
Imagem: Piet Sinke
Alemanha impede Cosco de assumir 80% de empresa que transporta contêineres entre portos e interior
Governo barra compra da Zippel pela estatal chinesa e afirma que operação aumentaria dependências e poderia comprometer a resiliência das cadeias de abastecimento europeias
O governo da Alemanha bloqueou nesta quarta-feira (7) a venda de 80% da empresa de logística Zippel para a estatal chinesa Cosco Shipping, mesmo após a operação ter recebido aval da autoridade antitruste do país. A decisão foi tomada por motivos de segurança e atingiu uma companhia especializada no transporte de contêineres entre portos marítimos e destinos no interior, em meio à crescente cautela europeia com investimentos de empresas estatais chinesas em setores considerados estratégicos para as cadeias de abastecimento.
“A aquisição teria aprofundado as dependências e comprometido a resiliência das cadeias de abastecimento da Alemanha e da União Europeia”, afirmou o Ministério da Economia alemão, segundo o PortalPortuario, que publicou a informação em parceria com a Reuters. A decisão coloca o controle de ativos logísticos no centro das preocupações de Berlim com a segurança econômica, especialmente diante do receio de que investimentos de estatais chinesas em transporte e infraestrutura possam criar dependências e facilitar o acesso a informações sensíveis sobre cadeias de suprimentos.
A Cosco pretendia adquirir uma participação de 80% na Zippel, o que daria ao grupo chinês posição majoritária na empresa. A companhia alemã atua justamente na conexão entre portos e destinos terrestres, transportando contêineres para o interior e ocupando, portanto, uma etapa da cadeia logística posterior à movimentação nos terminais marítimos.
O bloqueio ocorreu mesmo depois de a autoridade antitruste alemã ter aprovado o negócio em fevereiro. Na ocasião, o órgão observou que questões relacionadas à segurança nacional estavam fora de sua competência. Dessa forma, embora a transação não tenha sido impedida sob o ponto de vista concorrencial, a avaliação do governo sobre segurança e dependência das cadeias de abastecimento levou a um resultado diferente.
A Zippel lamentou a decisão, mas informou que suas operações continuarão normalmente. “Teríamos preferido um resultado diferente e continuamos acreditando que nossa decisão comercial foi a correta”, afirmou o CEO da companhia, Axel Plass, em comunicado reproduzido pelo PortalPortuario.
O episódio ocorre em um ambiente de maior vigilância dos governos europeus sobre investimentos de companhias estatais chinesas em infraestrutura de transporte e logística. A preocupação envolve tanto a possibilidade de dependência de empresas estrangeiras em atividades estratégicas quanto o acesso a informações sobre o funcionamento e os fluxos das cadeias de abastecimento europeias.
A Cosco já possui presença no sistema portuário alemão. A companhia detém uma participação minoritária em um terminal de contêineres no Porto de Hamburgo, autorizada pelo governo anterior em 2023, apesar das fortes divergências dentro da coalizão que estava no poder.
Os dois casos, porém, apresentam uma diferença relevante. Em Hamburgo, a Cosco recebeu autorização para manter uma participação minoritária em um terminal. Na negociação agora bloqueada, a estatal chinesa pretendia comprar 80% da Zippel, assumindo posição majoritária em uma empresa voltada ao transporte de contêineres entre os portos e o interior.
Ao impedir a aquisição, Berlim reforça que operações envolvendo empresas ligadas à infraestrutura logística podem ultrapassar a análise tradicional de concorrência e chegar à esfera da segurança econômica. No caso da Zippel, a aprovação antitruste não foi suficiente para garantir a venda, já que o governo considerou que os riscos relacionados à dependência e à resiliência das cadeias de abastecimento justificavam barrar a entrada majoritária da Cosco.
FUP Explica
O caso Cosco-Zippel deixa claro que a Alemanha passou a tratar infraestrutura logística como questão de segurança econômica, não apenas de concorrência. O ponto central é que a aprovação antitruste, que analisa se uma operação prejudica a competição no mercado, não encerrou o debate: o governo usou uma avaliação separada, focada em dependência e resiliência das cadeias de abastecimento, para chegar a um resultado diferente. Isso significa que qualquer empresa estrangeira, especialmente estatal, que queira comprar ativos logísticos na Alemanha agora enfrenta dois filtros distintos, e o segundo pode derrubar o que o primeiro aprovou.
Do ponto de vista político e diplomático, o bloqueio aprofunda a tensão entre Berlim e Pequim num momento em que a Europa discute como reduzir dependências de fornecedores e operadores chineses em setores considerados sensíveis. O contraste com o caso de Hamburgo é revelador: em 2023, o governo anterior autorizou a participação minoritária da Cosco num terminal portuário, mesmo com resistência interna. Agora, com a Cosco buscando posição majoritária numa empresa de transporte terrestre de contêineres, a resposta foi diferente. A posição majoritária, ao que tudo indica, foi o fator que inclinou a balança.
Para o setor de logística internacional, o episódio sinaliza que o escrutínio sobre aquisições de estatais chinesas em elos da cadeia de transporte, dos terminais ao interior, tende a se intensificar na Europa. Operadores e investidores que atuam nesse mercado precisam considerar que a análise regulatória vai além do direito da concorrência e pode envolver avaliações políticas sobre dependência e acesso a informações de fluxo de carga.




