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EUA avaliam bloquear exportações de diesel enquanto Europa tenta evitar nova pressão sobre combustíveis
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EUA avaliam bloquear exportações de diesel enquanto Europa tenta evitar nova pressão sobre combustíveis

29/09/2026·768 palavras

Possível restrição busca conter preços no mercado americano, mas pode atingir mais da metade das importações europeias do combustível e um terço das compras britânicas, além de pressionar gasolina e querosene de aviação nos próprios Estados Unidos

Em meio à disparada dos preços dos combustíveis e à redução dos estoques americanos, o governo de Donald Trump avalia restringir temporariamente as exportações de diesel dos Estados Unidos para manter mais produto no mercado interno e tentar conter os valores nas bombas. A possibilidade, discutida em Washington nas últimas semanas diante dos impactos das guerras no Irã e na Ucrânia sobre a oferta de petróleo e derivados, já levou Reino Unido e União Europeia a buscar interlocução com autoridades americanas, enquanto refinarias e analistas alertam que uma intervenção destinada a baratear o diesel pode provocar efeitos sobre outros combustíveis e atingir importantes compradores no mercado internacional.

A maior preocupação está na dependência europeia do produto americano. Segundo o POLITICO, os Estados Unidos respondem por mais de 50% das importações de diesel da União Europeia e por cerca de 10% de todo o consumo do bloco. Apesar da exposição, autoridades europeias demonstraram nesta terça-feira (29) um otimismo cauteloso de que Washington não levará adiante uma possível suspensão por 90 dias.

O ministro da Energia da Irlanda, Darragh O’Brien, afirmou ter recebido indicações de integrantes do governo americano de que não haveria forte mobilização pela medida, enquanto o comissário europeu de Energia, Dan Jørgensen, destacou declarações do secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, contrárias à eficácia de uma proibição.

No Reino Unido, o governo também tenta evitar uma interrupção dos embarques. De acordo com a BBC, autoridades britânicas iniciaram conversas com os Estados Unidos e, paralelamente, começaram a se preparar para um eventual bloqueio. Em 2025, os americanos responderam por cerca de 31% das importações britânicas de diesel, sendo o maior fornecedor externo individual do país.

A preocupação aumentou depois que o preço médio do combustível atingiu 199,33 pence por litro nesta segunda-feira (28), acima do recorde de 199,09 pence registrado em junho de 2022, após o início da invasão russa da Ucrânia. A gasolina também subiu e chegou a 174,23 pence por litro.

A discussão ocorre em um momento de forte pressão sobre a oferta nos Estados Unidos. Dados da U.S. Energy Information Administration (EIA), reunidos pelo Diplomacy and Law, mostram que os estoques americanos de destilados ficaram abaixo da faixa observada entre 2021 e 2025 e poderiam cair para menos de 100 milhões de barris em setembro, permanecendo abaixo dos níveis recentes durante o restante de 2026 e boa parte de 2027. Em 18 de setembro, os estoques estavam em aproximadamente 107,4 milhões de barris.

Manter mais diesel dentro do país poderia reduzir temporariamente os preços desse combustível, mas o efeito não seria necessariamente limitado a ele. Cerca de 45% de um barril de petróleo refinado se transforma em gasolina e aproximadamente 30% em diesel, enquanto o restante resulta em produtos como combustível de aviação e asfalto. Por isso, restringir a saída de diesel sem reduzir sua produção pode levar ao acúmulo do derivado e pressionar a capacidade de armazenamento das refinarias.

O risco é particularmente relevante na Califórnia, que exporta grande parte do diesel produzido localmente e dispõe de espaço limitado para armazenar excedentes. Caso os tanques atinjam sua capacidade, refinarias poderiam reduzir o processamento de petróleo, diminuindo também a oferta de gasolina e combustível de aviação. Nesse cenário, uma medida criada para aliviar o preço do diesel poderia elevar o custo de outros derivados.

Na segunda-feira, o diesel custava em média US$ 8,39 por galão no estado, enquanto a gasolina regular estava em US$ 6,36. A média nacional do diesel havia alcançado US$ 6,45.

Além dos efeitos sobre oferta e preços, uma eventual proibição poderia abrir uma discussão comercial na Organização Mundial do Comércio. O artigo XI do GATT estabelece, em geral, restrições ao uso de proibições quantitativas sobre exportações, embora preveja condições específicas para medidas temporárias destinadas a prevenir ou aliviar uma escassez crítica de produtos considerados essenciais. A compatibilidade de uma eventual decisão americana com as regras comerciais dependeria, portanto, do formato adotado, da duração, da abrangência geográfica e das possíveis exceções.

Por enquanto, nenhuma restrição foi formalmente adotada. A Casa Branca informou que não há decisão tomada e que diferentes alternativas continuam sob avaliação para reduzir os preços dos combustíveis nos Estados Unidos. Enquanto Washington calcula os efeitos domésticos de uma intervenção nas exportações, Reino Unido e União Europeia tentam preservar o acesso ao diesel americano em um mercado já pressionado por estoques menores, conflitos militares e restrições na oferta de outros grandes fornecedores.

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O ponto central aqui é que uma medida pensada para resolver um problema doméstico americano pode criar um problema de abastecimento de escala internacional, e os dois lados dessa equação são complicados. Nos EUA, o governo enfrenta uma pressão política real de agricultores e caminhoneiros, que são base eleitoral republicana, mas qualquer intervenção nas exportações corre o risco de produzir o efeito oposto ao desejado: se as refinarias não conseguirem escoar o diesel, podem cortar a produção de petróleo processado como um todo, o que eleva o preço da gasolina e do querosene de aviação, combustíveis que afetam muito mais consumidores urbanos.

Para a Europa e o Reino Unido, o risco é de um choque de oferta em um mercado que já opera sob pressão. Com os russos fora do jogo como fornecedores relevantes desde a invasão da Ucrânia e o Oriente Médio instável, o diesel americano virou uma âncora de abastecimento para o bloco. Perder mais da metade das importações europeias de uma vez obrigaria os países a disputar carregamentos alternativos com outras regiões, o que empurraria os preços para cima em toda a cadeia, do transporte rodoviário à agricultura. O fato de autoridades europeias e britânicas já estarem em contato com Washington e preparando planos de contingência mostra que ninguém está tratando isso como hipótese remota.

Na dimensão comercial, a discussão na OMC seria inevitável se a proibição avançasse. O GATT permite restrições temporárias a exportações em casos de escassez crítica, mas o enquadramento jurídico depende de detalhes que Washington ainda não definiu, como duração, abrangência e exceções. Isso cria incerteza jurídica para contratos em andamento e para o planejamento de importadores que dependem do diesel americano, inclusive em economias em desenvolvimento que também compram o produto e que as fontes consultadas apontam como potencialmente afetadas, sem detalhar quais países ou regiões seriam os mais expostos.

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