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Brasil busca integrar minerais críticos do Mercosul e Chile em novas cadeias produtivas
Brasil coordena com Mercosul estratégia de cadeia de minerais críticos (nióbio, grafite, níquel, terras raras) visando ampliar participação e exportação com valor agregado na região.
O Brasil deu um passo formal para integrar as cadeias produtivas de minerais críticos na América do Sul. Em 6 de agosto, o Ministério de Minas e Energia assinou um acordo de cooperação técnica com a CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe) para articular a participação do Mercosul e do Chile nessas cadeias, com foco em insumos ligados à transição energética, conforme informou a CNN Brasil. O documento foi assinado pelo secretário nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral substituto, Anderson Barreto Arruda, e por um representante da CAF.
A cooperação terá duração inicial de 12 meses e caráter não reembolsável. O trabalho central será construir um diagnóstico sobre como os recursos minerais e as capacidades produtivas dos países da região podem ser conectados em cadeias comuns, identificando oportunidades de cooperação em tecnologia, produção e regulação.
Entre as entregas previstas estão o mapeamento do potencial mineral do Mercosul e do Chile, uma projeção da demanda mundial por minerais críticos até 2050 e a criação de uma base regional de dados minerais. O acordo também prevê um estudo comparativo dos marcos regulatórios dos países envolvidos, que poderá apontar diferenças nas regras nacionais e obstáculos à formação de cadeias produtivas transnacionais. Uma carteira preliminar de projetos será elaborada ao longo do processo, e oficinas técnicas serão realizadas para discutir e consolidar os resultados.
O Brasil se destaca pela diversidade mineral, com reservas relevantes de nióbio, grafite, níquel e terras raras, além de potencial em lítio e cobre. Argentina e Chile concentram recursos expressivos de lítio e cobre, enquanto a Bolívia tem grandes reservas de lítio e busca ampliar sua industrialização. Paraguai e Uruguai têm participação mineral menor: o território paraguaio registra ocorrências de titânio e urânio, e o Uruguai produz principalmente calcário, ferro e outros minerais industriais.
Segundo a Agência Internacional de Energia, citada pela Agência Brasil em abril de 2026, cerca de 45% do lítio e 30% do cobre do mundo estão na América Latina.
Contexto político e geopolítico da iniciativa
A articulação regional foi sinalizada pelo presidente Lula durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, realizada em Assunção em junho de 2026. Na ocasião, segundo o portal Eixos, Lula afirmou que "desenvolver cadeias regionais que incluam etapas de maior valor agregado é uma questão de segurança nacional e soberania" e reconheceu que ainda não havia diagnóstico conjunto sobre o potencial mineral do bloco nem levantamento dos projetos prioritários para desenvolvimento compartilhado.
A iniciativa se insere num movimento mais amplo do governo brasileiro de reduzir a concentração da atividade mineral na extração e exportação de matérias-primas sem processamento, como apurou a CNN Brasil. Ao propor uma abordagem regional, o acordo com a CAF avalia como as vantagens minerais e industriais de cada país do Mercosul e do Chile podem ser combinadas para ampliar o processamento desses insumos na América do Sul.
O pano de fundo é a disputa entre China e Estados Unidos pelo controle das cadeias de minerais críticos, que passou a ocupar espaço central nas políticas industriais e de segurança econômica das grandes economias. A iniciativa também chega na sequência do acordo Mercosul-União Europeia, que ampliou o interesse europeu por matérias-primas da região, e de recentes movimentos dos Estados Unidos sobre a América Latina.
FUP Explica
O que o Brasil está tentando fazer aqui é sair do papel de exportador de minério bruto e entrar numa posição em que a América do Sul agrega valor antes de vender para Europa, China ou Estados Unidos. Isso tem implicações políticas e econômicas relevantes: quem controla o processamento de minerais críticos tem muito mais poder de barganha do que quem só vende a matéria-prima. O acordo com a CAF é um primeiro passo diagnóstico, não uma cadeia produtiva pronta, mas ele cria a base técnica e política para negociações futuras dentro do bloco.
O timing não é coincidência. O acordo Mercosul-UE colocou os minerais da região no centro das atenções europeias, e a disputa sino-americana por lítio, cobre e terras raras torna a América do Sul um ativo disputado. Países que chegarem a essa mesa com uma proposta regional articulada, e não apenas como fornecedores individuais, tendem a negociar em melhores condições. O risco, por outro lado, é que o diagnóstico fique no papel: a história da integração sul-americana tem exemplos de acordos bem desenhados que não saíram do estágio de estudo.
Para o setor mineral brasileiro, a iniciativa pode abrir espaço para que empresas que já operam no país se posicionem em cadeias mais longas, inclusive com parceiros argentinos e chilenos. Mas isso depende de o estudo comparativo de marcos regulatórios identificar caminhos reais de harmonização, o que não é simples dado que cada país tem regras próprias sobre concessão, royalties e participação estrangeira. O prazo de 12 meses para o trabalho é curto para resolver essas diferenças, mas suficiente para mapear onde estão os nós.
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