
Imagem: einride.tech
Caminhões autônomos deixam os testes e começam a rodar na Europa
Lidl e Einride iniciam operação de veículos elétricos sem motorista na Alemanha, enquanto estudo projeta mercado de € 100 bilhões ligado à tecnologia até 2035
Os caminhões autônomos começam a deixar os ambientes de teste para ganhar espaço nas operações logísticas da Europa. Desde setembro de 2026, a rede varejista Lidl e a empresa sueca Einride avançam com um projeto de veículos elétricos autônomos na Alemanha, após receberem autorização para operar com tecnologia de nível 4 em vias públicas.
A iniciativa, voltada à conexão entre estruturas logísticas da companhia, surge em meio à falta de motoristas no continente e à busca por cadeias de suprimentos mais resilientes, ao mesmo tempo que autoridades europeias aceleram a liberação de diferentes modalidades de transporte sem condutor.
A autorização foi concedida pela Autoridade Federal de Transporte Motorizado da Alemanha, a KBA, e permite que a Einride coloque os veículos em circulação dentro de condições específicas. Segundo a Euronews, o projeto com a Lidl prevê o uso de caminhões elétricos autônomos em operações logísticas a partir deste mês. Embora ainda seja uma iniciativa-piloto, a varejista espera que a tecnologia ajude a enfrentar a escassez de profissionais e reduza a dependência de motoristas em determinadas etapas de sua cadeia de abastecimento.
A aprovação chama atenção também pelo ambiente em que ocorre. A Alemanha possui regras rigorosas para o transporte rodoviário, e os veículos receberam autorização para operações de nível 4, classificação em que o sistema pode conduzir o caminhão sem intervenção humana dentro de áreas e condições previamente determinadas. Esse modelo favorece inicialmente trajetos mais previsíveis, como conexões entre centros de distribuição e operações entre hubs logísticos, antes que a tecnologia seja aplicada a percursos mais complexos.
Apesar desses primeiros movimentos, a Europa ainda está atrás dos Estados Unidos e da China no desenvolvimento comercial dos caminhões autônomos. A McKinsey estima que operações rodoviárias sem motorista entre hubs logísticos possam estar comercialmente disponíveis no continente por volta de 2031, enquanto a autonomia durante toda a viagem, incluindo trechos fora das rodovias, pode chegar aproximadamente em 2034. O cronograma coloca o mercado europeu entre três e quatro anos atrás do norte-americano.
Parte dessa diferença está relacionada às características das próprias redes rodoviárias. Nos Estados Unidos, corredores longos e previsíveis, especialmente em regiões como o chamado Sun Belt, oferecem condições favoráveis aos primeiros serviços comerciais. Já a Europa reúne estradas mais densas, trajetos complexos e regras historicamente mais rígidas. Ainda assim, novas normas internacionais para a condução totalmente autônoma podem preparar o terreno para uma adoção mais intensa depois de 2030.
Além de modificar a forma como as cargas circulam, a tecnologia pode criar um novo mercado em torno do transporte rodoviário.
A análise da McKinsey calcula que o ecossistema europeu relacionado aos caminhões autônomos, considerando transporte de cargas e serviços ligados à operação dos veículos, pode alcançar € 100 bilhões até 2035. Nesse cenário, parte do valor hoje concentrado na venda de caminhões tende a migrar para áreas como softwares de condução, teleoperação remota e manutenção preditiva.
A aceitação das transportadoras, porém, ainda é uma barreira. Em pesquisa realizada em 2026, 36% dos compradores de frotas consultados disseram estar dispostos a adotar caminhões autônomos, ante 25% no ano anterior. Entre as preocupações estão a definição de responsabilidade jurídica em acidentes, a falta de regulamentação consolidada e a experiência ainda limitada das empresas com esses sistemas.
Enquanto o transporte de cargas avança, outros projetos mostram que a mudança regulatória alcança diferentes modalidades de mobilidade na Europa. Madri autorizou testes de transporte autônomo de passageiros com Uber, WeRide e AVOMO, enquanto a WeRide obteve permissão para operar ônibus sem motorista no Aeroporto de Zurique. Em Zagreb, Pony.ai e Verne começaram testes entre o aeroporto e o distrito empresarial da capital croata, e a Waymo planeja iniciar suas primeiras operações na União Europeia, em Munique, em 2027.
Para o transporte rodoviário de cargas, no entanto, a combinação entre escassez de mão de obra, busca por redução de custos e necessidade de tornar as cadeias de abastecimento mais eficientes pode fazer dos caminhões um dos principais campos de aplicação da condução autônoma. Por enquanto, iniciativas como a parceria entre Lidl e Einride funcionam como testes em condições reais, mas também antecipam uma transformação que deve ganhar força na próxima década, quando caminhões sem motorista poderão começar a conectar centros logísticos pelas principais rodovias europeias.
FUP Explica
O avanço dos caminhões autônomos na Europa tem dimensões econômicas, sociais e regulatórias que vale separar. No plano econômico, a projeção de € 100 bilhões até 2035 não representa apenas crescimento de mercado: ela sinaliza uma redistribuição de valor dentro do setor. Fabricantes de caminhões tradicionais podem perder participação relativa para empresas de software, teleoperação e manutenção preditiva, o que tende a redesenhar as relações comerciais e os contratos de longo prazo no setor de logística.
No plano social, a escassez de motoristas é o argumento central que justifica a adoção da tecnologia, e isso tem duas leituras. Por um lado, a automação resolve um gargalo real que já pressiona operações logísticas no continente. Por outro, ela pode acelerar a substituição de postos de trabalho em um setor que emprega milhões de pessoas na Europa, o que tende a gerar pressão política e sindical à medida que os projetos-piloto evoluírem para operações em escala.
No campo jurídico e institucional, a barreira mais concreta no curto prazo é a responsabilidade em acidentes. Com 36% das transportadoras dispostas a adotar a tecnologia em 2026, ante 25% no ano anterior, o interesse cresce, mas a insegurança jurídica ainda trava decisões de investimento. A regulamentação consolidada, que ainda não existe em escala europeia, será o fator que determina o ritmo real de adoção, mais do que a maturidade técnica dos veículos.
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