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Bill Gates quer profissões protegidas da IA
Tecnologia

Imagem: Divulgação/Huna

Bill Gates quer profissões protegidas da IA

27/08/2026·440 palavras

Você provavelmente conhece a história dos acendedores de lampiões, trabalhadores cuja principal ocupação, antes da luz elétrica, era percorrer as ruas da cidade acendendo ou apagando os lampiões a gás, óleo ou querosene. Essa profissão foi extinta, e no Rio de Janeiro o último candeeiro público teria sido apagado em 31 de dezembro de 1933.

Talvez a gente nem precise ir tão longe: se perguntarmos em um grupo de Comex, é bem provável que alguém, entre os participantes, tenha datilografado uma Declaração de Importação em uma máquina de escrever.

Todos esses episódios mostram a tecnologia reduzindo a disponibilidade de trabalho, mas quase sempre a mesma tecnologia que substituía acabava criando novas oportunidades. A energia elétrica, no fim das contas, rendeu muito mais emprego do que tirou.

A pergunta agora é se o mesmo irá acontecer com a inteligência artificial, algo de que o próprio Bill Gates, um dos maiores entusiastas da tecnologia, começou a duvidar.

Em ensaio publicado em seu blog pessoal, o cofundador da Microsoft escreve sobre a necessidade de começarmos a pensar em reservar trabalho para as pessoas. Ele batizou a ideia de "Human Reserved": ocupações que as máquinas seriam plenamente capazes de exercer, mas que a sociedade decidiria manter em mãos humanas.

A garantia sugerida vem por meio de políticas públicas. O Estado, além de demarcar essas ocupações, taxaria a própria IA, incluindo os tokens, métrica de custo usada para precificar o uso dos modelos.

A proposta chama a atenção especialmente porque, até pouco tempo atrás, o empresário imaginava a tecnologia focada apenas em beneficiar o trabalho humano e acelerar avanços contra doenças e mudanças climáticas. Agora, ele revela preocupação: no último ano, viu a IA superar suas expectativas em programação e viabilizar ciberataques que classificou como impressionantes, enquanto a regulação seguiu parada.

O ensaio tem quase seis mil palavras e, em entrevista ao GeekWire, o cofundador da Microsoft contou que chegou a discutir com um chatbot formas de elevar a 40% a fatia de trabalho reservada às pessoas, com jornadas mais curtas e aposentadoria antecipada para dividir o que sobrar.

Os medos reunidos por Gates no texto vão da segurança, com fraudes, invasões digitais e armas biológicas, ao emprego, e chegam à infância, com risco de prejuízo ao aprendizado e às relações humanas. Para ele, a indústria não vai se regular sozinha, e a saída passa pela criação de instituições novas, nacionais e internacionais, incluindo um organismo inspirado nos modelos de inspeção nuclear, nas regras da aviação e nos tratados sobre a camada de ozônio.

Fica a pergunta para quem vive de comércio exterior: qual parte do nosso ofício é lampião e qual é luz elétrica.

FUP Explica

O que torna o ensaio de Gates relevante não é o fato de ele ser bilionário da tecnologia falando sobre IA, mas sim a mudança de posição. Quando alguém que ajudou a construir esse setor começa a defender taxação de tokens e reserva legal de trabalho humano, o debate sai do campo acadêmico e entra na agenda política com outro peso. Isso tende a acelerar discussões em parlamentos e organismos internacionais que até agora avançavam devagar.

No plano econômico, a proposta de taxar o uso de modelos de IA (medido em tokens) funcionaria como um desincentivo ao ritmo de substituição de mão de obra, ao mesmo tempo em que geraria receita para financiar políticas de transição, como jornadas reduzidas e aposentadoria antecipada. Quem paga essa conta, no entanto, são as empresas que usam IA em escala, e o custo pode ser repassado a produtos e serviços. A discussão sobre quem arca com a transição tecnológica ainda não tem resposta clara.

No campo social, o ponto mais sensível é o da infância: Gates cita risco ao aprendizado e às relações humanas, o que abre espaço para regulação de uso de IA em escolas e plataformas voltadas a crianças, debate que vários países já iniciaram mas poucos concluíram. Para o mercado de trabalho em geral, a ideia de "Human Reserved" é menos uma solução do que um sinal de que a automação chegou a um ponto em que nem seus maiores defensores conseguem garantir que o ciclo de destruição e criação de empregos vai se repetir como antes.

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