um mecanismo ágil para lidar com embarcações abandonadas em águas sob sua jurisdição. O navio ficou seis anos parado no complexo de Santos porque nenhum órgão tinha competência clara para forçar o desmonte sem que o proprietário tomasse a iniciativa, e o proprietário simplesmente não tomou. O resultado foi uma sequência de crises gerenciadas uma a uma, cada qual com sua força-tarefa própria, sem que o problema de fundo, o que fazer com o casco, fosse resolvido.
No plano trabalhista, o caso mostra como tripulantes estrangeiros em situação de abandono dependem quase inteiramente da atuação do MPT e da Justiça do Trabalho para receber o que lhes é devido. O processo levou mais de um ano entre a fiscalização de abril de 2021 e a condenação de agosto de 2022, e a execução dos valores pode ter se arrastado além disso. Para trabalhadores que haviam sido repatriados, cobrar a diferença salarial de outro país é um obstáculo prático considerável.
Para o Porto de Santos, o encerramento desse capítulo reduz um risco concreto de segurança da navegação que durou anos. O arquivamento do inquérito do MPF em 2025 indica que a transferência do casco foi suficiente para afastar o perigo imediato, mas o desmonte em si é o desfecho definitivo. O episódio tende a reforçar a pressão por normas mais claras sobre o destino de embarcações sem condições de navegar que permanecem em áreas portuárias brasileiras, tema que a APS havia colocado na mesa em 2024 ao cobrar um cronograma que demorou para se concretizar.




