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Crise em Ormuz se agrava, mas Irã sinaliza reabertura mediante negociação com EUA
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Crise em Ormuz se agrava, mas Irã sinaliza reabertura mediante negociação com EUA

22/09/2026·858 palavras

O Estreito de Ormuz ainda opera em colapso nesta terça-feira (22). Um alto funcionário iraniano afirmou à Reuters que a passagem poderia ser reaberta em até sete dias, desde que os Estados Unidos reduzissem a pressão militar e suspendessem o bloqueio aos portos iranianos.

A condição inclui manifestação oficial de Washington de disposição para resolver o conflito pela via diplomática e o estabelecimento de um cronograma para negociações. A proposta iraniana teria sido enviada aos EUA por intermediários em 16 de setembro, e a delegação iraniana presente na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, teria autoridade para retomar os contatos. O presidente Masoud Pezeshkian, no entanto, não deve se reunir diretamente com Donald Trump.

Autoridades iranianas também já sinalizaram que uma eventual negociação não significaria necessariamente a reabertura imediata do estreito.

O fluxo pelo estreito despencou de cerca de 125 grandes navios comerciais diários antes do início do conflito, em 28 de fevereiro, para apenas duas embarcações na segunda-feira, 21 de setembro. O tráfego de petroleiros chegou a cair cerca de 70%, com mais de 150 navios ancorados fora do corredor para evitar riscos, conforme a Wikipédia. As principais seguradoras marítimas retiraram a cobertura de risco de guerra para navios na região, impedindo efetivamente muitas embarcações de entrar na passagem.

Dois novos ataques elevaram a preocupação com a segurança da navegação. O petroleiro LR Stephanie, registrado na Ilha de Man, foi atingido por projétil não identificado ao entrar no estreito, com dois tripulantes feridos levemente. O navio de GLP Al Maryah, de bandeira liberiana, havia sido atingido no domingo. Ambos continuaram a viagem sem necessidade de reboque, e a responsabilidade pelos ataques não foi confirmada.

Antes disso, a agência britânica de segurança marítima UKMTO havia informado que outra embarcação foi atingida por projétil ao atravessar Hormuz, provocando incêndio e evacuação da tripulação. O Irã também relatou ataque a navio comercial iraniano próximo à sua costa, com uma pessoa morta e quatro feridas.

Essa deterioração segue um padrão de tentativas frustradas de normalização. Em 17 de abril de 2026, o Irã havia anunciado reabertura do estreito durante uma trégua no Líbano, mas voltou atrás em 18 de abril após os EUA confirmarem a manutenção do bloqueio naval a navios que partem ou atracam em portos iranianos.

A crise atingiu diretamente a infraestrutura energética da Arábia Saudita. O oleoduto East-West, com cerca de 1.200 quilômetros entre Abqaiq e o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, foi paralisado após ataques de drones. A rota havia ganhado importância por permitir exportações sauditas sem depender de Ormuz. De acordo com o The Guardian, Riad afirmou que os drones partiram do Iraque e causaram danos e feridos nas regiões de Riad e Medina. Bagdá confirmou que os ataques foram lançados de seu território, abriu investigação e demitiu o comandante responsável pela província de Maysan.

As exportações sauditas pelo terminal de Yanbu mais do que dobraram desde o início da guerra. Após o ataque, traders e compradores estimaram que os estoques disponíveis no porto poderiam sustentar as exportações por apenas cinco a sete dias. Se a interrupção persistisse, até 4% da oferta mundial de petróleo poderia ficar ameaçada, segundo essas estimativas. A produção saudita havia recuado 2,3 milhões de barris por dia em agosto, para 6 milhões de barris diários, o menor nível em mais de três décadas.

Os houthis avançaram sobre a ilha de Perim, no Estreito de Bab el-Mandeb, aumentando a pressão sobre outra rota essencial para o comércio entre Ásia e Europa. Na segunda-feira, 26 navios atravessaram Bab el-Mandeb. Três fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman pediu ajuda militar a Trump para enfrentar os houthis, mas recebeu apenas uma oferta de apoio de inteligência naquele momento.

Petróleo, diesel e cadeias de consumo sob pressão

As tensões se refletiram nos mercados de energia. Em 11 de setembro, o Brent fechou a US$ 104,61 por barril e o WTI a US$ 100,05, com quedas diárias de 2,81% e 2,37%, respectivamente. Naquela semana, ambos acumulavam alta superior a 8%, após avançarem mais de 6% em uma única sessão. O Commerzbank elevou sua projeção para o Brent ao fim do ano de US$ 75 para US$ 85 por barril, a previsão para o diesel de US$ 950 para US$ 1.200 por tonelada e a do combustível de aviação de US$ 980 para US$ 1.230 por tonelada. O preço médio do diesel nos EUA ultrapassou US$ 6 por galão pela primeira vez e posteriormente superou US$ 6,20.

Os efeitos alcançam também as cadeias de consumo. A Nestlé está elevando preços, reformulando produtos e retirando itens diante do aumento dos custos de energia, frete e matérias-primas. Embora o Oriente Médio represente apenas 2% a 3% de aproximadamente 90 bilhões de francos suíços em vendas da companhia, a empresa considera relevante o impacto indireto sobre seus fornecedores.

A Procter & Gamble estimou impacto de US$ 1 bilhão sobre seu lucro após impostos no ano fiscal de 2027. A FAO alertou para nova rodada de inflação dos alimentos, enquanto dirigentes do Banco Central Europeu admitiram que novas altas de juros poderiam ser necessárias caso o encarecimento da energia continue pressionando os preços.

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O que está em jogo aqui vai muito além do petróleo. Ormuz bloqueado significa que cerca de um quinto do fornecimento diário mundial de energia não tem por onde passar, e a alternativa saudita pelo oleoduto East-West acaba de ser atacada. Com as duas rotas comprometidas ao mesmo tempo, qualquer interrupção adicional pode empurrar o Brent para patamares que o mercado ainda não precificou completamente, mesmo com a alta acumulada de 8% em uma semana.

No plano econômico mais amplo, o risco é de uma espiral inflacionária difícil de conter. Diesel acima de US$ 6,20 por galão nos EUA encarece frete, produção agrícola e manufatura em cadeia. A FAO já sinalizou nova rodada de inflação de alimentos, e o BCE admite que pode ter que subir juros de novo, o que aperta o crédito na Europa num momento em que a atividade já está fraca. Para o Brasil, exportador de commodities agrícolas e importador de combustíveis, a combinação de frete caro, petróleo alto e dólar pressionado por incerteza geopolítica tende a apertar margens tanto de quem exporta quanto de quem importa insumos.

No campo diplomático, a proposta iraniana tem uma lógica de barganha clara: o Irã sabe que segurar Ormuz é sua principal alavanca, e a oferta de reabertura em sete dias é condicional e reversível, como já ficou demonstrado em abril, quando o estreito foi brevemente reaberto e fechado de novo. Enquanto Washington não mudar formalmente sua postura, a tendência é que o tráfego continue perto de zero, os ataques a navios sigam sem autoria confirmada e a pressão sobre preços e cadeias de abastecimento se intensifique.

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