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Houthis ameaçam interesses dos EUA e elevam risco sobre rota de Bab el-Mandeb
Grupo do Iêmen afirma que eventual apoio militar de Washington à Arábia Saudita seria uma “linha vermelha”; avanço pela costa do Mar Vermelho aumenta preocupação com rota ligada ao Canal de Suez
Os Houthis do Iêmen ameaçaram atacar interesses dos Estados Unidos no Oriente Médio caso Washington apoie militarmente a Arábia Saudita ou tente intervir no Estreito de Bab el-Mandeb, uma das principais passagens do transporte marítimo entre a Ásia e a Europa. A advertência foi feita nesta quarta-feira (23) por Abed Mohammed al-Thawr, conselheiro militar do grupo, em meio ao avanço Houthi pela costa do Mar Vermelho e à preocupação com uma nova escalada na rota que conecta o Golfo de Áden ao Canal de Suez. Os sauditas vêm buscando apoio do governo de Donald Trump para conter o avanço do grupo.
Al-Thawr afirmou que uma intervenção norte-americana para assumir o controle de Bab el-Mandeb seria considerada uma “linha vermelha”. O conselheiro acrescentou que, caso os Estados Unidos participem de ataques ou forneçam apoio aéreo à Arábia Saudita, interesses norte-americanos na região poderão se tornar alvos. Trump recusou até agora ordenar ataques contra os Houthis a pedido de Riade, enquanto forças sauditas seguem realizando ofensivas contra áreas controladas pelo grupo no Iêmen.
A escalada também provocou uma rara manifestação pública do rei Salman bin Abdulaziz. Segundo o Dawn, o monarca saudita classificou os Houthis como uma “milícia terrorista” e condenou uma suposta tentativa do grupo de atingir Meca, acusação negada pelos combatentes. Salman também elogiou as Forças Armadas e os serviços de segurança sauditas pela defesa do país. Ao mesmo tempo, os Houthis acusaram a Arábia Saudita de realizar ataques que teriam causado mortes de civis e detentos no Iêmen.
A tensão ganhou peso adicional após os Houthis aumentarem o controle sobre a costa do Mar Vermelho. A ofensiva consolidou posições próximas a Bab el-Mandeb e elevou os temores sobre o comércio e a navegação internacional. O movimento ocorre enquanto o grupo também responde a ataques sauditas e intensifica ações contra o território da Arábia Saudita. Segundo fontes militares citadas pelo jornal, 154 pessoas morreram em combates e ataques nos dois dias anteriores à publicação da reportagem.
O agravamento da crise também provocou reação internacional. Países do Grupo dos Sete (G7) pediram que os Houthis encerrem as ações militares e suspendam ameaças e ataques contra a navegação civil. O Reino Unido, por sua vez, anunciou apoio de reabastecimento aéreo para aeronaves sauditas em missões defensivas, enquanto a França prometeu ajudar na proteção da infraestrutura energética da Arábia Saudita, sem participar diretamente dos combates contra o grupo.
Embora o confronto seja militar, um dos principais pontos de pressão está sobre uma rota fundamental para o comércio internacional. Bab el-Mandeb funciona como porta de entrada para o Mar Vermelho e, consequentemente, para o Canal de Suez. Uma deterioração da segurança no estreito pode levar companhias marítimas a abandonar novamente essa passagem e optar pelo contorno da África pelo Cabo da Boa Esperança, aumentando as distâncias, o tempo de trânsito e os custos das viagens entre a Ásia e a Europa.
Esse movimento já ocorreu após os ataques dos Houthis contra embarcações no Mar Vermelho iniciados em 2023. Os desvios contribuíram para perdas de aproximadamente US$ 11 bilhões nas receitas do Canal de Suez. Agora, justamente quando a hidrovia começa a recuperar tráfego, a nova progressão territorial do grupo volta a colocar a rota sob pressão. Maersk e Hapag-Lloyd anunciaram em setembro a retomada de quatro serviços conjuntos de porta-contêineres por Suez, deixando o desvio pelo sul da África. A passagem concentra normalmente cerca de 12% do comércio mundial e 30% do tráfego de contêineres.
Até o momento, entretanto, não houve retirada generalizada dos navios de Bab el-Mandeb. Dados da DataPortuaria mostram que o estreito registrou 256 travessias entre 7 e 13 de setembro, aumento de 3,2% em relação à semana anterior, enquanto os movimentos de navios carregados subiram para 131. Após uma queda logo depois da tomada de Mokha pelos Houthis, o tráfego voltou a crescer, indicando que os operadores ainda não iniciaram um desvio sustentado do corredor.
O cenário deixa os armadores diante de uma nova fase de incerteza justamente quando o Canal de Suez começava a recuperar volumes. A continuidade do tráfego indica que os operadores ainda mantêm suas rotas pelo estreito, mas o avanço Houthi sobre áreas próximas a Bab el-Mandeb, a possibilidade de maior participação militar estrangeira e novas ameaças contra embarcações podem levar as companhias a rever suas decisões de roteamento e voltar a pressionar uma das principais conexões marítimas entre a Ásia e a Europa.
FUP Explica
O que torna essa ameaça diferente das anteriores é o alvo declarado: desta vez, os Houthis não falam apenas em atacar navios ligados a Israel ou à Arábia Saudita, mas em atingir interesses norte-americanos diretamente caso Washington entre no conflito. Isso eleva o nível de risco percebido para toda a navegação na região, porque coloca os EUA, com sua capacidade naval, como variável central do cenário, e não apenas como observador distante.
Do ponto de vista do comércio marítimo, o problema imediato é a incerteza sobre a posição de Trump. Enquanto ele mantiver a recusa em ordenar ataques, os armadores têm alguma previsibilidade para operar pelo estreito, como os dados de travessias da semana de 7 a 13 de setembro ainda mostram. Mas qualquer mudança nessa posição, seja por pressão saudita, seja por algum incidente que envolva embarcações ou bases americanas, tende a provocar uma retirada rápida das companhias da rota, repetindo o que aconteceu em 2023 e 2024. A diferença é que agora Maersk e Hapag-Lloyd acabaram de voltar para o Canal de Suez depois de meses desviando pelo Cabo da Boa Esperança: uma nova ruptura chegaria num momento em que a hidrovia egípcia ainda não recuperou o volume perdido.
No plano político, a situação coloca Trump numa posição delicada: recusar o apoio à Arábia Saudita preserva o acordo tácito com os Houthis de não atacar alvos americanos, mas deixa Riad exposta e pode enfraquecer a posição dos EUA como parceiro de segurança no Golfo. Aceitar o pedido saudita, por outro lado, pode reabrir uma frente de conflito que Washington preferia considerar encerrada. Esse dilema tende a se intensificar à medida que os Houthis avançam pela costa ocidental do Iêmen e se aproximam do litoral que margeia o estreito.




