
Imagem: rawpixel
EUA e China acertam redução de tarifas sobre US$ 60 bilhões em comércio bilateral
Listas incluem eletrodomésticos, brinquedos e artigos domésticos chineses, além de milho, trigo, carnes e laticínios americanos; soja e terras raras permanecem entre os principais pontos pendentes
Estados Unidos e China deram um novo passo na trégua comercial neste domingo (28), ao detalharem listas que somam US$ 60 bilhões em mercadorias que poderão receber tratamento tarifário mais favorável, após o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Washington. São cerca de US$ 30 bilhões em produtos de cada lado: os americanos selecionaram 77 categorias de importações chinesas, enquanto Pequim relacionou 1.619 categorias de mercadorias dos Estados Unidos.
O movimento alcança de eletrodomésticos, brinquedos e artigos domésticos chineses a milho, trigo, carnes e laticínios americanos, mas deixa de fora questões de maior peso nas negociações, como a tarifa adicional chinesa sobre a soja dos EUA e a disputa em torno das terras raras.
Segundo o South China Morning Post (SCMP), a lista preparada pelos Estados Unidos inclui produtos chineses como micro-ondas, ferros elétricos, brinquedos e enfeites de Natal. Outros artigos domésticos e bens de consumo também estão entre as categorias selecionadas. Do lado chinês, a relação concentra-se principalmente em produtos agrícolas americanos, além de incluir carvão, madeira e dispositivos médicos, como aparelhos auditivos e marca-passos.
A lista chinesa alcança milho, trigo, sorgo, carnes, laticínios, óleos vegetais e farelos. De acordo com a Reuters, Pequim anunciou a redução de tarifas sobre uma extensa relação de produtos agrícolas americanos, que também contempla óleo e farelo de soja. O comércio de produtos agrícolas e relacionados presentes nessa lista movimentou aproximadamente US$ 17 bilhões em 2024.
A soja em grão, no entanto, ficou de fora. O produto continuará sujeito a uma tarifa adicional de 10% na China, percentual que, segundo operadores ouvidos pela Reuters, dificulta as compras pelas esmagadoras privadas chinesas. A exclusão ganha peso porque a soja está entre os principais produtos agrícolas comercializados entre os dois países e continua sendo um dos pontos de negociação entre Washington e Pequim.
Mesmo com a tarifa, empresas estatais chinesas seguem comprando o grão americano. Sinograin e COFCO já adquiriram mais de 12 milhões de toneladas dos Estados Unidos, quase metade das 25 milhões de toneladas anuais que a Casa Branca afirma que Pequim se comprometeu a comprar até 2028. O governo chinês, entretanto, ainda não confirmou publicamente essa meta.
Há também uma diferença importante na forma como os dois governos apresentaram as concessões. O Ministério do Comércio da China informou que mais de 90% dos produtos abrangidos pelo entendimento receberão tarifas de nação mais favorecida, com a retirada das tarifas recíprocas. Já o governo americano apresentou suas 77 categorias como recomendações para tratamento tarifário mais favorável.
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que os US$ 30 bilhões em produtos de cada lado poderão se beneficiar de condições tarifárias mais favoráveis, conforme os procedimentos internos necessários.
Além das listas, Washington e Pequim acertaram a criação de um grupo de trabalho agrícola para discutir regulamentações, acesso aos mercados, obstáculos comerciais e possibilidades de cooperação. A primeira reunião está prevista para ocorrer antes do fim deste ano, mantendo o setor agrícola entre as principais frentes de negociação entre as duas economias.
Enquanto as barreiras sobre produtos considerados menos sensíveis começam a ceder, as terras raras continuam fora dos avanços anunciados. Os comunicados divulgados após as negociações não apresentaram um novo acordo sobre os controles chineses de exportação desses materiais, utilizados em cadeias industriais de tecnologia, eletrônicos e energia. Pequim suspendeu restrições sobre materiais críticos até janeiro, mas Washington ainda manifesta preocupação com atrasos nas entregas e com o processo de concessão de licenças.
Alfredo Montufar-Helu, diretor da Ankura Consulting na China, afirmou ao SCMP que o domínio chinês sobre a mineração e o processamento de terras raras e outros minerais críticos permanece como uma das principais ferramentas de negociação de Pequim. Na avaliação do executivo, Washington deverá pressionar nos próximos meses por condições mais previsíveis de acesso a esses insumos.
As conversas ainda alcançaram aviação e serviços financeiros. Os governos concordaram em manter o diálogo sobre o aumento do número de voos entre os dois países, enquanto a China informou que analisará pedidos de instituições financeiras estrangeiras, inclusive aquelas com capital americano, interessadas em operar no mercado chinês.
Não houve, porém, novo anúncio sobre o compromisso para a compra de 200 aeronaves da Boeing pela China, mencionado após a visita de Trump a Pequim, em maio, mas ainda sem pedido formalizado.
Apesar das listas extensas, analistas avaliam que o entendimento ainda não altera de forma significativa a estrutura do comércio entre Estados Unidos e China. Deborah Elms, chefe de política comercial da Hinrich Foundation, observou ao SCMP que muitos dos produtos contemplados têm peso relativamente pequeno nas trocas bilaterais. O acordo, portanto, reduz barreiras para determinados segmentos e mantém aberto o diálogo entre Washington e Pequim, enquanto soja, terras raras e outras questões mais sensíveis continuam pendentes.
FUP Explica
O acordo é real, mas seu tamanho não deve iludir: US$ 60 bilhões em mercadorias cobertas é um número expressivo em termos absolutos, mas pequeno diante do volume total das trocas entre as duas maiores economias do mundo. A própria Deborah Elms, da Hinrich Foundation, apontou que boa parte dos produtos selecionados tem peso relativamente pequeno na relação bilateral. Ou seja, o entendimento funciona mais como sinal político de que o diálogo segue aberto do que como virada estrutural na guerra comercial.
As duas ausências mais relevantes dizem muito sobre onde estão os nós reais. A soja americana continua com tarifa adicional de 10%, o que na prática mantém o produtor americano em desvantagem frente ao brasileiro no mercado chinês. Mesmo com as compras das estatais Sinograin e COFCO, a meta de 25 milhões de toneladas anuais que a Casa Branca atribui a Pequim não foi confirmada pelo governo chinês, o que deixa esse compromisso no campo da incerteza. Para o agronegócio americano, isso é um problema concreto. Para o Brasil, que compete diretamente nesse mercado, pode ser uma janela que segue aberta.
No campo das terras raras, a situação é ainda mais delicada. Pequim suspendeu restrições até janeiro, mas não cedeu em nada estrutural: o controle sobre mineração e processamento continua intacto e funciona como alavanca de pressão sobre Washington. Isso tende a pesar em setores industriais americanos que dependem desses insumos, como tecnologia, eletrônicos e energia. A curto prazo, a incerteza sobre licenças e prazos de entrega já preocupa operadores. A médio prazo, a pressão americana por acesso mais previsível deve crescer, mas sem garantia de resposta de Pequim. O acordo de agora, portanto, resolve o que é fácil e deixa o difícil para a próxima rodada.
Por que importa para o Brasil: há concorrência direta com exportações brasileiras em carnes e milho. O detalhamento divulgado hoje permite acompanhar de forma mais precisa quais produtos americanos ganharão competitividade no mercado chinês.
A soja ter ficado de fora também preserva uma vantagem importante da soja brasileira no maior mercado importador mundial. É, portanto, uma notícia relativamente favorável ao Brasil dentro do acordo agrícola EUA–China




