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EUA encerram missão militar no Iraque após mais de duas décadas de presença no país
Saída transfere às forças iraquianas a responsabilidade pela segurança em meio ao risco de reorganização do Estado Islâmico, fortalecimento de grupos ligados ao Irã e negociações para reabrir o Estreito de Ormuz
Mais de duas décadas depois de invadir o Iraque e derrubar Saddam Hussein, os Estados Unidos encerraram nesta quarta-feira (30) sua missão militar no país e retiraram as forças que ainda permaneciam em bases iraquianas. A saída, acertada em 2024 durante o governo de Joe Biden e concluída pela administração de Donald Trump, coloca as forças locais à frente da segurança nacional em um momento de tensão no Oriente Médio, com autoridades e especialistas preocupados tanto com uma possível reorganização do Estado Islâmico quanto com o fortalecimento de grupos armados apoiados pelo Irã.
O Pentágono declarou formalmente encerrada a Operação Inherent Resolve, iniciada em 2014 para combater o Estado Islâmico, embora Washington e seus parceiros devam continuar oferecendo treinamento direcionado e apoio de inteligência às forças iraquianas. Segundo o The Guardian, o governo americano considera que a missão cumpriu seu objetivo de derrotar o grupo como força territorial no Iraque. A responsabilidade de conter seus remanescentes e enfrentar outros desafios internos, porém, passa principalmente ao governo iraquiano.
A retirada encerra mais um capítulo da presença militar americana iniciada em 2003, quando uma coalizão liderada pelos Estados Unidos invadiu o Iraque e derrubou Saddam Hussein. As tropas deixaram o país no fim de 2011, mas retornaram menos de três anos depois, quando o Estado Islâmico conquistou extensas áreas do território iraquiano, incluindo Mosul. No auge, o grupo chegou a controlar cerca de um terço do país, antes de perder seu domínio territorial após uma ofensiva das forças locais apoiada pela coalizão internacional.
Apesar da derrota do chamado califado, células do Estado Islâmico continuam presentes no território. Conforme reportagem da Reuters reproduzida pelo Investing.com, militares americanos forneciam informações de inteligência, vigilância aérea e reconhecimento às forças iraquianas. Autoridades de segurança ouvidas pela agência avaliam que a retirada pode criar condições para que integrantes do grupo tentem se reorganizar, especialmente caso as instituições locais não consigam substituir parte dessas capacidades.
A presença de grupos armados ligados ao Irã também está entre as preocupações para o período posterior à retirada. Teerã e seus aliados receberam a saída americana como uma vitória de seu chamado “eixo de resistência”, enquanto analistas iraquianos alertam que organizações apoiadas pelo governo iraniano podem buscar maior influência sobre instituições e decisões políticas do país. O movimento ocorre ainda durante o conflito entre Estados Unidos e Irã, no qual sete dos 18 militares americanos mortos neste ano estavam no Iraque.
Ao mesmo tempo, Washington e Teerã mantêm aberta uma frente diplomática que pode ter efeitos sobre outra área sensível do Oriente Médio: o Estreito de Ormuz. De acordo com a Reuters, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, recebeu, por intermédio de mediadores do Catar, uma resposta americana à proposta iraniana de estabelecer um período de sete dias para reconstruir a confiança entre os dois países.
O principal impasse está na sequência em que as medidas seriam adotadas, e não necessariamente no conteúdo da proposta. O documento prevê um período de construção de confiança para tentar levar as partes de volta a uma versão reforçada do memorando de entendimento firmado em junho, que produziu um breve cessar-fogo e incluiu compromissos relacionados ao programa nuclear iraniano e ao Estreito de Ormuz.
O Irã havia apresentado a proposta na semana anterior, indicando que a passagem marítima pelo estreito poderia ser normalizada caso determinadas condições fossem atendidas. Trump rejeitou inicialmente o plano, mas o Catar manteve a mediação e continuou levando mensagens entre Washington e Teerã. Com a retirada americana do Iraque concluída e as negociações ainda em andamento, os dois movimentos passam a compor um cenário de reorganização militar e diplomática no Oriente Médio, com possíveis reflexos sobre a segurança regional e sobre uma das principais rotas marítimas de petróleo e gás do mundo.
FUP Explica
A saída americana deixa o Iraque em uma posição delicada: o governo de Bagdá celebra a retirada como conquista de soberania, mas herda um vácuo de capacidade operacional que as forças locais podem não conseguir preencher rapidamente. A inteligência e a vigilância aérea que os EUA forneciam eram peças centrais no monitoramento de células do Estado Islâmico, e a ausência desse suporte abre espaço real para que remanescentes do grupo tentem se reorganizar em áreas remotas do país.
O movimento que mais preocupa analistas, porém, é o das milícias pró-Irã. Com a coalizão fora de cena, Teerã perde o principal contrapeso externo à sua influência sobre grupos armados iraquianos, e esses grupos tendem a converter a vitória simbólica da retirada em pressão concreta sobre instituições políticas e de segurança. Isso coloca Bagdá numa corda bamba: precisa mostrar a Washington que segue sendo um parceiro confiável, mas depende politicamente de forças que Teerã financia e arma. O prazo de desarmamento das milícias, fixado para junho de 2027, vai ser o termômetro real dessa equação.
No plano mais amplo, a retirada e as negociações sobre o Estreito de Ormuz compõem um mesmo movimento de reorganização no Oriente Médio. Se o acordo de confiança entre EUA e Irã avançar, a passagem marítima pode ter alguma normalização, o que aliviaria a pressão sobre o mercado de petróleo e gás. Se travar, o estreito permanece como ponto de tensão ativa, com reflexos diretos sobre preços de energia e rotas de abastecimento que afetam economias muito além da região.
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