
ESPO apoia revisão do ETS marítimo europeu, mas aponta riscos aos portos
Organização europeia de portos apoia proposta da Comissão Europeia sobre vazamento de carbono no ETS, mas alerta para necessidade de avaliação adicional para evitar desvantagens competitivas.
A Organização Europeia de Portos Marítimos (ESPO) se posicionou a favor da proposta da Comissão Europeia de revisar o ETS marítimo da União Europeia, mas com ressalvas importantes. A entidade reconhece avanços na proposta, especialmente no enfrentamento do chamado vazamento de carbono e de negócios, e ao mesmo tempo alerta para riscos concretos de distorção competitiva e complexidade regulatória excessiva que podem prejudicar os portos europeus.
O que o ETS marítimo tem a ver com vazamento de negócios
O EU ETS marítimo já está em vigor e representa um custo crescente para o setor. O sistema obriga embarcações que operam em rotas com escalas em portos da UE a adquirir licenças de emissão correspondentes a uma parcela do CO2 gerado. Com o escopo previsto para se ampliar nos próximos anos, o debate sobre a revisão ganha peso.
Um dos problemas centrais que a proposta tenta resolver é o desvio de escalas: armadores que optam por portos fora da UE justamente para evitar os custos do ETS. Para conter esse comportamento, a Comissão propõe revisar a lista de portos vizinhos não pertencentes à UE — os chamados portos elegíveis — com o objetivo de reduzir as escalas evasivas. A proposta também prevê a extensão do sistema para embarcações de menor tonelagem.
Posição da ESPO sobre o ETS marítimo revisado
A ESPO reconhece que a Comissão demonstra disposição em tratar o vazamento de negócios como problema real, mas avalia que as medidas propostas ainda são insuficientes. Isabelle Ryckbost, Secretária-Geral da organização, afirmou que, mesmo com as mudanças na lista de portos vizinhos, os portos da UE continuarão em desvantagem competitiva em relação a portos fora do bloco. Além disso, a inclusão de embarcações menores no sistema pode gerar novos problemas não previstos.
A oposição da ESPO à redução do limiar de tonelagem bruta é firme. O argumento é direto: incluir embarcações de menor porte no ETS pode desincentivar o transporte marítimo de curta distância — o chamado short sea shipping — e empurrar cargas para o modal rodoviário. Isso contraria o objetivo europeu de promover modais mais sustentáveis e eficientes em emissões.
A organização também defende que a proposta europeia aguarde a finalização do Net-Zero Framework da Organização Marítima Internacional (IMO). Avançar sem esse alinhamento cria assimetrias regulatórias entre regiões e pode colocar os portos europeus em posição ainda mais desfavorável no cenário global.
Próximos passos
A proposta segue agora para análise do Parlamento Europeu e do Conselho da UE. A ESPO instou os legisladores a fortalecerem o texto para que ele concilie ambição climática com condições equitativas de concorrência.
Mudanças na lista de portos vizinhos elegíveis podem alterar itinerários de navios que conectam o Brasil à Europa, afetando tempos de trânsito e opções de transbordo. A ampliação do escopo do ETS tende a pressionar os custos operacionais dos armadores, com potencial repasse nas tarifas de frete em rotas com origem ou destino europeu.
Se a extensão do sistema a embarcações menores desincentivar o short sea shipping, a distribuição de cargas brasileiras após a chegada ao continente também pode ser afetada. O período entre a proposta atual e a eventual finalização do framework da IMO representa uma janela de instabilidade normativa que pode influenciar decisões de roteirização e contratação de fretes.
FUP Explica
Se a revisão do ETS marítimo avançar sem as salvaguardas que a ESPO pede, o risco de desvio de escalas para portos fora da UE aumenta — e isso pode redesenhar rotas que hoje conectam o Brasil à Europa, alterando opções de transbordo e alongando tempos de trânsito.
Armadores que ajustam itinerários para fugir do custo do ETS não avisam com antecedência: a mudança aparece primeiro nas tabelas de serviço e, depois, nas cotações de frete.
Há também o efeito de médio prazo ligado à extensão do sistema para embarcações menores. Se o short sea shipping europeu encolher por pressão de custo regulatório, a distribuição de cargas dentro do continente — inclusive as brasileiras que chegam a um porto hub e seguem para destinos menores — tende a migrar para o modal rodoviário, o que pode encarecer e complicar a última milha logística na Europa.
Enquanto isso, o período de indefinição entre a proposta atual e o eventual alinhamento com o framework da IMO cria exatamente o tipo de incerteza que dificulta contratos de frete de prazo mais longo: ninguém quer precificar um risco que ainda não tem contorno definido.
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