Setor de transportes propõe 'pedágio verde' para acelerar frota de caminhões a biometano
O debate sobre um possível desconto de pedágio para caminhões movidos a gás natural e biometano — chamado informalmente de pedágio verde — ganhou visibilidade no setor de transportes brasileiro durante o CIBiogás Conecta Transporte Pesado, realizado em São Paulo. O evento reuniu produtores, distribuidoras, transportadoras e especialistas que convergem em um diagnóstico central: o principal obstáculo à expansão do biometano no transporte pesado deixou de ser tecnológico e passou a ser econômico.
Por que o pedágio verde entra em pauta agora
Apesar de a tecnologia já estar disponível comercialmente, os números mostram o quanto o mercado ainda é incipiente. O Brasil possui pouco mais de 2,5 mil caminhões movidos a gás natural e biometano em circulação — cerca de 0,1% da frota pesada nacional, estimada em mais de 2 milhões de veículos. Em 2025, foram emplacados cerca de 670 caminhões e ônibus movidos a gás, em um mercado total de aproximadamente 135,5 mil veículos comerciais pesados.
Nesse contexto, a proposta de desconto tarifário surge como uma das ferramentas com maior potencial para estimular a renovação da frota e a criação de corredores logísticos de baixa emissão. Segundo Erica Marcos, gerente executiva ambiental da CNT, o incentivo não se restringiria aos veículos movidos exclusivamente a biometano, mas abrangeria todos os pesados movidos a gás — incluindo gás natural — como forma de ampliar a demanda e acelerar a expansão da infraestrutura de abastecimento.
Desafios estruturais
Dois obstáculos concentram as atenções do setor. O primeiro é a baixa capilaridade da rede de abastecimento: os postos de gás representam atualmente cerca de 5% da rede nacional de postos de combustíveis, o que limita a adoção da tecnologia em operações de longa distância. O segundo é o equilíbrio econômico-financeiro das concessões rodoviárias — qualquer desconto tarifário precisaria ser acompanhado de mecanismos compensatórios para preservar a sustentabilidade dos contratos.
A experiência da Transjordano ilustra tanto os desafios quanto os caminhos possíveis. Ao buscar financiamento do Fundo Clima — linha de crédito do BNDES voltada a projetos de descarbonização — para adquirir 100 caminhões movidos a biometano, a empresa precisou comprovar que os veículos seriam abastecidos integralmente com o combustível renovável durante o período do financiamento. Isso levou a Transjordano a estruturar o próprio Corredor Verde, com pontos de abastecimento previstos em Cubatão, Sumaré e Ribeirão Preto, em um projeto de R$ 140 milhões que combina aquisição da frota e implantação da infraestrutura necessária.
Impacto para operadores de comex
O modal rodoviário é dominante no escoamento de cargas no país — estima-se que 65% dos grãos brasileiros sejam movimentados por rodovias, e o transporte representa, em média, 15% do valor final do produto na logística de grãos. Combustíveis e pedágios somados podem responder por até 60% do custo de transporte, e o setor gastou cerca de R$ 25 bilhões com pedágios no Brasil em 2023, segundo projeção da CNT.
Um eventual desconto de pedágio para frotas a gás poderia representar redução direta nos custos logísticos de exportadores que operam com transportadoras que adotem essa tecnologia — especialmente em rotas de longa distância até portos e agroindústrias. Além do custo, embarcadores com compromissos ESG passam a ter interesse direto na disponibilidade de frotas de baixa emissão para suas cadeias logísticas.
A proposta, no entanto, não possui ainda formato regulatório definido. O debate está em fase inicial de articulação entre setor privado, concessionárias e governo. O consenso entre os participantes do evento é que o mecanismo não pode ser tratado como simples renúncia tarifária, mas como política pública de descarbonização.
FUP Explica
O pedágio verde ainda é uma ideia em construção, mas o debate já sinaliza uma direção que é preciso monitorar. Se a proposta avançar, transportadoras que investirem em frotas a gás e biometano podem ganhar vantagem competitiva de custo — e isso tende a se refletir nos fretes negociados com embarcadores.
Quem exporta grãos ou cargas que dependem de longas rotas rodoviárias até os portos tem interesse direto nessa equação, porque qualquer alívio no custo de pedágio e combustível pode melhorar a competitividade do produto brasileiro lá fora.
O ponto de atenção é que a viabilidade do modelo depende de três variáveis que ainda não estão resolvidas: financiamento público consistente, expansão da rede de abastecimento de gás nos corredores logísticos e mecanismos de compensação para as concessionárias. Sem esses três pilares funcionando juntos, o incentivo não sai do papel. Vale acompanhar eventuais propostas legislativas sobre tarifas diferenciadas de pedágio e o avanço de linhas como o Fundo Clima do BNDES — que, como o caso Transjordano mostrou, pode ser



