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Canal do Panamá eleva capacidade de trânsito após melhora das chuvas
Calado dos navios Neopanamax sobe para 49 pés e número de passagens diárias chegará a dez em outubro, mas déficit hídrico mantém sistema de reservas como única garantia de travessia
Depois de meses reduzindo a passagem e a capacidade de carga dos navios por causa da falta de água, o Canal do Panamá começou a flexibilizar as restrições com a recuperação das chuvas e dos níveis do Lago Gatún. A Autoridade do Canal do Panamá (ACP) elevou para 49 pés, ou 14,94 metros, o calado máximo autorizado nas eclusas Neopanamax e aumentará, a partir de 15 de outubro, de nove para dez o número de trânsitos diários dessa categoria.
Com a mudança, o corredor entre os oceanos Atlântico e Pacífico passará a oferecer 33 vagas por dia entre as eclusas Neopanamax e Panamax, enquanto a administração continua monitorando a disponibilidade de água na região.
Segundo o gCaptain, a decisão reverte parte das restrições adotadas ao longo dos últimos meses, quando chuvas abaixo da média e o desenvolvimento do El Niño aumentaram a preocupação com o Lago Gatún, principal reservatório utilizado nas operações do Canal. O calado máximo dos Neopanamax havia sido reduzido progressivamente até chegar a 48 pés no início de setembro, e uma nova redução, para 47,5 pés, estava prevista para 1º de outubro, mas acabou cancelada após a melhora das condições hídricas.
A capacidade de trânsito também havia diminuído. Desde 3 de setembro, as eclusas Neopanamax estavam limitadas a nove passagens diárias, enquanto as Panamax passaram a operar com 23 vagas a partir de 15 de setembro. Com a recuperação de uma passagem para os navios de maior porte, o Canal volta a disponibilizar 33 trânsitos por dia. Ao mesmo tempo, o aumento do calado permite que as embarcações atravessem a hidrovia com mais carga a bordo.
O efeito dessa mudança pode ser significativo para os porta-contêineres. Uma estimativa da indústria citada pela FreightWaves aponta que um navio com capacidade para 10 mil TEUs pode deixar de transportar cerca de 450 TEUs para cada pé de restrição no calado. A recuperação de um pé, portanto, reduz a necessidade de limitar o carregamento para atravessar as eclusas, dando às companhias marítimas maior margem para utilizar a capacidade de seus navios.
A melhora operacional foi possível após as precipitações se aproximarem das médias históricas na bacia hidrográfica do Canal, combinadas com medidas para reduzir o consumo de água nas eclusas. De acordo com a Port Technology International, a decisão considera tanto os níveis atuais quanto as projeções para o Lago Gatún. Entre as iniciativas adotadas desde a forte seca de 2023 e 2024 estão o uso mais frequente das bacias de reutilização de água das eclusas Neopanamax, operações simultâneas de eclusagem, quando possíveis, e outras mudanças destinadas a preservar água doce.
As condições mais favoráveis também permitiram flexibilizar as regras de agendamento. Conforme a Reuters, em reportagem reproduzida pela Baird Maritime, foram retiradas as limitações sobre a quantidade de vagas que um cliente poderia reservar por data ou semana, e reservas para dias consecutivos voltaram a ser permitidas.
Apesar das mudanças, a administração do Canal alerta que a recuperação ainda não representa o fim dos problemas relacionados à disponibilidade de água. A bacia hidrográfica permanece em déficit, e o sistema de reservas continua sendo a única forma de garantir uma data para a travessia. Navios que chegarem sem agendamento podem enfrentar atrasos por tempo indeterminado.
A flexibilização ocorre ainda em meio às alterações nas principais rotas marítimas internacionais. Neste ano, interrupções e riscos envolvendo o Estreito de Ormuz, o Mar Vermelho e o Canal de Suez levaram operadores a reconsiderar itinerários, aumentando, em determinados períodos, a procura pelo Panamá e a disputa por reservas e vagas oferecidas em leilões de última hora. Por enquanto, a ACP continuará acompanhando as chuvas e os níveis do Lago Gatún antes de decidir se haverá novos ajustes na capacidade de trânsito.
FUP Explica
A flexibilização no Canal do Panamá tem peso direto para o comércio marítimo internacional, especialmente para quem depende da rota entre o Atlântico e o Pacífico. O aumento do calado de 48 para 49 pés e a décima vaga diária para Neopanamax ampliam a capacidade efetiva da hidrovia, o que tende a aliviar a pressão sobre fretes e sobre a disputa por slots, que chegou a acirrar leilões de última hora nos períodos de maior restrição.
O dado da FreightWaves sobre os 450 TEUs perdidos por pé de restrição ajuda a dimensionar o que estava em jogo: navios grandes operando abaixo da capacidade encarecem o custo por unidade transportada e forçam as linhas a redistribuir carga entre mais viagens ou rotas alternativas. A recuperação desse pé de calado, portanto, não é detalhe técnico, é margem de rentabilidade para as armadoras e, indiretamente, custo para quem embarca mercadoria.
O ponto de atenção, no entanto, é que o déficit hídrico na bacia não foi resolvido, apenas atenuado. A ACP mantém o sistema de reservas como única garantia de travessia, o que significa que operadores sem agendamento seguem expostos a atrasos indefinidos. Num cenário em que o Mar Vermelho e o Canal de Suez continuam com instabilidade, o Panamá permanece como alternativa relevante para diversas rotas, e qualquer nova seca pode reacender a disputa por vagas rapidamente.




