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Anthropic cria laboratório de biologia para levar pesquisas com IA a experimentos físicos
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Anthropic cria laboratório de biologia para levar pesquisas com IA a experimentos físicos

29/09/2026·781 palavras

Estrutura na Baía de São Francisco coloca modelos como o Claude em pesquisas que avançam das simulações computacionais para testes em laboratório e já participou da identificação de um sistema semelhante ao CRISPR

A Anthropic, empresa responsável pelo Claude, criou um laboratório de biologia na região da Baía de São Francisco, nos Estados Unidos, para levar pesquisas feitas com inteligência artificial além das simulações em computador e testá-las em experimentos físicos. A estrutura, instalada neste ano e mantida discretamente pela companhia até ser confirmada em setembro, funciona como um laboratório convencional de biologia molecular, com cientistas realizando os testes enquanto modelos de IA analisam dados, formulam hipóteses e ajudam a direcionar as pesquisas.

Poucos meses depois de iniciar as atividades, a unidade já participou de um resultado que a empresa considera relevante: a identificação de um sistema enzimático até então desconhecido no DNA de vírus que infectam bactérias.

Segundo a Reuters, a existência do chamado wet lab, expressão utilizada para laboratórios onde são realizados experimentos físicos, foi confirmada por Eric Kauderer-Abrams, chefe de ciências da vida da Anthropic. A instalação permite que a companhia avance das avaliações in silico, feitas exclusivamente em computadores, para a etapa em que hipóteses podem ser colocadas à prova no mundo físico. Parte das pesquisas é conduzida dentro da própria estrutura, enquanto outros trabalhos são realizados com parceiros externos.

A Anthropic também começa a estudar até onde a inteligência artificial poderá participar da execução desses experimentos. A companhia pesquisa maneiras de fazer o Claude orientar equipamentos robóticos na realização de determinadas tarefas com intervenção humana limitada, embora considere a supervisão de pesquisadores indispensável para a segurança.

A empresa afirma que essa automação ainda está em estágio inicial e, atualmente, todo o trabalho físico dentro do laboratório é executado por cientistas.

É justamente nesse ambiente que surgiu um dos primeiros resultados divulgados pela companhia. De acordo com o TechCrunch, pesquisadores da Anthropic afirmam ter encontrado, com participação do Claude, um sistema enzimático até então desconhecido no DNA de bacteriófagos, vírus que infectam e se reproduzem dentro de bactérias. O mecanismo apresenta propriedades que lembram o CRISPR e, segundo a empresa, consegue realizar operações como cortar, copiar e inserir trechos de DNA.

Para chegar ao sistema, o Claude teria trabalhado por cerca de 21 horas, utilizando aproximadamente 950 agentes de inteligência artificial e consumindo 210 milhões de tokens durante a análise dos dados.

A Anthropic atribui grande parte do trabalho ao modelo, mas reconhece que a pesquisa se apoia em conhecimento científico produzido anteriormente. O CEO Dario Amodei afirmou que uma equipe da Universidade Stanford já havia identificado outro sistema com algumas características semelhantes.

Por isso, ainda caberá à comunidade científica determinar o grau de novidade e a importância do achado. A comparação com o CRISPR também não significa que os mecanismos sejam equivalentes. O CRISPR é um sistema natural de defesa utilizado por bactérias contra vírus e que posteriormente se tornou base para tecnologias de edição genética. O que a Anthropic afirma ter encontrado apresenta algumas propriedades semelhantes, mas precisará passar por avaliação independente.

A criação do laboratório faz parte de uma entrada mais intensa da empresa nas ciências da vida. A Anthropic adquiriu a startup de biotecnologia Coefficient Bio, lançou o Claude Science e levou Vas Narasimhan, CEO da Novartis, para seu conselho. A companhia também passou a contratar profissionais especializados em áreas como caracterização de proteínas e ácidos nucleicos e estabeleceu como objetivo acelerar em dez vezes o progresso nesse campo. As ciências da vida já estão entre as áreas que mais recebem funcionários e recursos dentro da empresa.

Ao mesmo tempo, colocar modelos de inteligência artificial mais perto de experimentos biológicos aumenta uma discussão que a própria Anthropic vem levantando.

A empresa já identificou situações em que sistemas de IA poderiam contribuir para o desenvolvimento de armas biológicas, enquanto Amodei aponta o bioterrorismo como um dos riscos associados à evolução da tecnologia. Por esse motivo, a companhia afirma trabalhar apenas com os níveis mais baixos de risco de biossegurança, BSL-1 e BSL-2, sem manipular patógenos capazes de infectar seres humanos.

Por enquanto, há uma divisão clara dentro do laboratório: o Claude pode investigar dados e ajudar a definir caminhos para os experimentos, mas são os cientistas que executam os testes físicos.

A Anthropic, no entanto, já considera um cenário em que a própria IA possa controlar equipamentos de laboratório de maneira autônoma, desde que existam salvaguardas adequadas. Assim, mais do que a descoberta anunciada até agora, a criação da unidade marca uma nova etapa na aposta da empresa: testar até onde uma inteligência artificial pode participar do processo científico quando suas hipóteses deixam a tela do computador e chegam à bancada de um laboratório.

FUP Explica

A criação do laboratório de biologia da Anthropic é relevante por pelo menos dois motivos que se tensionam. O primeiro é o potencial científico: ao integrar modelos de IA ao ciclo completo de pesquisa, da formulação de hipóteses à execução de experimentos físicos, a empresa encurta o caminho entre análise computacional e resultado verificável. Isso pode acelerar descobertas em biologia molecular, área que historicamente depende de ciclos longos de teste e revisão. O segundo motivo é o risco institucional e de segurança: a própria Anthropic reconhece que sistemas de IA podem ser usados para desenvolver armas biológicas, e Dario Amodei cita o bioterrorismo como uma das ameaças concretas ligadas ao avanço da tecnologia. Trabalhar nos níveis BSL-1 e BSL-2 é uma escolha que limita o escopo dos experimentos, mas não elimina o debate sobre onde traçar a linha à medida que as capacidades dos modelos crescem.

Do ponto de vista econômico e competitivo, a movimentação da Anthropic sinaliza que as grandes empresas de IA deixaram de disputar apenas o mercado de software e passam a competir também em pesquisa aplicada nas ciências da vida. A aquisição da Coefficient Bio, a chegada do CEO da Novartis ao conselho e a contratação de especialistas em proteínas e ácidos nucleicos mostram que essa não é uma aposta pontual, mas uma reorientação de recursos. Isso tende a atrair atenção regulatória, especialmente em países que monitoram de perto a interseção entre biotecnologia e inteligência artificial.

Por fim, o resultado com bacteriófagos ainda precisa de validação independente, e a própria empresa admite que pesquisas anteriores tocaram em terreno semelhante. Isso significa que o impacto científico concreto do achado é, por ora, incerto. O que está confirmado é a mudança de postura da Anthropic: de empresa que avalia riscos biológicos da IA de fora para empresa que conduz experimentos biológicos com IA por dentro.

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