
Crise no Mar Vermelho ressuscita rota longa pelo Canal de Suez
O bloqueio do Estreito de Bab al-Mandeb pelos Houthis do Iêmen colocou em xeque a principal rota alternativa que a Arábia Saudita havia construído para escoar petróleo enquanto o Estreito de Ormuz opera sob restrições severas. Com dois chokepoints internacionais comprometidos simultaneamente, refinarias asiáticas e operadores de comércio exterior ao redor do mundo enfrentam um cenário de incerteza logística sem precedentes.
O porta-voz militar dos Houthis, Yahya Sarea, declarou o bloqueio com efeito imediato, descrevendo a medida como retaliação ao que o grupo classifica como um cerco saudita a portos e aeroportos iemenitas. Os primeiros efeitos concretos apareceram rapidamente: os petroleiros Rodos e Xin Long Yang, que transportavam juntos 2,8 milhões de barris de petróleo bruto saudita com destino à Ásia, reverteram curso no Mar Vermelho ao se aproximar do estreito, segundo dados da firma de análise de navegação Kpler.
A corretora marítima Clarksons confirmou que a ameaça houthi "começou a ter um impacto geral na atividade dos navios-tanque". Ao todo, sete petroleiros reverteram rota nos últimos dois dias, segundo dados compilados pelas plataformas LSEG e MarineTraffic. Vários outros permaneciam fundeados próximos ao porto saudita de Yanbu, aguardando instruções.
Durante os meses em que o Estreito de Ormuz ficou praticamente paralisado, com queda de mais de 90% no tráfego diário, segundo a Kpler, a Arábia Saudita havia redirecionado volumes crescentes de petróleo pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Em junho, Yanbu exportou cerca de 4,1 milhões de barris por dia, representando aproximadamente 64% do petróleo saudita que normalmente escoaria por Ormuz. Com Bab al-Mandeb agora sob ameaça, esse corredor alternativo perde sua funcionalidade.
Diante do bloqueio, refinarias asiáticas avaliam uma rota de grande extensão: exportar petróleo de Yanbu pelo Canal de Suez, atravessar o Mediterrâneo, contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança e seguir até a Ásia. A questão central é se essa alternativa é rápida e economicamente viável o suficiente para evitar um choque de oferta mais profundo e impedir que os preços do petróleo ultrapassem US$ 100 por barril.
As limitações são significativas. A rota adiciona semanas ao prazo de entrega, eleva substancialmente os custos de frete e combustível e pode restringir o volume total exportável pela Arábia Saudita. Analistas da Kpler apontam que os movimentos dos navios "expõem uma vulnerabilidade crescente na resposta de Riade ao conflito". Segundo a RTP, um fechamento total de Bab al-Mandeb poderia reduzir o fornecimento mundial de petróleo em 7%.
A missão naval europeia Aspides emitiu circular alertando que embarcações vinculadas a Israel, Estados Unidos ou Arábia Saudita correm risco elevado de ataque e devem evitar o Mar Vermelho e o Golfo de Áden. A missão também recomendou que navios com escala recente em portos sauditas reduzam sua pegada eletrônica, minimizando transmissões de AIS para dificultar identificação como alvo.
Especialistas reforçam que os Houthis dispõem de capacidade real de causar disrupção mesmo sem um bloqueio total. Farea al-Muslimi, do Chatham House, afirma que "tudo o que eles precisam é atingir um alvo, mesmo que simbólico, isso criará o pânico necessário entre seguradoras, companhias de navegação e fornecedores de petróleo". O grupo conta com minas navais, drones marítimos e mísseis de cruzeiro.
FUP Explica
O Brasil não depende diretamente da rota de Bab al-Mandeb para seu comércio com os Estados Unidos e a América Latina, mas os efeitos indiretos são relevantes. O estreito responde por cerca de 12% de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo, além de parcela relevante do comércio global de contêineres e gás natural liquefeito.





