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Ataques a navios mercantes se espalham pelo Mar Negro e aumentam o risco para rotas comerciais
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Ataques a navios mercantes se espalham pelo Mar Negro e aumentam o risco para rotas comerciais

07/10/2026·1210 palavras

Em poucos dias, cargueiros e petroleiros foram atingidos entre as costas da Ucrânia e da Rússia e águas próximas a Bulgária e Romênia; sequência deixa mortos e desaparecidos e pressiona operações de grãos, petróleo e outras mercadorias

Navios em chamas, embarcações afundadas e tripulantes mortos ou desaparecidos marcaram uma sequência de ataques contra a navegação mercante no Mar Negro nos últimos dias. Entre áreas próximas à Ucrânia e à Rússia e águas de Bulgária e Romênia, cargueiros e petroleiros foram atingidos por drones ou outros ataques relacionados à guerra, levando a insegurança a diferentes corredores comerciais da região e aumentando a preocupação de armadores e operadores com tripulações, cargas, seguros e custos do transporte marítimo.

Um dos episódios mais graves ocorreu na madrugada de terça-feira (6), quando os cargueiros Alfa Watan, de bandeira do Togo, e Able, registrado em Palau, foram atingidos a cerca de 70 milhas náuticas, ou 130 quilômetros, a leste da cidade búlgara de Byala. Segundo a Reuters, fontes do setor marítimo apontaram que esse pode ter sido o primeiro ataque com drones contra navios comerciais dentro da zona econômica exclusiva da Bulgária. As autoridades do país ainda não haviam determinado a origem dos equipamentos.

O Alfa Watan, cargueiro de 83 metros e propriedade turca, afundou depois de ser atingido enquanto seguia em direção ao porto romeno de Sulina. A carga transportada ainda não havia sido identificada. De acordo com a Euronews, dez tripulantes permaneciam desaparecidos após as equipes de resgate encontrarem três balsas salva-vidas e um bote virado, mas nenhum dos marinheiros. Helicópteros e uma aeronave Su-25 foram mobilizados nas buscas.

O Able, também de propriedade turca, transportava trigo e navegava em direção ao sul quando um drone marítimo atingiu sua popa e provocou o alagamento da casa de máquinas. Os 18 tripulantes, 11 turcos e sete indianos, foram resgatados pelo ferry Dioscuria e levados para Varna. Dois precisaram ser hospitalizados, um com queimaduras e outro com ferimentos na cabeça. Na manhã de quarta-feira (7), o cargueiro permanecia em chamas e corria risco de afundar.

A autoria dos ataques contra Alfa Watan e Able permanecia indefinida. O primeiro-ministro búlgaro, Rumen Radev, classificou o episódio como uma grave violação do direito internacional, enquanto o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, negou que forças de seu país estivessem envolvidas. O Kyiv Independent também registrou que os dois navios foram atingidos a cerca de 112 quilômetros da costa e destacou que o caso seria o primeiro ataque com drones relatado contra a navegação comercial dentro da zona econômica exclusiva búlgara.

Os episódios ocorreram um dia depois de outro ataque contra a navegação comercial próximo à Romênia. Um cargueiro de propriedade turca, que transportava grãos da Ucrânia para a Itália, foi atingido por pelo menos um drone, pegou fogo e afundou. Duas pessoas morreram e outros 11 tripulantes foram resgatados. Zelensky responsabilizou drones russos pelo ataque, enquanto Moscou não havia se pronunciado sobre a acusação.

A sequência se estendeu também à costa russa. Na noite de terça-feira, o petroleiro Aframax Rio, de bandeira da Libéria, pegou fogo no Mar Negro, nas proximidades de Sochi. O incêndio levou autoridades a fechar praias e trechos da orla enquanto eram monitoradas as condições da água e do ar. Segundo o The Insider, o episódio foi confirmado por Dmitry Plishkin, chefe da administração do território federal de Sirius.

O Aframax Rio está sob sanções da Ucrânia e é associado à chamada “frota sombra”, formada por embarcações utilizadas para manter o comércio de petróleo russo diante das restrições impostas ao país. Dados da Starboard Maritime Intelligence citados pelo The Insider mostram que o navio havia feito escalas em portos russos do Mar Negro e permaneceu semanas sem aparecer no serviço de rastreamento. Sua última posição registrada antes desse período, em 20 de setembro, estava próxima ao porto romeno de Constanța.

Autoridades russas atribuíram o incêndio a um ataque com embarcações não tripuladas. Segundo o The Moscow Times, o ministro dos Transportes da Rússia, Andrei Nikitin, afirmou que o petroleiro foi atacado por drones marítimos. Os 23 tripulantes, todos indianos, foram resgatados. O incêndio foi posteriormente extinto e, de acordo com o Ministério dos Transportes russo, não houve vazamento de petróleo.

