
Caminhões a biometano saltam da fase de teste para venda em escala no Brasil
Venda de caminhões com combustível renovável para operadora de coleta de resíduos. Tendência de sustentabilidade em logística rodoviária com impacto potencial em custos de transporte.
A Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) concretizou sua primeira venda comercial em escala de caminhões a biometano no Brasil. Duas empresas já incluíram em suas estratégias a compra dos veículos, a primeira foi a operadora responsável pela coleta de resíduos em parte de São Paulo, que adquiriu 56 unidades do modelo Constellation 26.280 para renovar sua frota.
Os veículos passaram por testes operacionais desde o segundo semestre de 2025, e os resultados obtidos motivaram a compra em escala. O Constellation 26.280 opera com motor ciclo Otto e transmissão automática, tem autonomia de até 300 quilômetros e, segundo a VWCO, reduz em até 90% as emissões de CO₂ em comparação com um caminhão equivalente a diesel. O menor nível de ruído é outro diferencial relevante para operações em áreas urbanas.
O negócio se insere em uma tendência mais ampla de adoção de combustíveis alternativos no transporte pesado. Segundo levantamento do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS), em 2025 foram registrados quase 3,7 mil novos veículos comerciais movidos por combustíveis alternativos no Brasil — mais que o dobro do volume de 2023 e cerca de sete vezes acima do registrado em 2021.
Ainda assim, o segmento é incipiente frente ao diesel: entre janeiro e dezembro de 2025, os emplacamentos de caminhões e ônibus a gás chegaram a 669 unidades, enquanto os movidos a diesel ultrapassaram 135,5 mil licenciamentos, representando 98,6% do total.
Um dos aspectos mais interessantes da compra para coletas é a possibilidade de fechamento de ciclo energético. O biometano pode ser produzido a partir do biogás gerado pela decomposição de resíduos orgânicos em aterros sanitários, o que significa que o próprio lixo coletado pelos caminhões pode se tornar a fonte de energia para abastecê-los. Esse modelo circular combina apelo ambiental com potencial de redução de custos operacionais.
O segundo exemplo de adoção em escala vem da Copersucar, que trabalha para substituir gradualmente cerca de 500 caminhões a diesel por modelos a biometano no transporte de açúcar e etanol. A empresa opera aproximadamente 70 veículos na chamada operação BioRota e afirma que o custo operacional do biometano pode ser entre 20% e 25% menor que o do diesel.
Barreiras que ainda travam a expansão
Apesar dos avanços, a própria VWCO e analistas do setor reconhecem obstáculos relevantes. O custo inicial elevado dos veículos, a expansão limitada da rede de abastecimento fora de bases próprias e a ausência de um mercado consolidado de seminovos para caminhões a gás ainda restringem a adoção em larga escala. A tecnologia segue concentrada em aplicações urbanas, onde autonomia e infraestrutura são menos restritivas.
O ILOS avalia que a transição não ocorrerá pela substituição completa do diesel, mas pela coexistência de matrizes energéticas conforme o perfil operacional de cada rota.
FUP Explica
O transporte rodoviário é o modal dominante na movimentação de cargas no Brasil, e qualquer mudança estrutural nos custos operacionais das frotas tende a se refletir nos fretes. Se a redução de 20% a 25% no custo de combustível apontada por operadores como a Copersucar se confirmar em escala, embarcadores que negociam contratos de frete de médio prazo podem começar a ver essa vantagem precificada nas tabelas, especialmente em rotas urbanas e de distribuição.
Há também uma dimensão regulatória e comercial que merece atenção. Importadores e exportadores que precisam comprovar pegada de carbono reduzida em suas cadeias logísticas, por exigência de clientes internacionais ou de regulações como o CBAM europeu, passam a ter mais opções de transportadoras com frotas de menor emissão.
Isso pode se tornar um critério de seleção de parceiros logísticos no médio prazo. Some-se a isso o debate ainda aberto sobre o pedágio verde, que, se avançar com algum formato regulatório, pode reduzir ainda mais o custo de frete em corredores contemplados.



