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Com 40% do PIB global, BRICS pressiona por mudanças no FMI e Banco Mundial
Geopolítica

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Com 40% do PIB global, BRICS pressiona por mudanças no FMI e Banco Mundial

11/09/2026·673 palavras

_Encontro reúne líderes de economias emergentes em meio a discussões sobre comércio, sistema financeiro internacional e maior cooperação entre os membros_

A 18ª Cúpula do BRICS, marcada para este fim de semana, 12 e 13 de setembro, em Nova Délhi, reúne líderes e representantes das principais economias emergentes em meio a disputas comerciais, guerras, pressão por reformas nas instituições financeiras internacionais e uma tentativa de ampliar a cooperação econômica dentro do bloco. Sob a presidência da Índia, o encontro deve discutir mecanismos de pagamento, comércio, tecnologia e governança mundial, enquanto países como Rússia, China, Irã e a própria anfitriã chegam à reunião com interesses distintos e relações externas pressionadas por conflitos e sanções.

O Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira, sem a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o Terra, a cúpula também ocorre em um momento de reaproximação entre Índia e China, após anos de tensão na fronteira do Himalaia.

Entre os temas econômicos mais concretos, ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do BRICS voltaram a defender uma reforma do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.

O grupo quer ampliar cotas, direitos de voto e representação de economias emergentes nessas instituições, além de tornar pagamentos transfronteiriços mais rápidos e baratos. A declaração conjunta também critica tarifas e medidas comerciais unilaterais que, na avaliação dos integrantes, prejudicam de forma desproporcional países em desenvolvimento.

O peso econômico do agrupamento ajuda a explicar essa pressão por maior espaço nas estruturas de governança mundial. Em artigo de análise publicado pela CGTN, o BRICS de 2026 é descrito como responsável por cerca de 40% do PIB mundial em paridade de poder de compra, 26% do comércio mundial e mais da metade do crescimento econômico do planeta, reunindo aproximadamente 3,85 bilhões de pessoas.

O texto também destaca que mecanismos de pagamento, inteligência artificial, financiamento a pequenas e médias empresas e preservação do sistema multilateral de comércio estão entre os temas trabalhados ao longo da presidência indiana.

Exportações indianas ao bloco crescem quase 50%

Na frente comercial, a Índia chega ao encontro com sinais de maior integração com os demais membros. Dados do Electronics and Computer Software Export Promotion Council mostram que as exportações indianas de eletrônicos para países do BRICS cresceram 49,27% no ciclo 2025-2026.

China e Emirados Árabes Unidos concentraram 88,5% dessas vendas, enquanto equipamentos de telecomunicações responderam por 74,6% das remessas. A entidade indiana vê espaço para ampliar essa relação por meio de infraestrutura digital, facilitação de comércio e apoio a pequenas e médias empresas.

Ao mesmo tempo, a cúpula carrega forte componente geopolítico. Em discurso no fórum empresarial, Vladimir Putin voltou a criticar sanções e medidas adotadas por países ocidentais. O presidente russo afirmou que o BRICS responde por mais de 40% do PIB mundial e disse que a economia russa cresceu 10,3% entre 2023 e 2025. Esses números foram apresentados pelo próprio Putin e fazem parte de sua defesa de que Moscou conseguiu ampliar a resiliência econômica apesar das restrições internacionais.

Relações bilaterais e transferência de presidência marcam o encontro

Antes da cúpula, Putin e o primeiro-ministro Narendra Modi também discutiram energia, defesa, fertilizantes, minerais críticos, manufatura, ferrovias e siderurgia. A Reuters, destacou que a Índia mantém forte relação energética com a Rússia e defende que segurança de abastecimento e preços acessíveis devem pesar em suas decisões comerciais.

Paralelamente, Xi Jinping e Modi preparam uma reunião bilateral que pode aprofundar a distensão entre China e Índia, embora ainda existam desconfianças econômicas e de segurança entre os dois países.

Além das relações entre seus principais membros, o BRICS terá de administrar divergências sobre os conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, além dos efeitos dessas crises sobre energia, comércio e rotas marítimas. O debate também ocorre às vésperas da transferência da presidência do grupo da Índia para a China, em 2027. Assim, a reunião de Nova Délhi deve combinar uma agenda prática de comércio e finanças com o desafio mais amplo de conciliar interesses nacionais distintos dentro de um bloco que busca ampliar sua influência internacional.

FUP Explica

A cúpula do BRICS em Nova Délhi concentra, num só fim de semana, praticamente todas as tensões que marcam a ordem econômica e política internacional neste momento. O ponto mais concreto é a pressão por reforma do FMI e do Banco Mundial: se o bloco representa cerca de 40% do PIB mundial em paridade de poder de compra e mais da metade do crescimento do planeta, a sub-representação nas cotas e nos votos dessas instituições vira argumento difícil de ignorar. Qualquer avanço nessa direção muda o peso relativo de economias emergentes nas decisões sobre crédito, ajuste fiscal e regras financeiras internacionais, o que afeta desde a capacidade de países endividados de negociar condições até o custo de captação de governos que dependem dessas janelas.

No plano geopolítico, o encontro expõe as contradições internas do bloco com clareza. Rússia e China têm interesse em apresentar o BRICS como alternativa ao sistema liderado pelo Ocidente, enquanto a Índia, anfitriã, mantém relação energética intensa com Moscou e, ao mesmo tempo, tenta reduzir a tensão com Pequim sem abrir mão de suas próprias prioridades de segurança. Essa geometria variável torna difícil qualquer declaração conjunta que vá além do mínimo denominador comum, especialmente nos temas mais sensíveis, como os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio. A ausência de Lula e a representação do Brasil pelo chanceler Mauro Vieira sinaliza que Brasília acompanha o processo sem colocar capital político pesado nesta rodada.

A transferência da presidência do bloco da Índia para a China em 2027 adiciona uma camada a mais: o que for acordado agora em termos de agenda e mecanismos tende a ser o ponto de partida para uma presidência chinesa que provavelmente vai empurrar com mais força a narrativa de contrapeso ao dólar e às instituições de Bretton Woods. Para quem opera no comércio internacional, o debate sobre pagamentos transfronteiriços mais rápidos e baratos é o item com potencial de impacto mais direto a médio prazo, ainda que os mecanismos concretos para isso ainda não estejam definidos.

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