Relatos de canais russos citados pelos veículos indicaram que o Aframax Rio navegava de Novorossiysk para a Índia e estaria quase totalmente carregado de petróleo, embora as autoridades não tenham confirmado oficialmente o volume transportado. Também não havia confirmação independente sobre a autoria do ataque. Registros marítimos apontam que o navio transportou petróleo regularmente de portos russos como Ust-Luga, Novorossiysk e Taman para Índia, Singapura e Arábia Saudita entre 2024 e 2026.

O episódio em Sochi ocorreu em uma área que já vinha registrando ações relacionadas à guerra. Localizada a cerca de 650 a 700 quilômetros da fronteira ucraniana, a cidade russa sofreu ataques com drones contra o porto e instalações petrolíferas nos últimos meses. O Kyiv Independent havia informado inicialmente que o Aframax Rio poderia ter sido atingido por uma embarcação não tripulada e destacou que o petroleiro integra a lista ucraniana de sanções relacionada à frota sombra russa.

Outros navios comerciais também foram atingidos nas proximidades da Ucrânia. Em 6 de outubro, um ataque russo contra uma embarcação mercante de bandeira das Ilhas Marshall matou pelo menos um tripulante e deixou outros feridos, segundo autoridades da região de Odesa. O navio transportava óleo de colza e sofreu um incêndio na superestrutura. Três dias antes, outro cargueiro civil, de bandeira liberiana, havia sido atacado em um porto próximo a Odesa, deixando uma pessoa morta.

Embora tenham circunstâncias e atribuições diferentes, os episódios chamam atenção pela concentração em poucos dias e pela distribuição geográfica. Ocorrências envolvendo embarcações comerciais foram registradas desde portos ucranianos até a costa russa e as zonas econômicas exclusivas de países integrantes da Otan, levando a ameaça para corredores mais distantes das áreas marítimas tradicionalmente associadas aos combates entre Rússia e Ucrânia.

A empresa de segurança marítima MARISKS classificou os ataques próximos à Bulgária como uma escalada significativa da ameaça ao transporte comercial e recomendou que comandantes e operadores mantenham atenção à atividade de drones. A preocupação está concentrada especialmente na possibilidade de embarcações civis enfrentarem riscos maiores em corredores até então considerados mais afastados das principais áreas de combate.

Os efeitos podem ir além da segurança das tripulações e das cargas. O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, afirmou que a deterioração das condições de navegação tende a elevar os riscos, os seguros e as despesas de transporte, além de ameaçar o fluxo de alimentos para mercados internacionais. A Índia, que tinha cidadãos entre os tripulantes das embarcações atingidas, também condenou os ataques e alertou para os impactos sobre trabalhadores marítimos e o comércio.

Desde o início da guerra, em 2022, o Mar Negro permanece como uma rota sensível para o transporte de grãos, petróleo, derivados e outras mercadorias. Minas à deriva, ataques contra portos e embarcações e o uso de drones marítimos e aéreos já pressionavam as operações. A sequência recente acrescenta um novo fator de preocupação: navios comerciais estão sendo atingidos em diferentes pontos da região, o que pode pesar sobre seguros, fretes e decisões de armadores sobre a manutenção de serviços em um dos principais corredores marítimos entre a Europa, a região do Mar Negro e outros mercados.

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O que torna essa sequência de ataques diferente das ocorrências anteriores no Mar Negro é a geografia: os incidentes saíram das águas próximas à Ucrânia e chegaram às zonas econômicas exclusivas de Bulgária e Romênia, dois membros da Otan. Isso muda o cálculo político de forma relevante, porque um ataque dentro da ZEE de um país da aliança pode ser lido como agressão a território sob proteção coletiva, mesmo que a embarcação atingida não seja daquele país. A ausência de pronunciamento de Moscou e a atribuição feita por Zelensky criam um vácuo de responsabilidade que complica qualquer resposta diplomática coordenada.

No plano econômico, o efeito mais imediato tende a ser o encarecimento das operações na rota. Seguradoras costumam reagir a episódios como esse elevando prêmios de risco para embarcações que operam em áreas de conflito, e armadores podem optar por desviar rotas ou reduzir a frequência de passagens pelo Mar Negro. Como a região é um corredor relevante para o transporte de grãos, especialmente trigo e milho com origem na Ucrânia, qualquer perturbação nessa rota tende a repercutir nos preços internacionais de alimentos, afetando países importadores que dependem desse fluxo.

Para os trabalhadores marítimos, o risco é direto e imediato: os três incidentes em dois dias resultaram em mortes, desaparecimentos e hospitalizações de tripulantes de diferentes nacionalidades. A condenação da Índia, que tinha cidadãos a bordo, sinaliza que o tema pode ganhar dimensão diplomática mais ampla, pressionando países de origem das tripulações a exigir garantias que, no momento, nenhuma das partes em conflito parece em condições de oferecer.

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